domingo, 1 de maio de 2022

O Homem de Connecticut.

 As experiências da vida levam à morte sobretudo através dos desequilíbrios, das desarmonias, dos vícios, dos ódios, das violências físicas e verbais, e demais lambanças inconsequentes em geral.


E pelos caminhos da vida continuam a morrer os que ainda vivem. Morrem uns para os outros, perdidos  em meio a incompreensões que a imaturidade não permite desvendar.


Quem não morre pelo mal, o faz pela tristeza que o mal em si provoca. 


Afinal, a tristeza pode matar, e mata, porque quando é profunda, traz consigo um desejo tão grande de livrar-se do sofrimento e da dor, que ainda que inconscientemente é um apelo à morte.


Havia um homem nascido em Hartford (bem que poderia ser HeartFort), no estado de Connecticut, nos Estados Unidos, cuja mãe colecionava lápis.


Curiosamente interessou-se também por coleções. Inventou de colecionar algo que os lápis podem escrever. Colecionou Citações. A maioria delas de homens célebres: filósofos, escritores, poetas... Em geral grandes interessados na arte de viver, pois buscaram viver com arte, sabendo que "A arte existe para que a verdade não nos destrua."


Do arquivo mental onde esse homem guarda sua coleção, costumam saltar pérolas de sabedoria, que se adequavam a cada buraco aberto na sua alma pelas inconsistências e disparates da vida.


Há pouco, sentado no banco da praça, perdido de si mesmo, absorto no nada, o homem de Connecticut sentia-se impactado.


Acabara de vivenciar algo que o trouxera tão bruscamente à realidade, que momentaneamente perdera o próprio eixo no qual é centrado, de onde costuma observar as maravilhas e os horrores do mundo.


Ele prefere, por vocação, as maravilhas que extasiam, alegram e o enchem de esperança e gratidão pela vida. Ele é da paz! E admira os que conseguem sê-lo.


Entretanto o que ele acabara de presenciar, fora do campo das sombras. Algo inesperado, inadmissível, lamentável, assustador e deplorável.


Acontecera algo muito mau, capaz de influenciar o curso desejável de algumas histórias, como se fosse um 11 de setembro de 2001.


Estourara a III Guerra Mundial? Não foi isso. Foi algo de potencial local equivalente, mas que já lhe era familiar. Um mote recorrente, sempre em crescendo de gravidade de efeitos malignos, à semelhança do que provoca uma radiação atômica.


Primeiro saltou-lhe à cabeça a voz de Bukovsky, que parecia trazer-lhe uma constatação: "São poucas as coisas que ainda consigo suportar."


Permaneceu contudo meditativo, olhar perdido entre os passantes. Eis que como já lhe acontecera após outras "erupções vulcânicas", viu passarem saltitantes diante de si, à frente o próprio Bukovsky, seguido por Freud, Kant, Kafka, Dostoievsky,... Todos, parecendo zombeteiros, diziam coisas ao mesmo tempo, e ele as entendia em separado, muito bem.


"Somos feitos de carne, mas temos que viver como se fôssemos de ferro", dizia Freud. "Seria melhor que nada existisse" disse Kant. Kafka emendou: "O nosso mundo não passa de um mau humor de Deus." E Alexandre Dumas também compareceu, arrematando: "Uma ilusão a menos é uma verdade a mais." Guimarães Rosa pareceu antecipar que, mesmo que nada dele o homem de Connecticut tivesse escutado, mais tarde viria por si próprio pensar: "A cada dia, a cada hora, a gente aprende uma qualidade nova de medo."


O homem de Connecticut esperou respeitosamente que a procissão de sábios terminasse, para voltar para casa. O último a passar foi Alexander Pope, andava apressado, de um modo engraçado, com um jeito maroto de quem tinha algo a segredar. Disse ele de lá: "Os tolos correm por onde os anjos receiam pisar."


Todos escutaram o homem de Connecticut responder: E não há o que se possa fazer! Não seria essa a verdade que tenho de suportar?


Ao sair do parque, abriu-lhe o portão Eduardo Galeano, que disse: "Tentei e continuo tentando aprender a voar na escuridão, como os morcegos, nestes tempos sombrios."


Quase chegando em casa, o homem de Connecticut ainda pensava: Onde irei buscar a esperança, esse urubu pintado de verde?


Teve a impressão de lhe terem sussurrado: "no campo da sua mente".


É quando atravessa a rua à frente dele um caminhão, em cuja traseira se lê: "O tempo tudo cura. Só não cura velhice e loucura."


O futuro lhe dirá se isso  veio para servir de  consolo ou tirar-lhe de vez as esperanças.


sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

2022 - O Sétimo Dia do Ano (07/365) - Parte II.

 


Hoje, quem primeiro beneficiei após me levantar, foi o meu sistema cardio-respiratório. Portanto a minha saúde. Foi o emprego da disciplina em troca do bem-estar.

Mas antes da caminhada matinal, veio a preparação para ela. Enquanto me preparo, me lembro de toda aquela sequência que cumpre o cavaleiro arreando o seu cavalo.

Em poucos minutos porém, após um rápido desjejum, estou no início da pista de caminhada que margeia o rio ao lado de onde moro.

Em uma dessas ligações espontâneas que o nosso cérebro faz, me lembro do aniversário de 450 anos da cidade economicamente mais importante do meu país.

O acontecimento, faz 18 anos, era festejado em praça pública e as autoridades e celebridades em geral sucediam-se emocionadas em suas falas prestando loas à sua cidade.

Interessei-me quando chegou a vez de uma admirável roqueira, apreciada pelos seus dotes artísticos, e também pela sua sinceridade e irreverência. Sua fala, ainda que distinta daquelas dos que a precederam, quase não destoou, exceto por seu desfecho. É que, para concluir, ela pediu à multidão um "VIVA" à cidade. Àquela cidade a única no mundo, "que tem um rio de cocô". 

Iniciei a caminhada fazendo vista grossa para tamanho inconveniente.  Afinal, na minha cidade, o rio também é assim. Melhor não seria dizer que andei fazendo "olfato grosso"?

Hoje havia mais gente, o que não é paradoxal, pois trata-se de uma sexta-feira. Alguns esqueceram de levar os seus cachorros. Reparo na diversidade, nos contrastes, nas incongruências: os sóbrios, os sorridentes, os risíveis, os comuns...

Alguém com inscrições em sua camiseta? Claro que sim! Leio no velhinho que passa: "Venha no seu rítmo". Na mocinha vagarosa, de jeitinho descolado, leio: "ADICTED". Em letras bem pequenininhas, "to running". Embora no momento ela quase só se arrastasse.

Mas houve também quem por mim passasse portando inscrições enfadonhas, que mais pareciam parágrafos inteiros de algum livro de auto-ajuda. Eu precisaria ter apressado o passo, e andado um bom tempo atrás dela, se tivesse interesse em ler tudo aquilo.

Também não pode passar despercebida uma senhora tão velhinha que era admirável que ainda pudesse andar, mesmo que tão devagar. Vestia-se como era costume há mais de cem anos, e parecia saída de um certo quadro de Paul Cézanne. Ao seu lado a acompanhante jovem e muito acima do peso, contrastava com ela também em agilidade e esperteza. Vi-a deixar sua acompanhada sozinha superar um pequeno obstáculo na calçada, um desafio olímpico para aquela mulher quase centenária.

A minha caminhada prossegue. Quase todos usam as máscaras onipresentes em tempos de pandemia, ainda que alguns o façam erradamente. Abaixo da boca,  protegendo apenas o queixo.

E eis que acontece uma quebra de monotonia. São barracas. Estão dispostas uma ao lado das outras de ambos os lados do caminho. "Feira de Orgânicos". O que vendem os barraqueiros? Vejo que há bananas, abacaxis, melancias, atas ou pinhas (fruta do conde)... Há frutas suficientes para com elas fazer saladas muito coloridas! Tem alfaces, chuchus, abobrinhas... Mas senti falta de inhames e macaxeiras. Em compensação há queijos artesanais, panetones, pães de queijo, molhos de pimenta, doces de leite...

Mas a feirinha extrapola o que dela se possa esperar a partir do nome: "Feira de Orgânicos". Ela também exibe roupas para caminhadas, ao lado de plantas e de flores. Aceitam PIX.

Ao final da pista, prosseguir requer cruzar uma ponte. Significa sair de um bairro para outro. É ousar um percurso mais demorado, que ontem me custou um calo no pé. Por isso fiz a volta para repetir o percurso anterior me mantendo perto de casa. 

O retorno, ao final da pista, se faz na "praça dos gatos". É o ponto de encontro dos gatos de rua, que ali recebem da comunidade um tratamento à semelhança dos gatos de Istambul. Não resisto de contar quantos estão por lá, a cada volta. Da primeira vez eram 9, da segunda 19, e há os que, fora da praça, mantêm-se nas redondezas.

Hoje abreviei um pouco a caminhada. Já achava que poderia dar tudo por visto, quando me deparei com um senhor gordinho, cabelos cor da neve, que sentado à margem do caminho observava os passantes. Enquanto isso, cantarolava com voz de falsete cujo tom lembrava Ney Matogrosso!

Atravessei a avenida voltando para casa. Havia menos carros na rua que nos outros meses. Só estão trafegando aqueles que não estão de férias.

Seguiram-se banho, café da manhã e esse registro. Não se pode confiar na memória. Se no futuro me perguntarem: como foram as suas primeiras horas do dia 07 de janeiro de 2022? Lembrarei que foram simples, comuns, mas como sempre especiais para quem sabe observar.

2022 - O Sétimo Dia do Ano (07/365). - Parte I.

 


Foi estranho que na auto-estrada na qual eu seguia, dirigindo seguro da sua habitual monotonia, de repente me assustasse com o que vi. Um carro de aparência esportiva surge em grande velocidade, vindo em minha direção. O choque frontal teria sido inevitável se não fosse apenas um sonho.

Os sonhos me têm sido muito presentes, principalmente aqueles que antecedem o meu despertar, os quais são os mais fáceis de relembrar.

Carro em auto-estrada no sentido contrário? Seu condutor pensa que só ele está certo e os outros errados? Como todos os sonhos, esse também faria brilhar os olhos de qualquer psicanalista.

Mas não terminou aí. Safei-me do choque magistralmente para encontrar mais à frente o momento de eu mesmo fazer uma certa "barbeiragem". Depois de quase atropelar a placa de sinalização de "Proibido Retornar", deixei a auto-estrada.

Logo me deparei com uma estrada vicinal de barro batido que terminava em um grande portão de ferro. Lá dentro um largo pátio antecedia o prédio em que um grupo de senhores entravam ordenadamente.

No pátio encontrei duas pessoas. Não as reconheci, mas observei que estavam ansiosas por saber como saírem dali, e voltarem para a auto-estrada.

Dispus-me a obter essa informação, que a mim também passou a interessar. Apressei-me em pedi-la a um daqueles senhores, que seria o último a entrar no prédio onde iriam se reunir. Ele me mostrou um portão aos fundos de um jardim mal cuidado, igual ao portão da entrada.

Então perguntei se seria por ali que eu voltaria para a auto-estrada. Mas ele respondeu: saindo por ali, você se afastará ainda mais dela.

Desculpem que os sonhos só tenham significado verdadeiro para quem os sonhou! Além do mais alguns são enigmáticos, outros nem tanto, mas não raro acabam antes de terminar. Foi assim com mais esse aí.

Despertei para de imediato levantar no sétimo dia deste ano 2022 que mal começou. Quis dizer: que está só começando. 😟

Pelo menos para mim esse sonho foi pleno de sentido.