Entre a Política e o Futebol.
Entre a Política e o Futebol.
Adequamo-nos aos ambientes das celebrações de casamentos, ou das cerimônias das colações de grau, ritualisticas cada uma ao seu modo.
Nelas é esperado que nada fuja de uma meticulosa programação, ainda que haja riscos disso não acontecer.
Apesar de toda pompa e seriedade desses momentos, não raro a falibilidade humana se insinua, e a nossa real natureza se sobressai.
Certo dia, o casamento, além de solene, era refinado, e o celebrante, um padre jovem e piedoso, ocupava o seu lugar no púlpito.
Pretendia exaltar o Sacramento do Casamento, quando resolveu interagir com os convidados, perguntando:
- Quem aqui é casado, por favor levante a mão.
Prosseguiu o pregador:
- Vejo que aqui quase todos são casados!
E acrescentou:
- Só quem é solteiro sou eu, graças a Deus!
Lapsos há que nos fazem rir, e não importando as circunstâncias, diz-se que quando rimos estamos na presença dos deuses! Porém há lapsos que nos fazem corar!
Ainda tendo como palco o interior de uma igreja, coraram muitos convidados de um casamento, quando o velho padre curvado ao peso de muitos anos, dirigiu-se aos ali presentes ao iniciar a sua prédica.
O templo lotado, era constituído em grande parte por membros da colônia japonesa local, a maioria deles parentes do noivo.
Dirigindo-se a todos, disse o antigo celebrante:
- Prezados irmãos, prezadas irmãs... e japoneses aqui presentes.
Todo esse preâmbulo foi feito para finalmente contar algo que veio a tornar memorável um evento não ritualístico, nem tão formal como esses antes mencionados.
Aconteceu em uma das cíclicas reuniões de familiares e amigos, para festejo de um aniversário. O inusitado fez rir e corar, mas não nessa ordem. Primeiro coraram todos, para rir somente muito depois.
O restaurante já fervilhava e aquele não seria o único aniversário que ali era comemorado.
Em mesas contíguas, familiares e amigos de famílias diversas já tomavam assento, animados convivas preparados para a animação dos seus almoços.
E tudo ocorreu em meio a muita efusividade, muita alegria, características de uma autêntica festa de família.
O tio Toim, do aniversariante Antonius, para dar maior significado ao momento, sugeriu que juntos cantassem o tradicional "Parabéns pra Você".
Chamou ele o garçon, que se não era estagiário, parecia estar estreando na profissão.
- Você tem aí um bolinho para a gente cantar aqui os parabéns?
Ato contínuo, trouxe o garçon um belo bolo confeitado com velinha ao centro.
Exultaram todos e ecoaram os cânticos entusiasmados e palmas que até contagiaram o meio, pois houve quem da mesa vizinha se juntasse a acompanhar o coro, e aplaudir o aniversariante.
Fim de festa. O garçon atendeu prontamente ao pedido da conta. Antes porém perguntou:
- O senhor já pagou o bolo?
O tio Toim surpreso, respondeu:
- Não! O bolo, alguém daqui da mesa foi quem trouxe!
Na sequência, e para identificar quem o teria trazido, fez a inevitável pergunta:
_ Quem daqui trouxe o bolo?
Ninguém havia trazido!
A movimentação estranha a um final de festa, despertou a atenção e curiosidade, e consequente desconfiança dos ocupantes da mesa do aniversariante ao lado. Eles ainda não haviam cantado os parabéns. Porém tinham trazido um belo bolo e entregue aos cuidados do restaurante.
Tudo logo ficou muito claro. O bolo errara de mesa. Velinha já apagada, bolo já fatiado, seus pedaços já divididos, a distribuição até já terminara. Dele quase nada restava. Poucos eram os vestígios do erro.
Formou-se então em "petit comité", um ensaio de troca de satisfações e esclarecimentos, entre os ocupantes das duas mesas. Vieram de lá o filho e a esposa do aniversariante do qual fora subtraído o bolo.
O filho, talvez pela impetuosidade da juventude, foi irredutível:
- Como pode você comer o bolo que não comprou?
A mãe foi compreensiva e atenuou:
- Entendo que não houve má intenção.
E quanto à reação do aniversariante, que literalmente "levou o bolo"? Ele agora sorria largamente, depois de muito ter gargalhado. Talvez comemorasse também o fim do seu inferno zodiacal.
Para que essa história entrasse por uma perna de pato e saísse por uma de pinto, assumiram todos a fatalidade. Alguns mais conformados do que outros!
O tio do aniversariante, em um gesto de reparação, autorizou ao garçon trapalhão servir sobremesas aos prejudicados, e tratou de pagar o bolo.
Mesmo no mais comum dos eventos, há quebras de roteiro tão marcantes, que terminam por magnificá-lo tornando-o inesquecível.
Ao que me consta, o bolo estava delicioso, mas apesar da amistosidade final entre as partes, ninguém ousou sobre isso comentar. Nem sequer perguntar onde o tinham comprado!
"Divirta-se porque você não pode mudar nada mesmo"
Holtzer.
Comprar uma rede para o filho e pagar em
várias prestações, já denotava a precária condição financeira daquele
mestrando do curso de engenharia elétrica da Universidade Federal de Campina Grande.
Era início da década de setenta,
época em que vivíamos muitas restrições pessoais, compromissos familiares,
responsabilidades, dificuldades de pagamentos, problemas para
lidar, incertezas...
Havia contudo, e de sobra, habilidade para
sobreviver. No mesmo grau coexistiam força, determinação, esperança
e confiança no futuro.
Quanto a ele, antes já se safara de dificuldades e
seguira em frente. Era uma prática recorrente à qual eu também já me habituara.
Sua 'expertise' porém, parecia nata.
Foi o que pude constatar ao vê-lo deparar-se com a
chegada daquele cobrador, que veio para receber uma prestação da dita rede.
Se dinheiro ele tivesse para saldar a dívida, não
precisaria ter recebido o cobrador tão solicitamente: a forma como lhe indicou
o caminho para a porta de entrada, o jeito como lhe apontou o assento, o oferecimento
de um copo água...
Tudo isso deve ter deixado aquele pobre homem muito
apreensivo, desconfiado!
Viera receber dinheiro pouco, mas o pouco é muito
para quem não tem quase nada.
Sentados agora frente a frente, o mestrando
Reinaldo, tomou fôlego e assim começou:
- Veja só o que aconteceu!
Do outro lado o coitado do homem já estremeceu!
E assim ele continuou:
- Era para te pagar hoje, mas não vai dar!
E prosseguindo, afinal só ele é que
tinha explicações para dar:
- Mas fique tranquilo! Você vai receber. O que
acontece é que a faculdade atrasou meu pagamento. Você pode, se quiser, ligar
para lá, e você vai saber! A questão é que estou sem dinheiro aqui. Porém o tenho
com meu irmão em João Pessoa. Tivesse eu dinheiro para ir até lá buscar, na
volta lhe pagaria. Talvez fosse um bom negócio para você, me emprestar aí esse
dinheiro, pois teria a garantia de eu lhe pagar de volta quando retornar, e
assim liquidar de vez essa prestação.
No mesmo dia, já em João Pessoa, o seu irmão Agnaldo emprestava ao
aliviado Reinaldo, a quantia que ele precisava. Certamente não só o necessário
para atender aquele compromisso, pois outros também tinha.
Certas saídas, como esta, são do gênero “dar
nó em pingo d'água”. Ele atuara no modo emprestar dinheiro a agiota,
imitando-lhe os juros. Coisa de quem ensina Pai Nosso a vigário.
Realizara mais uma vez a sábia recomendação de
tirar o maior bem do maior mal.
Passados mais de cinquenta anos, os
reencontros com Reginaldo sempre trazem de volta lembranças comuns muito
divertidas. Afinal, convivemos durante os árduos anos iniciais da vida adulta,
desde os tempos de bancos de faculdade.
Ainda na Serra da Borborema, nos reuníamos, nós
e outros colegas, para estudar na casa que eu alugara. A casa tinha um subsolo,
local de porta e janela, com saída para um vasto quintal. Um espaço
isolado e acolhedor, bastante apropriado para as nossas incursões nas matérias
do curso.
Ali, um dia, enquanto estudávamos, de um
auto-falante distante nos chegou a voz aveludada de Nat King Cole, que cantava em
espanhol "Quizás, quizáz, quizás." Nos divertíamos um bocado com
a estrofe em que ele (nos) dizia: "Estás perdiendo el Tiempo! Hasta
quando? Hasta quando?..."
Divertir-se largamente parecia nos deixar melhor
preparados para os momentos de seriedade, que de qualquer forma eram a maioria.
As vezes, a descontração podia surgir de modo
inesperado, em meio ao silêncio quebrado pela vizinha mal educada, que no
quintal ao lado, berrava a todos pulmões pelo filho:
- E B I N H A !!!!
Reinaldo emendava, completando o chamado exasperado daquela mãe:
- ...seu filho da Puta!!!!
Era com muito pouco que nos divertíamos a valer!
Ali, diante de uma lousa na frente da qual havia um
birô e algumas cadeiras, relembro a figura magra de óculos de lentes para muito
míopes, do colega Pedro, cearense de Fortaleza.
Seu nome ganhara um adendo para distingui-lo de
outros Pedros, e ressaltar algumas das suas características
pessoais: Pedro Doido.
Estudávamos a disciplina de "Análise de
Sistemas I", e o assunto era "Componentes Simétricas". O
conceito básico desse tema é, de fato, muito interessante, e por que não dizer,
intrigante. Para quem está sendo apresentado a ele, eu diria que
surpreendente, elegante!
Porém, surpreendente mesmo, e inesquecível foi
assistir à reação de Pedro, Pedro Doido, quando interrompendo o
desenvolvimento que fazia no quadro, teve uma crise nervosa de riso, enquanto
esfregava as costas na parede. Entremeava seu descontrole, com
uma pergunta-observação dirigida a nós:
- Vocês acreditam nisso? Eu não acredito não!
Dos mais variados fatos, não nos
escapava explorar o seu lado pitoresco, talvez o jeito inconsciente de
suavizar os momentos de tensão.
Outro dia, ou melhor, em certa noite de estudos,
resolvíamos os últimos exercícios de uma série que nos foi dada. Servia como o
aprendizado para o exame no dia seguinte.
Restou um único problema que nos faltava resolver,
e pairava sobre ele uma dúvida a esclarecer. Que falta ali nos fez
a presença do professor da disciplina, Armando Ribeiro, que viera do Rio
de Janeiro para ministrar aquele curso.
Hospedado no Hotel Ouro Branco, no entanto, ele não
nos parecia fora do alcance a qualquer hora, para alunos mais afoitos.
Assim é que sucedeu entre nós a escolha de a quem
caberia dirigir-se àquela hora ao hotel onde o professor se hospedava, e
tirar com ele aquela dúvida crucial.
Zenirak! Sobrou para o nosso colega Zenirak. De
certa forma ele quem terminou se disponibilizando. Iria mesmo, de volta
para casa, passar perto do hotel. Além disso, quem sabe, pode ter pensado que
aquilo poderia contribuir para a construção de uma imagem de aluno
aplicado.
A nossa curiosidade de saber o resultado duraria
até a manhã do dia seguinte, ao reencontrar um Zenirak de cenho franzido,
e olhos esbugalhados.
- E então Zenirak, o que foi que ele disse?
- O que ele disse? Ele disse: "Meu filho!!!
Você vem me acordar uma hora dessas para me perguntar isso!!!!!!!
Lamentamos por Zenirak, mas ainda bem que ao Mestre
pareceu que aquela fora uma iniciativa individual. No geral, e apesar da gafe,
para resolver a prova não nos fez falta a persistência daquela dúvida, e
nos saímos muito bem.
Esses escritos me ocorreram de registrar, quando
hoje, aniversário de um Reinaldo aposentado mas sempre com a mesma verve, ele
me relembrou um episódio simples, fruto de um momento de espontaneidade, no
qual fomos protagonistas. Com isso, eu encerro esse relato que, do contrário,
poderia prosseguir, tendo eu certa dificuldade de concluir.
Reinaldo comprara o seu primeiro carro. Um fusca
cor telha, e não imagino como conseguiu levá-lo da Agência para casa, pois
não sabia dirigir.
Os dias iniciais com o carro, não lhe alteraram a
rotina de continuar a ir todos os dias para a faculdade de ônibus, o que
causava interpelações de como isso era possível, tendo um carro novinho na
garagem!
Aproveitou, contudo, um primeiro fim de semana para
os seus ousados treinos iniciais de direção. Acompanhei-o no banco de
passageiros, enquanto ele, à direção, seguia amarradamente, por uma
estrada periférica pouco movimentada, quase rural. Ele seguia
brigando com o carro, perdendo aqui e ali para ele, com imensa
dificuldade de controlá-lo.
O que a gente não faz pelos amigos!
Acho que eu já suava um pouco, quando, à nossa
frente, um homem puxando um burro por uma corda atravessou a estrada. O
atrapalho foi enorme! O homem com o burro teria admitido que qualquer
condutor seria capaz de lidar com aquela situação: desviar, diminuir a
velocidade e até mesmo parar, já que vinha devagar.
Mas é claro o homem não sabia quem estava
na direção daquele carro.
Foram momentos de aflição, exceto para o
burro, que acredito nada compreendia.
Foram segundos horripilantes com o carro
aproximando-se cada vez mais do burro e do homem, prenúncio de um lento e
malvado atropelamento. Em um último instante, Reginaldo acertou pisar no freio
e o carro estancou quando todos já estavam pálidos, e dados por vencidos.
Reinaldo não se conteve em culpar o homem
que confiantemente conduzia o burro para o quase atropelamento. Virou-se
para mim, e perguntou:
- Se você fosse um policial rodoviário o que
você faria?
Até hoje ele não se contém de dar boas risadas,
pela resposta que eu lhe dei:
- Eu prendia você e o burro!
"Onde não há prazer não há proveito."
"...e onde o humor entra, o prazer faz
eco."
Ou ainda como o adjetivei: BARATA TONTA.
Ele amou a vida!
Ele foi a expressão de que: "Quem ama o mar, ama também a rotina do navio."
Como a maioria de nós, viveu momentos antagônicos como aqueles referidos por dois grandes gênios da literatura.
Fernando Pessoa, quando disse: "Ouço passar o vento, e acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido."
No outro extremo, Clarice Lispector quando disse: "A vida é um soco no estômago".
Até quase os cinquenta anos, Ronaldo lidou apenas com os percalços da vida. Depois lhe sobreveio também a doença: ATAXIA CEREBELAR HEREDITÁRIA AUTOSSÔMICA DOMINANTE. Para os íntimos, doença de Machado-Joseph. Uma espécie de defeito de fabricação.
Foi como se, pelos próximos vinte anos, entrasse água pelo casco do navio. Mesmo assim ele navegou sem nunca lamentar o navio inundado. Sua viagem continuou animada. Deixou que só para os outros coubesse o lamento de como poderia haver uma alma tão cheia de vida, em um corpo tão debilitado.
O Barata - Barata Tonta! Foi exemplo maior de aceitação, resiliência, força de vida. Do início ao fim! Ou do início à vida verdadeira?
Concluindo, se ele aqui tomasse o meu lugar, certamente que com todo respeito, e pedindo a compreensão dos seus amigos e familiares, diria duas coisas:
Primeiro agradeceria a cada um pelos ricos momentos vividos juntos, e de modo muito especial e comovido, a duas pessoas extraordinárias por todo o tempo que amorosamente estiveram com ele, presentes até a despedida final: Vera e Eliane (Elis).
Poderia ainda dizer: Ai de quem no final dos seus dias, não tiver ao seu lado quem o ame. Eu tive!
E em segundo lugar ele concluiria dizendo:
Voltar? Nem pensar! Deixem ficar como está:
Fui Feliz! Fiz tudo que queria fazer!
Parafraseando Mário Quintana:
"Nada te devo 2025! Nada. Nem te agradeço!
Começarei com uma confissão:
Quando vejo um touro a pinotar no rodeio, em cima dele um peão que mamulenga, esse é o símbolo que faço das vidas humanas em geral!
Eu completaria o quadro com uma má música sertaneja a soar ao fundo, dessas que desagrade aos ouvidos até mesmo do próprio sertanejo.
Para uns o touro pode até ser menos vigoroso, menos alimentado, e quanto aos mamulengos, mais bem criados e treinados.
Há gradações nos desafios!
Porém, "Atrás de cada porta, um drama." Como dizia eu mesmo.
De um ponto de vista pessoal, achei o ano que passou um ano torpe! Não sentaria com ele para tomar uma cerveja. Até mudaria de calçada para não o reencontrar.
Foi um ano sem empatia para comigo, e para muitas pessoas queridas também. Foi um ano para deixar evidenciado que o luto pertence mesmo à vida.
Ele começou me insultando e aos meus familiares em especial! Prosseguiu com mais ofensas, as previsíveis e as imprevisíveis.
Foram as más notícias de origem externa, abatendo pessoas amigas, e consequentemente a mim, e também as surpresas ruins internas, inesperadas, do tipo "depois de queda, coice".
Foi quando até pensei: desse jeito terminarei infartando!
Pois não é que infartei!!!
Ainda assim, por uma questão de reconhecimento e gratidão, resolvi reconsiderar em relação ao ano de 2025, o que eu disse antes.
Afinal sobrevivi, e sobrevivendo, renasci.
Tomaria com ele sim, honradamente, uma cerveja. Um encontro para uma despedida alegre, porque ele passou e eu fiquei!
Seria a celebração de uma superação a duras penas.
Que bons ventos o levem, 2025, você pode ter sido ótimo para outros, mas não foi sequer condescendente para mim.
Para concluir com o olhar no futuro, desejo que em 2026 seja possível a todos redesenharem a vida em moldes mais felizes, bem diversos dos piores momentos que precisei superar, ou que quase superei até aqui.
Daquele ano velho, malfadado porque psicopata, fica a capacidade que me foi manifestada de suportá-lo buscando o mais alto de mim mesmo.
Talvez daí que eu esteja assistindo ao seu ocaso estranhamente agradecido, ligeiramente alegre, e até mesmo preservando um certo bom humor.
A vida prossegue, e malgrado os trechos do tipo pirambeiras durante este ano percorridos, momentos deliciosos também aconteceram, pois mesmo quando nem tudo são flores, nem tudo são espinhos.
Termino paradoxalmente me desculpando, nem que seja só um pouco, com esse ano velho, por causa das alegrias que insistiram em sobreviver junto comigo, pela grandeza de alguns momentos deliciosos que não foram eclipsados, mas que se interpuseram para dar sentido à vida, e criar novas esperanças.
Que o sentido de urgência que renasceu em mim, ainda que em um parto a fórceps, esteja na vida de todos, por uma valorização cada vez maior de cada instante.
"Não deveríamos precisar do cataclisma para amar a vida hoje. Seria suficiente pensar que somos humanos e que a morte pode acontecer esta noite." Marcel Proust.
A cada um de vocês, meus desejos de um Ano Novo de Paz, Saúde, Alegrias e Felicidade!
🤣🤣🤣
Era domingo e amanhecera propício para uma longa caminhada. Ameaçava chover! Porém nada que arrefecesse o ânimo daquele pequeno grupo - "Caminhadas quase secretas" - que costuma perambular aos domingos pelas ruas vazias da cidade. Descompromissados e conscientes de que a menor distância entre dois pontos "é uma curva vadia e delirante", como diria um poeta.
A caminhada encaixava-se bem na minha rotina de atividades físicas. Os 18 quilômetros que neste dia andei, o fiz com naturalidade.
Talvez nisso ainda houvesse resquícios de um condicionamento físico adquirido dez anos passados, quando fiz a pé os 775 quilômetros do Caminho de Santiago.
No dia seguinte, uma segunda-feira, eram 11 horas quando ao concluir o treino habitual de musculação na academia do meu prédio, comentei com o meu competente PT (Personal Trainer) o quanto, apesar da intensidade dos exercícios, eu não sentia cansaço cardio-respiratório!
Foi então, com esse perfil de quem sempre cuidou bem da saúde sob todos os aspectos: físico, mental e inclusive alimentar... que no dia seguinte, senti pela primeira vez um leve e passageiro desconforto no peito. Atribuí a um pequeno problema gástrico!
Na noite desta terça para a quarta-feira, dormi muito bem, e não senti nenhum desconforto. No entanto, cedo ao levantar, eram 7 horas, senti novamente a mesma anomalia, que desta vez não seria passageira. Achei que precisava de uma medicação.
Morar nessa etapa da vida próximo de um dos maiores e melhores hospitais da região, não foi intencional ou preditivo. No entanto, a proximidade do Real Hospital Português foi providencial!
Minutos após, eram quase 8 horas, quando depois de um breve deslocamento de carro, entrei andando na emergência daquele hospital. O atendimento foi mais ligeiro do que a rapidez com que se faz um caldo de cana.
O diagnóstico não foi frio, pois veio temperado pela surpresa da médica ao constatar que embora eu não aparentasse, tivera o tipo mais severo de infarto: oclusão total da artéria.
De imediato me puseram em uma maca, e fui levado diretamente para a sala de hemodinâmica, onde médicos e sua equipe pareciam já estar me esperando desde o dia anterior.
Eram 11 h quando após a conclusão de um cateterismo e colocação de um stent, fui internado por três dias, inicialmente em UTI.
Deu certo!
No entanto, a rapidez e o semblante grave dos que me socorreram, em nenhum momento deixaram dúvida de que poderia não ter dado! Afinal sou eu mesmo, em carne e osso, quem está contanto a história. Isso aqui não é nenhuma psicografia.
Durante meu acompanhamento na UTI, respondi negativamente a todas as perguntas que os médicos me fizeram:
- Sente dor?
- Não.
- Sente náusea?
- Não.
- Sente tontura?
- Não.
Sentia apenas vontade de voltar para casa!
Do internamento à alta foram apenas três dias. Dois na UTI e um no quarto.
Que hospital tão bom nós temos! Equipes muito competentes e bem treinadas. Encontramos gente que até calor humano tinha!
Expressamos, é claro, os nossos melhores reconhecimentos e agradecimentos. E não só no final! A nutricionista, por exemplo, me ofereceu tantas opções para cada refeição, que não me contive em dizer: sentirei muitas saudades daqui!
As visitas de familiares e amigos que recebi ainda no hospital, me permitiram iniciar a construção de um ranking dos que mais se importam que eu viva.
Claro que não foram poucos os que também se importando, e muito, pelos mais diversos e justificáveis motivos, me acompanharam e ainda me acompanham em Home Office.
Diz-se muito bem, que partir é morrer um pouco, e morrer é partir demais. Nunca achei que iria partir demais! Em todo caso, também nunca esperei ter nascido. Pequenos intervalos de dúvidas para quem as tenha, transformam-se nesse momentos em grandes espaços de esperança.
Em um sábado ao meio dia, véspera do dia dos pais, aconteceu a volta do internado para casa. Um momento que rivalizou em alegria com aqueles da ida para o aeroporto, para uma viagem dos sonhos.
Em casa iniciei a melhor fase de qualquer doença: a convalescença. Seguiu-se um período inicial de 15 dias sob cuidadosa e implacável vigilância, durante meu alongado caminho de volta à normalidade.
Esta fase há pouco concluí! Duas semanas de confinamento doméstico, à semelhança de uma prisão domiciliar, como se eu fosse um ex-presidente!
Achei tudo isso muito fácil! Não fui proibido de ler nem de escutar boa música, podendo até mesmo de receber visitas, sem precisar da autorização de nenhum juiz.
A casa ainda vive um período festivo, onde sob uma atmosfera de alívio, os visitantes se alegram por me encontrarem bem, e são recebidos à volta de uma mesa, como se fossemos espanhóis.
Há quem, vindo com regular frequência, faz parada em uma deliciosa padaria de Boa Viagem, de onde traz iguarias que fazem valer a pena tudo que aconteceu.
Três dias atrás, concluída a minha reclusão, compareci a uma consulta com o meu cardiologista para iniciar a fase de acompanhamento.
Já sei o que me espera para os próximos 90 dias. Até a próxima consulta, daqui a três meses: exames laboratoriais.
Para o dia a dia, de imediato, devo andar: andar dez minutos por dia durante dez dias, em seguida vinte minutos pelos dez dias seguintes, aumentando dez minutos a cada dez dias subsequentes, até alcançar 60 minutos por dia, no que será a etapa de manutenção.
A liberação para a volta aos exercícios de academia, se dará trinta dias após o "procedimento". Estarei tecnicamente liberado para recomeçar, a partir de seis de setembro - ainda faltam sete dias!
Quanto a permissão para ingerir bebidas alcoólicas? O prazo é maior! Sessenta dias. A partir do dia seis de outubro, ganharei o seguinte direito: por semana, três latinhas de cerveja ou meia garrafa de vinho. o que achar mais vantagem!
Esqueci de perguntar se mesmo que eu não tenha vontade, terei que fazer isso que ele passou.
Acreditem, esse limite fica dentro da cota a que me permito, e as vezes, em média, nem chega a tanto!
Quanto às bebidas destiladas, nem quis saber, pois não estão nos meus planos. Assim como não está nos meus planos visitar a China na próxima semana.
Em todo caso sempre fica algo que a gente deveria ter perguntado durante a consulta, e não o fez. Esqueci de perguntar se passando três semanas sem beber, eu poderia tomar tudo de uma vez no final do mês: doze latinhas de cerveja ou duas garrafas de vinho.
Ainda sobre a consulta, foi um momento leve, descontraído, e para isso contribuiu a presença amiga do Dr Emmanuel Abreu, que adotei como meu médico particular, desde que lhe entregaram o Diploma.
Quase esqueci de dizer para que o relato ficasse completo, que tenho remédios para tomar! Durante o dia toca regularmente o alarme do meu celular, para me lembrar. Geralmente toca em momentos em que não estou fazendo nada. Ainda assim, não gosto muito de ser interrompido! Até aqui não deixei de tomar nenhum dos comprimidos.
O importante de tudo foi ter sido possível que a vida prosseguisse e é inevitável dar a devida valorização a isso! Às metas que eu já tinha, outras vieram a se acrescentar, reclamando suas devidas prioridades que estavam adiadas.
Concluindo, eu diria que em momentos como esse ressurgem da memória algumas citações, desta vez em letras maiores e em cores vívidas, porque internalizadas:
"Às vezes não há nenhum aviso. As coisas acontecem em segundos. Tudo muda. Você está vivo. Você está morto. E as coisas continuam. Somos finos como papel."
Charles Bukovsky.
"Você não morre porque está doente. Você morre porque está vivo."
Montaigne.
"Quem nos desviou assim para que tivéssemos um ar de despedida em tudo o que fazemos?
Rilke.
Viva o recomeço!
"Aprender com o que passou!"
Voodrag Rabinore.