quarta-feira, 29 de abril de 2026

Na Serra da Borborema.

                                                       

                                                     


Comprar uma rede para o filho e pagar em várias prestações, já denotava a precária condição financeira daquele mestrando do curso de engenharia elétrica da Universidade Federal de  Campina Grande. 

Era início da década  de setenta, época em que vivíamos muitas restrições pessoais, compromissos familiares, responsabilidades, dificuldades de pagamentos, problemas para lidar, incertezas...

Havia contudo, e de sobra, habilidade para sobreviver. No mesmo grau coexistiam força, determinação, esperança e confiança no futuro.

Quanto a ele, antes já se safara de dificuldades e seguira em frente. Era uma prática recorrente à qual eu também já me habituara.

Sua 'expertise' porém, parecia nata.

Foi o que pude constatar ao vê-lo deparar-se com a chegada daquele cobrador, que veio para receber uma prestação da dita rede.

Se dinheiro ele tivesse para saldar a dívida, não precisaria ter recebido o cobrador tão solicitamente: a forma como lhe indicou o caminho para a porta de entrada, o jeito como lhe apontou o assento, o oferecimento de um copo água...

Tudo isso deve ter deixado aquele pobre homem muito apreensivo, desconfiado!

Viera receber dinheiro pouco, mas o pouco é muito para quem não tem quase nada.

Sentados agora frente a frente, o mestrando Reginaldo, tomou fôlego e assim começou:

- Veja só o que aconteceu!

Do outro lado o coitado do homem já estremeceu!

E assim ele continuou:

- Era para te pagar hoje, mas não vai dar!

E prosseguindo, afinal só ele é que tinha explicações para dar:

- Mas fique tranquilo! Você vai receber. O que acontece é que a faculdade atrasou meu pagamento. Você pode, se quiser, ligar para lá, e você vai saber! A questão é que estou sem dinheiro aqui. Porém o tenho com meu irmão em João Pessoa. Tivesse eu dinheiro para ir até lá buscar, na volta lhe pagaria. Talvez fosse um bom negócio para você, me emprestar aí esse dinheiro, pois teria a garantia de eu lhe pagar de volta quando retornar, e assim liquidar de vez essa prestação.

                                       No mesmo dia, já em João Pessoa, o seu irmão Evaldo emprestava ao aliviado Reginaldo, a quantia que ele precisava. Certamente não só o necessário para atender aquele compromisso, pois outros também tinha.

Certas saídas, como esta, são do gênero “dar nó em pingo d'água”. Ele atuara no modo emprestar dinheiro a agiota, imitando-lhe os juros. Coisa de quem ensina Pai Nosso a vigário.

Realizara mais uma vez a sábia recomendação de tirar o maior bem do maior mal.

Passados mais de cinquenta anos, os reencontros com Reginaldo sempre trazem de volta lembranças comuns muito divertidas. Afinal, convivemos durante os árduos anos iniciais da vida adulta, desde os tempos de bancos de faculdade.

Ainda na Serra da Borborema, nos reuníamos, nós e outros colegas, para estudar na casa que eu alugara. A casa tinha um subsolo, local de porta e janela, com saída para um vasto quintal. Um espaço isolado e acolhedor, bastante apropriado para as nossas incursões nas matérias do curso.

Ali, um dia, enquanto estudávamos, de um auto-falante distante nos chegou a voz aveludada de Nat King Cole, que cantava em espanhol "Quizás, quizáz, quizás." Nos divertíamos um bocado com a estrofe em que ele (nos) dizia: "Estás perdiendo el Tiempo! Hasta quando? Hasta quando?..."

Divertir-se largamente parecia nos deixar melhor preparados para os momentos de seriedade, que de qualquer forma eram a maioria.

As vezes, a descontração podia surgir de modo inesperado, em meio ao silêncio quebrado pela vizinha mal educada, que no quintal ao lado, berrava a todos pulmões pelo filho:

- E B I N H A !!!!

Reginaldo emendava, maldizendo a súbita interrupção:

- Seu filho da Puta!!!!

Era com muito pouco que nos divertíamos a valer!

Ali, diante de uma lousa na frente da qual havia um birô e algumas cadeiras, relembro a figura magra de óculos de lentes para muito míopes, do colega Pedro, cearense de Fortaleza.

Seu nome ganhara um adendo para distingui-lo de outros Pedros, e ressaltar algumas das suas características pessoais: Pedro Doido.

Estudávamos a disciplina de "Análise de Sistemas I", e o assunto era "Componentes Simétricas". O conceito básico desse tema é, de fato, muito interessante, e por que não dizer, intrigante. Para quem está sendo apresentado a ele, eu diria que surpreendente, elegante!

Porém, surpreendente mesmo, e inesquecível foi assistir à reação de Pedro, Pedro Doido, quando interrompendo o desenvolvimento que fazia no quadro, teve uma crise nervosa de riso, enquanto esfregava as costas na parede. Entremeava seu descontrole, com uma pergunta-observação dirigida a nós:

- Vocês acreditam nisso? Eu não acredito não!

Dos mais variados fatos, não nos escapava explorar o seu lado pitoresco, talvez o jeito inconsciente de suavizar os momentos de tensão.

Outro dia, ou melhor, em certa noite de estudos, resolvíamos os últimos exercícios de uma série que nos foi dada. Servia como o aprendizado para o exame no dia seguinte.

Restou um único problema que nos faltava resolver, e pairava sobre ele uma dúvida a esclarecer. Que falta ali nos fez a presença do professor da disciplina, Armando Ribeiro, que viera do Rio de Janeiro para ministrar aquele curso. 

Hospedado no Hotel Ouro Branco, no entanto, ele não nos parecia fora do alcance a qualquer hora, para  alunos mais afoitos.

Assim é que sucedeu entre nós a escolha de a quem caberia dirigir-se àquela hora ao hotel onde o professor se hospedava, e tirar com ele  aquela dúvida crucial.

Zenirak! Sobrou para o nosso colega Zenirak. De certa forma ele quem terminou se disponibilizando. Iria mesmo, de volta para casa, passar perto do hotel. Além disso, quem sabe, pode ter pensado que aquilo poderia contribuir para a construção de uma imagem de aluno aplicado.

A nossa curiosidade de saber o resultado duraria até a manhã do dia seguinte, ao reencontrar um Zenirak de cenho franzido, e olhos esbugalhados.

- E então Zenirak, o que foi que ele disse?

- O que ele disse? Ele disse: "Meu filho!!! Você vem me acordar uma hora dessas para me perguntar isso!!!!!!!

Lamentamos por Zenirak, mas ainda bem que ao Mestre pareceu que aquela fora uma iniciativa individual. No geral, e apesar da gafe, para resolver a prova não nos fez falta a persistência daquela dúvida, e nos saímos muito bem.

Esses escritos me ocorreram de registrar, quando hoje, aniversário de um Reginaldo aposentado mas sempre com a mesma verve, ele me relembrou um episódio simples, fruto de um momento de espontaneidade, no qual fomos protagonistas. Com isso, eu encerro esse relato que, do contrário, poderia prosseguir, tendo eu certa dificuldade de concluir.

Reginaldo comprara o seu primeiro carro. Um fusca cor telha, e não imagino como conseguiu levá-lo da Agência para casa, pois não sabia dirigir.

Os dias iniciais com o carro, não lhe alteraram a rotina de continuar a ir todos os dias para a faculdade de ônibus, o que causava interpelações de como isso era possível, tendo um carro novinho na garagem!

Aproveitou, contudo, um primeiro fim de semana para os seus ousados treinos iniciais de direção. Acompanhei-o no banco de passageiros, enquanto ele, à direção, seguia amarradamente, por uma estrada periférica pouco movimentada, quase rural. Ele seguia brigando com o carro, perdendo aqui e ali para ele, com imensa dificuldade de controlá-lo.  

O que a gente não faz pelos amigos!

Acho que eu já suava um pouco, quando, à nossa frente, um homem puxando um burro por uma corda atravessou a estrada. O atrapalho foi enorme! O homem com o burro teria admitido que qualquer condutor seria capaz de lidar com aquela situação: desviar, diminuir a velocidade e até mesmo parar, já que vinha devagar.

Mas é claro o homem não sabia quem estava na direção daquele carro.

Foram momentos de aflição, exceto para o burro, que acredito nada compreendia.

Foram segundos horripilantes com o carro aproximando-se cada vez mais do burro e do homem, prenúncio de um lento e malvado atropelamento. Em um último instante, Reginaldo acertou pisar no freio e o carro estancou quando todos já estavam pálidos, e dados por vencidos.

Reginaldo não se conteve em culpar o homem que confiantemente conduzia o burro para o quase atropelamento. Virou-se para mim, e perguntou:

- Se você fosse um policial rodoviário o que você faria?

Até hoje ele não se contém de dar boas risadas, pela resposta que eu lhe dei:

- Eu prendia você e o burro!

 

"Onde não há prazer não há proveito."

"...e onde o humor entra, o prazer faz eco."


sábado, 27 de dezembro de 2025

Até outro dia!


José Ronaldo de Melo Jucá! Ou simplesmente JUCÁ, ou RONALDO, ou BARATA...

Ou ainda como o adjetivei: BARATA TONTA.

Ele amou a vida!

Ele foi a expressão de que: "Quem ama o mar, ama também a rotina do navio."

Como a maioria de nós, viveu momentos antagônicos como aqueles referidos por dois grandes gênios da literatura.

Fernando Pessoa, quando disse: "Ouço passar o vento, e acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido."

No outro extremo, Clarice Lispector quando disse: "A vida é um soco no estômago".

Até quase os cinquenta anos, Ronaldo lidou apenas com os percalços da vida. Depois lhe sobreveio também a doença: ATAXIA CEREBELAR HEREDITÁRIA AUTOSSÔMICA DOMINANTE. Para os íntimos, doença de  Machado-Joseph. Uma espécie de defeito de fabricação.

Foi como se, pelos próximos vinte anos, entrasse água pelo casco do navio. Mesmo assim ele navegou sem nunca lamentar o navio inundado. Sua viagem continuou animada. Deixou que só para os outros coubesse o lamento de como poderia haver uma alma tão cheia de vida, em um corpo tão debilitado.

O Barata - Barata Tonta! Foi exemplo maior de aceitação, resiliência, força de vida. Do início ao fim! Ou do início à vida verdadeira?

Concluindo, se ele aqui tomasse o meu lugar, certamente que com todo respeito, e pedindo a compreensão dos seus amigos e familiares, diria duas coisas:

Primeiro agradeceria a cada um pelos ricos momentos vividos juntos, e de modo muito especial e comovido, a duas pessoas extraordinárias por todo o tempo que amorosamente estiveram com ele, presentes até a despedida final: Vera e Eliane (Elis).

Poderia ainda dizer: Ai de quem no final dos seus dias, não tiver ao seu lado quem o ame. Eu tive!

E em segundo lugar ele concluiria dizendo:

Voltar? Nem pensar! Deixem ficar como está: 

Fui Feliz! Fiz tudo que queria fazer!

domingo, 14 de dezembro de 2025

Meu 2025 - Nosso 2026.


Parafraseando Mário Quintana:

"Nada te devo 2025! Nada. Nem te agradeço!


Começarei com uma confissão:


Quando vejo um touro a pinotar no rodeio, em cima dele um peão que mamulenga, esse é o símbolo que faço das vidas humanas em geral!


Eu completaria o quadro com uma má música sertaneja a soar ao fundo, dessas que desagrade aos ouvidos até mesmo do próprio sertanejo.


Para uns o touro pode até ser menos vigoroso, menos alimentado, e quanto aos mamulengos, mais bem criados e treinados.


Há gradações nos desafios!


Porém, "Atrás de cada porta, um drama." Como dizia eu mesmo.


De um ponto de vista pessoal, achei o ano que passou um ano torpe! Não sentaria com ele para tomar uma cerveja. Até mudaria de calçada para não o reencontrar.


Foi um ano sem empatia para comigo, e para muitas pessoas queridas também. Foi um ano para deixar evidenciado que o luto pertence mesmo à vida.


Ele começou me insultando e aos meus familiares em especial! Prosseguiu com mais ofensas, as previsíveis e as imprevisíveis.


Foram as más notícias de origem externa, abatendo pessoas amigas, e consequentemente a mim, e também as surpresas ruins internas, inesperadas, do tipo "depois de queda, coice".


Foi quando até pensei: desse jeito terminarei infartando!


Pois não é que infartei!!!


Ainda assim, por uma questão de reconhecimento e gratidão, resolvi reconsiderar em relação ao ano de 2025, o que eu disse antes.


Afinal sobrevivi, e sobrevivendo, renasci.


Tomaria com ele sim, honradamente, uma cerveja. Um encontro para uma despedida alegre, porque ele passou e eu fiquei!


Seria a celebração de uma superação a duras penas.


Que bons ventos o levem, 2025, você pode ter sido ótimo para outros, mas não foi sequer condescendente para mim. 


Para concluir com o olhar no futuro, desejo que em 2026 seja possível a todos redesenharem a vida em moldes mais felizes, bem diversos dos piores momentos que precisei superar, ou que quase superei até aqui.


Daquele ano velho, malfadado porque psicopata, fica a capacidade que me foi manifestada de suportá-lo buscando o mais alto de mim mesmo.


Talvez daí que eu esteja assistindo ao seu ocaso estranhamente agradecido, ligeiramente alegre, e até mesmo preservando um certo bom humor.


A vida prossegue, e malgrado os trechos do tipo pirambeiras durante este ano percorridos,  momentos deliciosos também aconteceram, pois mesmo quando nem tudo são flores, nem tudo são espinhos.


Termino paradoxalmente me desculpando, nem que seja só um pouco, com esse ano velho, por causa das alegrias que insistiram em sobreviver junto comigo, pela grandeza de alguns momentos deliciosos que não foram  eclipsados, mas que se interpuseram para dar sentido à vida, e criar novas esperanças. 


Que o sentido de urgência que renasceu em mim, ainda que em um parto a fórceps, esteja na vida de todos, por uma valorização cada vez maior de cada instante. 


"Não deveríamos precisar do cataclisma para amar a vida hoje. Seria suficiente pensar que somos humanos e que a morte pode acontecer esta noite."  Marcel Proust.


A cada um de vocês, meus desejos de um Ano Novo de Paz, Saúde, Alegrias e Felicidade!

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Lula sendo Lula.


Abertura da sessão anual da ONU em New York, em 23 de setembro de 2025.

Como é costume histórico, começa pela fala do presidente do Brasil. 

Discurso histórico, irretocável!

É discurso para indicação ao Oscar.

Temo pelo Brasil sem Lula!

O brilhantismo dele se impõe e ofusca as poderosíssimas forças que encontram nele, o obstáculo que tem impedido de promoverem o holocausto da esquerda no Brasil.

Lula tem a genialidade inexplicável da criança de três anos, que toca piano em um concerto de sinfônica, ofuscando naturalmente até o papel do maestro.

Lula nasceu « tocando » a política. 

Trouxe com ele todas as ferramentas que fazem um estadista! 

As principais são a inteligência e a sabedoria. Daí decorrem muitas das outras! 

Em meio aos preconceitos e perseguições que o acompanharam desde os primeiros passos dele na política, lembro de um jornalista que perguntou a ele:

-Você é comunista?
Ele respondeu:
-Sou torneiro mecânico.

Antes dele se eleger pela primeira vez, lembro também que ele teve um encontro para uma conversa com um renomado futurologista americano, à época proeminente.

Dessas celebridades decantadas pelo comprovado QI ao nível mais elevado do Mensa.

Pois bem, questionado por jornalistas após o encontro, ele disse:

-Ele foi a pessoa mais inteligente que até hoje conheci.

Lula nasceu pra ser Lula, e foi!

Lembro da alta popularidade com que concluiu o segundo mandato, quando tinha mais de 80% de aprovação. Quem mais teria igualado esse feito?

Elegeu Dilma para sucedê-lo.

Um amigo então comentou: o que falta na vida de Lula? O melhor que lhe poderia acontecer depois de tudo isso seria ele morrer!!!

E quantas coisas vieram depois cuja superação o levou a patamares de realização pessoal, inimagináveis!

Ele ainda não tinha atuado no modo fênix, e milagrosamente, como em certos filmes de aventura, tornou-se uma espécie de James Bond dos trópicos.

Lula ainda tem muito para realizar que beneficie os rumos do país. Do ponto de vista pessoal, porém, já poderia « partir » e o estaria fazendo « na hora certa », pois não é possível que ainda tenha algo a acrescentar ao seu legado!

Talvez virar técnico da seleção, e trazer o hexa, derrotando a Alemanha por 7x1 na final. 

🤣🤣🤣 

sábado, 30 de agosto de 2025

O Intruso.


Era domingo e amanhecera propício para uma longa caminhada. Ameaçava chover! Porém nada que arrefecesse o ânimo daquele pequeno grupo - "Caminhadas quase secretas" - que costuma perambular aos domingos pelas ruas vazias da cidade. Descompromissados e conscientes de que a menor distância entre dois pontos "é uma curva vadia e delirante", como diria um poeta.

A caminhada encaixava-se bem na minha rotina de atividades físicas. Os 18 quilômetros que neste dia andei, o fiz com naturalidade.

Talvez nisso ainda houvesse resquícios de um condicionamento físico adquirido dez anos passados, quando fiz a pé os 775 quilômetros do Caminho de Santiago.

No dia seguinte, uma segunda-feira, eram 11 horas quando ao concluir o treino habitual de musculação na academia do meu prédio, comentei com o meu competente PT (Personal Trainer) o quanto, apesar da intensidade dos exercícios, eu não sentia cansaço cardio-respiratório!

Foi então, com esse perfil de quem sempre cuidou bem da saúde sob todos os aspectos: físico, mental e inclusive alimentar... que no dia seguinte, senti pela primeira vez um leve e passageiro desconforto no peito. Atribuí a um pequeno problema gástrico!

Na noite desta terça para a quarta-feira, dormi muito bem, e não senti nenhum desconforto. No entanto, cedo ao levantar, eram 7 horas, senti novamente a mesma anomalia, que desta vez não seria passageira. Achei que precisava de uma medicação.

Morar nessa etapa da vida próximo de um dos maiores e melhores hospitais da região, não foi intencional ou preditivo. No entanto, a proximidade do Real Hospital Português foi providencial!

Minutos após, eram quase 8 horas, quando depois de um breve deslocamento de carro, entrei andando na emergência daquele hospital. O atendimento foi mais ligeiro do que a rapidez com que se faz um caldo de cana.

O diagnóstico não foi frio, pois veio temperado pela surpresa da médica ao constatar que embora eu não aparentasse,  tivera o tipo mais severo de infarto: oclusão total da artéria.

De imediato me puseram em uma maca, e fui levado diretamente para a sala de hemodinâmica, onde médicos e sua equipe pareciam já estar me esperando desde o dia anterior.

Eram 11 h quando após a conclusão de um cateterismo e colocação de um stent, fui internado por três dias, inicialmente em UTI.

Deu certo!

No entanto, a rapidez e o semblante grave dos que me socorreram, em nenhum momento deixaram dúvida de que poderia não ter dado! Afinal sou eu mesmo, em carne e osso, quem está contanto a história. Isso aqui não é nenhuma psicografia.

Durante meu acompanhamento na UTI, respondi negativamente a todas as perguntas que os médicos me fizeram:

- Sente dor?

- Não.

- Sente náusea?

- Não.

- Sente tontura?

- Não.

Sentia apenas vontade de voltar para casa!

Do internamento à alta foram apenas três dias. Dois na UTI e um no quarto.

Que hospital tão bom nós temos! Equipes muito competentes e bem treinadas. Encontramos gente que até calor humano tinha!

Expressamos, é claro, os nossos melhores reconhecimentos e agradecimentos. E não só no final! A nutricionista, por exemplo, me ofereceu tantas opções para cada refeição, que não me contive em dizer: sentirei muitas saudades daqui!

As visitas de familiares e amigos que recebi ainda no hospital, me permitiram iniciar a construção de um ranking dos que mais se importam que eu viva.

Claro que não foram poucos os que também se importando, e muito, pelos mais diversos e justificáveis motivos, me acompanharam e ainda me acompanham em Home Office.

Diz-se muito bem, que partir é morrer um pouco, e morrer é partir demais. Nunca achei que iria partir demais! Em todo caso, também nunca esperei ter nascido. Pequenos intervalos de dúvidas para quem as tenha, transformam-se nesse momentos em grandes espaços de esperança.

Em um sábado ao meio dia, véspera do dia dos pais, aconteceu a volta do internado para casa. Um momento que rivalizou em alegria com aqueles da ida para o aeroporto, para uma viagem dos sonhos.

Em casa iniciei a melhor fase de qualquer doença: a convalescença. Seguiu-se um período inicial de 15 dias sob cuidadosa e implacável vigilância, durante meu alongado caminho de volta à normalidade.

Esta fase há pouco concluí! Duas semanas de confinamento doméstico, à semelhança de uma prisão domiciliar,  como se eu fosse um ex-presidente!

Achei tudo isso muito fácil! Não fui proibido de ler nem de escutar boa música, podendo até mesmo de receber visitas, sem precisar da autorização de nenhum juiz.

A casa ainda vive um período festivo, onde sob uma atmosfera de alívio, os visitantes se alegram por me encontrarem bem, e são recebidos à volta de uma mesa, como se fossemos espanhóis.

Há quem, vindo com regular frequência, faz parada em uma deliciosa padaria de Boa Viagem, de onde traz iguarias que fazem valer a pena tudo que aconteceu.

Três dias atrás, concluída a minha reclusão, compareci a uma consulta com o meu cardiologista para iniciar a fase de acompanhamento.

Já sei o que me espera para os próximos 90 dias. Até a próxima consulta, daqui a três meses: exames laboratoriais.

Para o dia a dia, de imediato, devo andar: andar dez minutos por dia durante dez dias, em seguida vinte minutos pelos dez dias seguintes, aumentando dez minutos a cada dez dias subsequentes, até alcançar 60 minutos por dia, no que será a etapa de manutenção.

A liberação para a volta aos exercícios de academia, se dará trinta dias após o "procedimento". Estarei tecnicamente liberado para recomeçar, a partir de seis de setembro - ainda faltam sete dias!

Quanto a permissão para ingerir bebidas alcoólicas? O prazo é maior! Sessenta dias. A partir do dia seis de outubro, ganharei o seguinte direito: por semana, três latinhas de cerveja ou meia garrafa de vinho. o que achar mais vantagem!

Esqueci de perguntar se mesmo que eu não tenha vontade, terei que fazer isso que ele passou.

Acreditem, esse limite fica dentro da cota a que me permito, e as vezes, em média, nem chega a tanto!

Quanto às bebidas destiladas, nem quis saber, pois não estão nos meus planos. Assim como não está nos meus planos visitar a China na próxima semana.

Em todo caso sempre fica algo que a gente deveria ter perguntado durante a consulta, e não o fez. Esqueci de perguntar se passando três semanas sem beber, eu poderia tomar tudo de uma vez no final do mês:  doze latinhas de cerveja ou duas garrafas de vinho.

Ainda sobre a consulta, foi um momento leve, descontraído, e para isso contribuiu a presença amiga do Dr Emmanuel Abreu, que adotei como meu médico particular, desde que lhe entregaram o Diploma.

Quase esqueci de dizer para que o relato ficasse completo, que tenho remédios para tomar! Durante o dia toca regularmente o alarme do meu celular, para me lembrar. Geralmente toca em momentos em que não estou fazendo nada. Ainda assim, não gosto muito de ser interrompido! Até aqui não deixei de tomar nenhum dos comprimidos.

O importante de tudo foi ter sido possível que a vida prosseguisse e é inevitável dar a devida valorização a isso! Às metas que eu já tinha, outras vieram a se acrescentar, reclamando suas devidas prioridades que estavam adiadas.

Concluindo, eu diria que em momentos como esse ressurgem da memória algumas citações, desta vez em letras maiores e em cores vívidas, porque internalizadas:

"Às vezes não há nenhum aviso. As coisas acontecem em segundos. Tudo muda. Você está vivo. Você está morto. E as coisas continuam. Somos finos como papel." 

Charles Bukovsky.

"Você não morre porque está doente. Você morre porque está vivo."

Montaigne.

"Quem nos desviou assim para que tivéssemos um ar de despedida em tudo o que fazemos?

Rilke.


Viva o recomeço! 

"Aprender com o que passou!"

Voodrag Rabinore.










sábado, 17 de maio de 2025

Vantagens da Ignorância.

Especializou-se em se superficializar. E foi assim que talvez tenha alcançado uma maior profundidade existencial.

Entendera que havia certo tipo de ignorância que dava certo.

Embora soubesse que a felicidade era desnecessária para viver bem, admitia que de fato, "não existe felicidade fora da ignorância".

Dedicara muito do seu tempo a praticar as boas intenções. 

Andaram juntas por todas as etapas da sua vida, a curiosidade e a estupefação. Resistira a tudo, e levara uma vida inofensiva.

Cedo descobriu que não eram seu nariz, joelhos ou o dedão do pé, suas partes mais sensíveis às desilusões, tristezas e decepções. Era mesmo o coração.

Precisava torná-lo menos fácil de esmagar. 

O desafio era fazê-lo e ao mesmo tempo não esmagar o coração dos outros.

A vida esgotara toda a sua ingenuidade, e ele continuava vivendo.

Paradoxalmente, agora sem mais ilusões, sentia a novidade de um grande alívio. Já era tempo!

Um pouco mais e a vida acabaria pegando-o de calças curtas: sem ter alcançado compreensões que há muito buscava.

A vida porém, ao modo de que ela é capaz, o compensara. 

Ele dando-se por satisfeito, até já pensara de quantos modos é possível morrer, e escolhera o seu! Sentia-se preparado para cruzar a "porta de saída", embora ainda não estivesse pronto.

Foi quando atravessando uma rua movimentada, deu-se conta de estar deitado de costas no asfalto. Enxergava nuvens distantes que se movimentavam contra um céu azul, e até os sons haviam dele se afastado.

Restava-lhe porém uma pálida percepção, quase extra corpórea,  de um burburinho ao seu redor: pessoas o rodeavam. 

Não fora essa a forma que escolhera para deixar a terra, fosse ela plana ou mesmo esférica. Contudo, até com isso já se conformara. Afinal esses instantes finais não estavam tão ruins: já não sentia tristeza, embora o coração ainda batesse! 

Decepções? Nem pensar! Agora achava ridículo ter demorado tanto para adivinhar a realidade. Porém leva-se de fato muito tempo para não entender quase nada!

Finalmente sentia-se perto de conhecer o grande mistério da vida. Ainda assim não evitou que lhe ocorresse pensar: ou não! 

Até em um momentos desses há incerteza? Há dúvida? Que inferno!  Cala-te boca!

Já haviam lhe providenciado uma vela que nele já ardia, e talvez fossem os seus últimos sofrimentos, a dor dos pingos quentes que aqui e ali escorriam queimando a sua mão.

Os adeptos da tragédia continuavam a cerca-lo, vivendo  seu momento de pequena transcendência. Momentos assim para muitos é seu aperitivo.

Destacou-se então entre os mais e os menos frios e impassíveis, naquela que seria a sua última visão dos seres com os quais compartilhara a vida, alguém que deixara-se influenciar pelo ditado popular: "gentileza gera gentileza".

Disse ele, destacando-se da multidão: espere um pouco! 

Que ironia!

E aproximando-se retirou a vela daquele que quase já expirava. Depositou em seu lugar um montinho de areia, e sobre ele repôs a vela. Agora sim, disse aquela alma capaz de boas ações, os pingos não mais te queimarão.

Reunindo suas últimas parcas energias, o moribundo que ali se exauria, conseguiu com extremo esforço abrir um olho e pronunciar suas últimas palavras:

- É morrendo e aprendendo!


sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

Passageiros de Elevador.

 


Cedo da manhã, descia 30 andares quando no 19º andar parou o elevador.

Entrou um pequeno homem, vestido de Desembargador. Não respondeu minhas boas vindas, com o 'bom dia' que lhe dei. Não maldei! Poderia ser surdo. Trazia na mão o celular no qual se concentrou.

Outra vez pára o elevador e nele uma mocinha tímida entrou. Um 'bom dia' bem baixinho balbuciou. Somente eu ouvi. Por ter ouvido respondi. Ela também trazia consigo o celular. Achei que teria dormido com ele.

Concentraram-se os dois em seus aparelhos. O que cada um tanto via? Respiravam os seus celulares, como eu respirava o ar, meu silêncio, e minhas observações.

O "Desembargador", ou seria Presidente de Supremo? Tirou os sentidos da telinha. Puxou do rosto os seus óculos redondos, e com uma flanelinha as lentes limpou. Fez errado outra vez!

Devia tê-lo feito no apartamento antes de sair, usando apropriadamente um kit de limpeza. Desse jeito pode arranhar as lentes, o que não desejo a ninguém.

Chegamos ao térreo.

Deu tempo que esfregasse as lentes com a flanela seca. Saiu primeiro, sem nem dar chance a que antes o fizesse a mocinha. Entrara mudo, saiu calado, sem nem mesmo olhar de lado.

A mocinha pela segunda vez balbuciou algo. Dessa vez inaudível.

Taciturnos!

Andei de elevador com vizinhos desconhecidos e taciturnos.