Hoje, quem primeiro beneficiei após me levantar, foi o meu sistema cardio-respiratório. Portanto a minha saúde. Foi o emprego da disciplina em troca do bem-estar.
Mas antes da caminhada matinal, veio a preparação para ela. Enquanto me preparo, me lembro de toda aquela sequência que cumpre o cavaleiro arreando o seu cavalo.
Em poucos minutos porém, após um rápido desjejum, estou no início da pista de caminhada que margeia o rio ao lado de onde moro.
Em uma dessas ligações espontâneas que o nosso cérebro faz, me lembro do aniversário de 450 anos da cidade economicamente mais importante do meu país.
O acontecimento, faz 18 anos, era festejado em praça pública e as autoridades e celebridades em geral sucediam-se emocionadas em suas falas prestando loas à sua cidade.
Interessei-me quando chegou a vez de uma admirável roqueira, apreciada pelos seus dotes artísticos, e também pela sua sinceridade e irreverência. Sua fala, ainda que distinta daquelas dos que a precederam, quase não destoou, exceto por seu desfecho. É que, para concluir, ela pediu à multidão um "VIVA" à cidade. Àquela cidade a única no mundo, "que tem um rio de cocô".
Iniciei a caminhada fazendo vista grossa para tamanho inconveniente. Afinal, na minha cidade, o rio também é assim. Melhor não seria dizer que andei fazendo "olfato grosso"?
Hoje havia mais gente, o que não é paradoxal, pois trata-se de uma sexta-feira. Alguns esqueceram de levar os seus cachorros. Reparo na diversidade, nos contrastes, nas incongruências: os sóbrios, os sorridentes, os risíveis, os comuns...
Alguém com inscrições em sua camiseta? Claro que sim! Leio no velhinho que passa: "Venha no seu rítmo". Na mocinha vagarosa, de jeitinho descolado, leio: "ADICTED". Em letras bem pequenininhas, "to running". Embora no momento ela quase só se arrastasse.
Mas houve também quem por mim passasse portando inscrições enfadonhas, que mais pareciam parágrafos inteiros de algum livro de auto-ajuda. Eu precisaria ter apressado o passo, e andado um bom tempo atrás dela, se tivesse interesse em ler tudo aquilo.
Também não pode passar despercebida uma senhora tão velhinha que era admirável que ainda pudesse andar, mesmo que tão devagar. Vestia-se como era costume há mais de cem anos, e parecia saída de um certo quadro de Paul Cézanne. Ao seu lado a acompanhante jovem e muito acima do peso, contrastava com ela também em agilidade e esperteza. Vi-a deixar sua acompanhada sozinha superar um pequeno obstáculo na calçada, um desafio olímpico para aquela mulher quase centenária.
A minha caminhada prossegue. Quase todos usam as máscaras onipresentes em tempos de pandemia, ainda que alguns o façam erradamente. Abaixo da boca, protegendo apenas o queixo.
E eis que acontece uma quebra de monotonia. São barracas. Estão dispostas uma ao lado das outras de ambos os lados do caminho. "Feira de Orgânicos". O que vendem os barraqueiros? Vejo que há bananas, abacaxis, melancias, atas ou pinhas (fruta do conde)... Há frutas suficientes para com elas fazer saladas muito coloridas! Tem alfaces, chuchus, abobrinhas... Mas senti falta de inhames e macaxeiras. Em compensação há queijos artesanais, panetones, pães de queijo, molhos de pimenta, doces de leite...
Mas a feirinha extrapola o que dela se possa esperar a partir do nome: "Feira de Orgânicos". Ela também exibe roupas para caminhadas, ao lado de plantas e de flores. Aceitam PIX.
Ao final da pista, prosseguir requer cruzar uma ponte. Significa sair de um bairro para outro. É ousar um percurso mais demorado, que ontem me custou um calo no pé. Por isso fiz a volta para repetir o percurso anterior me mantendo perto de casa.
O retorno, ao final da pista, se faz na "praça dos gatos". É o ponto de encontro dos gatos de rua, que ali recebem da comunidade um tratamento à semelhança dos gatos de Istambul. Não resisto de contar quantos estão por lá, a cada volta. Da primeira vez eram 9, da segunda 19, e há os que, fora da praça, mantêm-se nas redondezas.
Hoje abreviei um pouco a caminhada. Já achava que poderia dar tudo por visto, quando me deparei com um senhor gordinho, cabelos cor da neve, que sentado à margem do caminho observava os passantes. Enquanto isso, cantarolava com voz de falsete cujo tom lembrava Ney Matogrosso!
Atravessei a avenida voltando para casa. Havia menos carros na rua que nos outros meses. Só estão trafegando aqueles que não estão de férias.
Seguiram-se banho, café da manhã e esse registro. Não se pode confiar na memória. Se no futuro me perguntarem: como foram as suas primeiras horas do dia 07 de janeiro de 2022? Lembrarei que foram simples, comuns, mas como sempre especiais para quem sabe observar.