Ao revisitar minha cidade natal, a ainda pequena e interiorana Crato, situada no fértil vale do Cariri Cearense, reencontro lugares, mas sobretudo pessoas.
Revejo a casa onde nasci, mas também os nossos antigos vizinhos, e não só eles! Em cada rosto que passa, busco encontrar a familiaridade de quem um dia já conviveu.
Por trás de um frondoso pé de ficus, está a casa dos nossos vizinhos da frente, porta e janelas sempre abertas e voltadas para a calçada.
Por ali, no entra e sai das pessoas, transcorria a vida simples mas vibrante dos parentes que moravam na mesma rua, dos amigos, dos vizinhos...
Foi com estranho sentimento de pertencimento e ao mesmo tempo de alheamento, que um dia, passados trinta anos, ali voltei pela primeira vez.
As janelas estavam fechadas, mas a porta continuava aberta. Porém não havia ninguém à mostra.
Batí palmas:
- Ô de casa!
Depois de insistir um pouco mais, aí sim, veio de lá o rosto muito familiar de Evan.
- Quem é?
Perguntou ela.
Primeiro me olhou, e talvez porque contra a luz, não me reconheceu de pronto.
- Sou eu Evan! Zé Júnior! Filho de Zé Jucá e Alice.
- Valha-me Deus!!! Hermano, vem ver quem está aqui! Zé Junho!!! Chama Bebeto!
Alegria geral! Genuina! Como se o tempo não houvesse interrompido nada.
Segue-se o convite para entrar, para sentar, para indagar e para responder, questões de parte a parte.
Pergunto eu:
- Como está Dona Palmira?
Dona Palmira, mãe de Evan, de Helano, de Herbeno, de Bebeto, de Helânia, de ...
- Mamãe já não lembra mais de nada!
Respondeu Evan.
Em instantes Dona Palmira é trazida também à sala.
Pergunto:
- Como está a senhora, Dona Palmira?
- Eu só quero é voltar para a minha casa no Crato.
Ela queria voltar para onde já estava.
E enquanto isso passa pela rua o primo deles, Oswaldo.
Grita Evan:
- Oswaldo, meu filho! Vem vê quem está aqui!
Ao mesmo tempo me pergunta:
- Você lembra de Oswaldo?
E Oswaldo se aproxima curioso e logo que me vê exclama:
- É Zé Junho!
Relembra então as festas de São João que "Sr Zé Jucá" fazia. Na frente da casa juntava muita gente. E era fogueira e fogos de todo tipo. Diz Oswaldo.
E prossegue Evan, que fora enfermeira, me dizendo em um lampejo distorcido de memória:
- Um dia apliquei em você uma injeção, quando estavam todos muito aperriados. Você quase morreu nesse dia.
Apressei-me em esclarecer: Evan, essa injeção você aplicou em meu irmão Ronaldo. Ele sobreviveu por pouco, aos dois anos de idade, de um choque decorrente de uma penicilina.
E eis que alertado pela movimentação na casa da frente, aproxima-se Ailton, um dos nossos vizinhos da casa à esquerda da nossa. Filho mais velho do casal Hilda e Manoelito Parente.Veio acompanhado do irmão Paulo.
É a minha vez de relembrar certeiro, dizendo que recordava o dia em que ele acidentou-se ao cair de uma moto. Ele ficou deveras surpreso que eu lembrasse porque quando aquilo aconteceu eu ainda era muito pequeno.
E antes de ir embora, prometendo voltar antes de retornar ao Recife, haviam mandado chamar uma grande amiga dos meus pais. Ela iria gostar de me ver.
Chegou então Dona Neide.
Lembrei-me dela! Era agora viúva do Sr Walter. Pais de Zé Roberto que fora menino da minha idade. Moraram vizinho do meu avô paterno Pedro de Melo.
Ela trouxe na mão uma raridade. Uma foto preto&branco de ótima qualidade. Nem sei se por ocasião daquele retrato, eu já era nascido. Afinal, o registro fora de uma festa no antigo clube da rapadura. Local dos encontros sociais da cidade, antes que existisse o atual Crato Tênis Clube.
Estavam em uma mesma mesa: Dona Neide, Sr Walter e meus pais, todos ainda muito jovens.
Fiquei sem ação quando de súbito, Dona Neide rasgou ao meio aquela bela foto. Estendeu-me o pedaço onde estavam os meus pais, dizendo: faço questão que você leve deles essa recordação.
Sem dúvida foi uma manhã muito especial, de experiências únicas, que têm caracterizado minhas voltas ao Crato. E assim terminei aquela manhã levando comigo um inesperado pedaço arrancado do passado.