domingo, 2 de abril de 2023

Hiperplasia do Ego.



Terminal Integrado de Ônibus da Caxangá, em Recife. Em um teste de associação de palavras, eu o associaria a: ruge-ruge. 


Sim! "Esfregância". Alvoroço. Agonia para entrar no ônibus. Desrespeito. Ausência total das mínimas regras de boa convivência. Um alto preço a pagar por nossa falta de civilidade.


Foi ali,  mesmo não tendo sido intencionalmente, que um homem pisou forte no pé de uma mulher. O marido dela estava perto. Ao seu marido ela reportou de imediato o acontecido. Prontamente ele reagiu, e com uma  peixeirada certeira, o matou.


O ser humano tem às vezes reações instintivas assustadoras, sobretudo quando desproporcionais. Quando físicas, elas são tão explícitas, que se tornam como o mau discurso ao qual ninguém fica indiferente.


Um dia, visivelmente emocionado, um amigo  contou-me com lágrimas nos olhos algo que com ele próprio aconteceu. Teve uma natureza similar.  Para o seu bem, sem consequência criminal. 


Pelo alcance que ele teve de antever as consequências de um momentâneo  descontrole em situações extremas, considerou a sua experiência chocante, mas também reveladora.


Baixara-se para fazer carinho em um gato, e ele o abocanhou. A dor da mordida em sua mão despertou-lhe instintos desconhecidos. Para dele livrar-se a todo custo, sacudiu raivoso de tal modo o braço, tentando livrar-se do animal, que  o atirou com toda a sua força contra a parede. Com o impacto, o gato caiu morto.


Embora as reações instintivas e de forte conteúdo emocional nos casos mencionados tenham provocado reações físicas de extrema violência, no campo das relações humanas não raro elas ocorrem no plano restrito das reações interiores. Das reações psicológicas nada saudáveis, e porque não dizer, talvez patológicas.


Embora nem sempre se manifestando fisicamente, eles não raro revelam um indisfarçável potencial de agressividade e violência.


Elas não matam o gato, matam relacionamentos. 


Ainda mais do que matarem relacionamentos, matam até mesmo a convivência.


Não raro o fazem de modo surpreendente e, às vezes, de modo incompreensível. Afinal, uma das características dessas reações é a desproporcionalidade com relação ao fato que as provocou. 


Para compreendê-las, apelamos para a nossa bagagem de conhecimentos sobre o comportamento humano, que a psicologia e a psicanálise nos legam.


É pertinente a essa questão, comentar a seguinte reflexão que me ocorreu faz pouco mais de dois anos. Foi quando comprei uma moto grande. Pedi que ela me fosse entregue em casa. O que eu não esperava foi o que fez a Agência Concessionária!


Conhece você uma Cegonha? É como se chama aquela imensa carreta que transporta de uma só vez cerca de 12 carros. Pois usaram-na para levar até  mim uma única moto.


Foi como a Rainha Elizabeth sozinha em uma imensa carruagem, mais de 12 vezes maior do que a que costuma usar.


Foi estranhamente naquele dia, talvez não por acaso  mas por circunstâncias ocasionais, que observando o grande espaço que sobrava naquela imensa carreta, pensei: que espaço livre enorme! Mas ainda assim ele não é suficiente para  caber o Ego de um ressentido.


Por isso admito por experiência própria, o que nos diz o poeta mineiro Belmiro Braga: 


"Quantos mortos trago vivos no fundo do coração, e dentro de mim quantos vivos mortos estão".


Penso então no meu próprio Ego. Ele me permite entender o que disse o poeta Belmiro. Meu Ego não é tão pequeno que o possa levar na garupa da minha moto. Seria um extraordinário avanço um dia ele caber no bolso maior do meu casaco!


Mas aos meus amigos, um aviso geral: meu Ego atual comporta que se sintam à vontade comigo. 


Deletem-me dos seus Faces, cancelem-me, me chamem nomes feios, e até vão embora sem dizer por quê.


Estou atento e compreensivo à minha própria natureza humana, e por isso também à de vocês. Jamais perderão seus lugares, no espaço que para vocês eu reservei. Isso farei obedecendo os limites de cada um.


Aprendi como é feio o egoísmo, sofrendo o egoísmo dos outros.


Os cientistas fazem experiências laboratoriais com ratos. Feliz de quem involuntariamente fez experiências existenciais com gatos, e delas aprendeu. Nunca sacudi um animal na parede! Mas a lição aprendida por quem o fez, também a tenho. 


O arrependimento, fruto dos que têm sensibilidade para reavaliar os seus atos, os ajudará a não repetir ações destrutivas, e muito menos fazê-lo com humanos.


Evitar a impulsividade destrutiva, é evitar de ter do que se arrepender. É contribuir para o enriquecimento da vida e não para o seu empobrecimento.


O ideal é mesmo tentar viver de modo a no final poder dizer como o poeta mexicano Amado Nerva:


"Vida, não me deves! Vida, estamos em paz!"