quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Caminhando e Pensando.

 


Hoje li na parede rabiscada de grafites do Parque:
"Nada Supera A Paz Que A Natureza Nos Transmite."

Senti falta que a frase continuasse: "Nada Supera A Paz Que A Natureza Nos Transmite, Quando É A Paz O Que Ela Traz."

Uma natureza revoltada destrói o sossego.

O mar agitado que sacode ameaçadoramente as embarcações, as sólidas construções que sacolejam tentando resistir aos espasmos da terra, os tsunamis, os vulcões quando acordam revoltados...

A natureza porém quando em paz, realmente acalma! É quando sua beleza transborda. É convite à transcendência. Sinaliza a direção do paraíso.

Mas há uma dualidade na natureza que pode levar a profundidades contrárias. Ela nos remonta à dicotomia presente nessa tão bizarra criação que é o homem.

Ele também foi constituído assim. Através dele, já foi dito, que o universo se auto-observa.

Ao se auto-observar deve constatar que entre os seus potenciais diversos, nos extremos divergem radicalmente o bem e o mal.

Movido por motivações nascidas no recôndito de sua alma, o homem é uma ameaça de fazer a natureza tremer ainda mais do que ela seria capaz sozinha.

Assim é que ele pretere a paz ao tomar o caminho da violência e da guerra.

Penso que o bem e o mal, dentro do homem, estão guardados em lugares distintos! O mal é na gaveta de cima, bem ao alcance da mão. O bem, naquele armário lá no alto. Precisa-se até de ir buscar uma escada para alcançá-lo.

Neste momento caminho por estes espaços coloridos e sobretudo esverdeados, na companhia bem comportada da natureza.

Passa por mim um pai jovem, talvez de primeiro filho. Criança-bebê, que de dentro do seu carrinho balbucia barulhento sem parar. Por fim fez uma pausa, e o pai atento reagiu incentivando-o:

- E o que mais?

Como a nossa imaginação voa, comutei para o pai e criança como esses, no parque imaginário onde caem bombas sobre uma área devastada.

- E o que mais?

Sim, é verdade, a natureza do homem não permite que haja verdadeira paz neste mundo.

terça-feira, 10 de outubro de 2023

Fazendo das Tripas Coração.

 


Fiz sim, minha caminhada diária como de hábito. Atrasando-me enquanto vencia a vontade de não ir.

Costumo sempre fazer como recomendável: levanto enquanto ainda soa o alarme para despertar. Hoje porém passaram-se dez minutos, e foi minha alma quem levantou meu corpo que preferia ficar. 

Me senti levado e como raramente acontece, tornara-me um perfeito exemplo de desânimo.

Apenas dobrava a primeira esquina, quando me ocorreu:

"Quando não estamos bem, precisamos das tripas onde antes bastava o coração".

Admirei-me pela primeira vez no dia! Isso é uma citação! E é verdadeira! Surgiu da minha cabeça oca sem aviso nem pedir licença.

Mesmo caminhando de má vontade, percebo que meus pensamentos vem comigo. Às vezes autônomos que são, me dizem o óbvio, mas de jeito inusitado. E vai que de repente podem me surpreender!

Me ocorreu então de inovar ainda que minimamente: vou caminhar bem depressa. Enganarei a todos esbanjando uma boa disposição que não sinto. Hoje não ouvirei o que dizem os que passam. Só escutarei o que vier da minha própria cabeça. Mas não o que eu produzir. Apenas o que dela irromper.

E eis que me ocorre: "Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido".  Logo me intrometo. No momento sou mais de apreciar quem disse: "A vida é um soco no estômago".

E segue o amanhecer, e ao meu redor o dia é todo igual naquilo que aparentemente parece o mesmo. Mas eu o faço diferente caminhando ligeiro.

Isso não me impede de observar os cachorros esquisitos. Também pudera! Um deles caminhava de banda! Cachorros esquisitos, como algumas pessoas.

Distraído, passo por onde sempre está o homem barbudo, de boné e roupas cinza. O que traz os seus pertences em uma mochila e também em sacos de lixo. Faz exercícios usando o banco onde depois se senta. Outras vezes o vejo um pouco à parte, junto a um "poste de luz", tocando uma imensa flauta doce. Hoje ele não veio! Terá sido pelo mesmo motivo que quase não vim?

Nisso sou trazido de volta pela voz de um homem que falando alto ao celular, pergunta:

- Ele já te botou no grupo?

Anos passados eu pensaria tratar-se de um grupo escolar! Agora porém...

Incrível, mas hoje só deu tempo para isso! Já me vi de volta no final do caminho para casa. O porteiro ao me ver logo diz:

- Chegou sua conta de luz.

É isso. Estamos sempre a precisar de luz. Para que ela possa melhor entrar, tem-se mais é que abrir as portas e janelas da alma a cada manhã.