segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Sobre "O Avesso da Pele."

 

"Gostei de ter lido "O Avesso da Pele", livro do escritor Jefferson Tenório.

Dias depois ainda o guardo no pensamento, daquele mesmo jeito que um filme bom também permanece depois de visto.

Se alguém me perguntasse o que mais me ocorre de tudo que li, eu precisaria priorizar o que responder pelo bem da concisão.

Começaria pelo título que achei ter sido uma ótima escolha, pois não poderia ser mais apropriado para uma sucinta e precisa alusão à uma importante questão abordada: o racismo.

racismo, que no romance tem trágicas consequências. Essa ferida social que apequena a alma humana, e cujo triste significado levou a escritora francesa Anaïs Nin a defini-lo como "O analfabetismo da alma".

No entanto, a admissão em nosso país da presença do racismo é, senão negada, aceita por muitos com relutância.

O autor aponta para a dificuldade de identificação da existência do racismo, até mesmo por quem, sendo dele uma vítima, em seus estágios iniciais recusa-se em nisso acreditar.

E isso nos remete à questão do desenvolvimento da consciência, que por demandar tempo, torna a conscientização demorada.

Então, de início, fui levado a pensar na importância do desenvolvimento da consciência para além da necessidade específica da compreensão do racismo.

Refiro-me à importância da aquisição de uma consciência mais abrangente, que nos permita a compreender melhor o todo. Em especial ao que toca a cada um direta e profundamente, e que pode determinar a sua trajetória na vida.

Nesse ponto da leitura me ocorreu o quanto foi apropriado Graciliano Ramos dizer que "viver é perigoso, porque aprender a viver é o próprio viver".

Ainda no tocante à importância da tomada de consciência, a leitura me levou a admitir o quanto é humano as pessoas precisarem de um tempo para  perceber, às vezes, até mesmo as obviedades.

A clareza que nos vem através das experiências bem vivenciadas, é o amadurecer dessa consciência. Infelizmente esse não é um privilégio de todos. Para alguns, como o próprio autor diz: "A vida simplesmente acontecia e você passava por ela".

O alcance individual, a capacidade das pessoas discernirem a partir de suas experiências e de experiências dos outros, é um avesso que logo deixa de sê-lo para o bom observador.

Às vezes enxergamos menos em nós mesmos, do que conseguimos ver na alma dos outros.

Esse levantar um véu para começar a enxergar uma realidade antes oculta, o autor reconhece como sendo um processo. Algo que não lhe foi possível vislumbrar em um piscar de olhos, como até poderia acontecer para outros, o que pode ser creditado à grande diversidade humana.

Na sequência, outro aspecto que me ocorreu teve a ver com a importância dos livros, da sua leitura, e sobretudo da sua assimilação para o desenvolvimento da consciência. Há um momento em que o filho, se referindo às memórias que tem do pai, comenta: "Até o fim você acreditou que os livros podiam fazer algo pelas pessoas."

A comprovação dessa verdade vem a partir de quando, através de um seu professor, o professor Oliveira, ele é apresentado a Malcolm X, Martin Luther King... Nasce daí a sua compreensão maior sobre a questão do racismo. 

Os bons livros lançam luz aos lugares obscuros, e ajudam não raro a ver com maior clareza.

O aprofundamento que eles possibilitam resulta no fortalecimento de raízes. Raízes fortes ajudam a manter as árvores de pé. Mesmo quando os ventos são fortes e ameaçam fazê-las tombar.

Por fim, mas este comentário poderia ter sido feito de início, eu diria que me chamou a atenção o valor simbólico que tem a figura do pai. Independentemente do grau de excelência de um pai, o seu desaparecimento por morte é por vezes mais impactante para um filho, do que seria possível esperar face ao seu relacionamento com ele em vida.

Lembrei-me de um comentário que ouvi certa vez de um filho que acabara de perder, por morte, o seu pai. Não importou que não tivesse tido o mais desejável dos pais, e que conhecesse muito bem os seus erros. Mesmo assim, disse ele: "senti-me como se do mar tivesse desaparecido aquele grande navio transatlântico ali estacionado, e ficado apenas eu, solitário, em um barquinho no meio do mar".

Teria "O Avesso da Pele" nascido do valor simbólico de um pai?

Continuando, porém, eu diria que do muito que o autor externa a partir de suas vivências, várias de suas conclusões ensejam longas considerações. São "ganchos"para comentar sobre a vida! Por isso pude considerá-lo um livro rico por incitar que se ponha em foco questões existenciais de cunho prático.

O autor entre outros menciona: "Ataques de ansiedade", refere-se a alguém que "Ainda não sabia muita coisa sobre autoestima, nem sobre se valorizar, e essas coisas necessárias para manter a sanidade."

O autor também me fez lembrar Clarice Lispector, quando ela disse: "A vida é um soco no estômago", ao mencionar: "A vida não passava de um amontoado de obstáculos que você tinha de superar."

Em outro contexto ele, o autor, se refere a alguém que: "Nunca se questionou. Nunca se perguntou". Foi quando observou: "A vida simplesmente acontecia e você passava por ela."

Por outro lado, ao dizer: "O mar como remédio", me é inevitável pensar sobre o que na natureza e fora dela, também pode servir de remédio ao longo da vida! Penso no mar de distrações que podem ajudar qualquer um a viver.

O autor em meio a tantos "ganchos" para quem deseja examinar ou reexaminar a vida, refere-se: "A maior crueldade que um ser humano pode causar a outro é o abandono".

Nesse ponto confesso que eu não teria sido tão taxativo. O catálogo de crueldades, parodiando o autor quando fala em "Catálogo de Perdas", excede em tamanho os mais volumosos compêndios. 

Como atribuir ao abandono a medalha de ouro em meio a competidores tão credenciados?

A própria vida manifesta incrível espírito de crueldade, ao não poupar ninguém do mal. Sequer escapam do mal e das maledicências os mais prudentes.

É verdade que alguns abandonos são muito cruéis, pois há quem os sofra como a uma tortura. Outra vez me reportando à Clarice Lispector, ela não devia considerar essa morte em vida insuperável ao dizer: "Sofri muitas mortes, mas hoje não morro mais".

Difícil eleger a rainha das crueldades! Talvez porque não haja uma crueldade maior em termos absolutos. Cada um pode ser capaz de escolher aquela com a qual acha mais difícil de lidar.

Por isso eu não escolheria o abandono, mas a injustiça. A injustiça, esse forte concorrente no meu pódio das maldades.

Porém, prosseguindo só um pouquinho mais, senti-me familiarizado ao ler sobre: "Não para nos prendermos num passado, mas para nos libertarmos do presente". 

E ainda, ler e reportar-se a situações já vividas, como "Vegetando na sala" - que pode significar viver uma não vida no lugar que havia construído para viver com alegria.

"Pegar o touro com a unha". "Pegar a vida pela gola e sacudi-la". Isso é para mim olhar a fera nos olhos. É atirar-se à incerteza por ânsia de vida. É quando se tem de tomar uma decisão importante, e ao sentir o chão desaparecer sob os pés, descobre-se poder voar.

E ainda o romance traz algo que, mesmo não sendo um sentimento de largo espectro, alcança muitas pessoas: "Você sempre tivera a impressão de nunca ter conseguido influenciar ninguém". Coitado! Sei muito bem como deve ter se sentido.

Concluindo, nos deparamos com "Você é novo, ainda vai se decepcionar muitas vezes".

A vida é multifacetada e preferimos naturalmente as suas melhores facetas. Isso é tão óbvio quanto a jocosa cabala judaica: "Fui rico, fui pobre. Rico é melhor".

Contudo, viver seria decepcionar-se?

Talvez sim, embora, ainda bem, que não somente isso!

E por fim, o autor fala em: "Entrei no modo automático". Em que modo precisamos entrar para nos libertar do presente?

Enquanto buscamos a sobrevivência devemos ouvir o que disse a tia do pai da personagem principal, o narrador em primeira pessoa de toda a história, o filho que rememora o pai. 

Ela disse assim: "Continue querido. Só isso, continue..."