Duas crianças, um pai zeloso, e um computador. Uma peça em três atos aconteceu em um quarto de apartamento.
Um apartamento em um dos andares mais altos de um prédio residencial da avenida Beira Rio.
O tema da peça: a desobediência civil infantil.
Uma luta entre fazer valer as regras, versus a insistência em descumpri-las.
O computador dentro daquele quarto era de acesso restrito para as crianças.
Havia uma norma: De manhã Colégio, à tarde deveres escolares e demais estudos. Joguinhos no desktop, nem pensar!
Acontece que sós em casa para efeito de quem os fiscalizasse bem, as crianças livravam-se da tentação entregando-se a ela.
A vontade de joguinhos viciantes superava largamente a obediência.
Era assim que tão logo o pai saía, voltando para o trabalho após o almoço, que o computador era por eles ligado. Começavam as longas horas de lazer.
Atento a descobrir o que acontecia na sua ausência, o pai concluiu precisar tomar uma decisão.
Ao sair passou a levar consigo, o cabo de alimentação do computador.
Que frustração essa medida provocou!
Problema sem solução? Claro que não! Não faltaria empenho das crianças em resolvê-lo. Compraram um novo cabo.
O uso do computador continuava assim a se estender até que o pai voltasse.
Por precaução criaram um motivo qualquer, que pareceu um conluio com o porteiro do prédio que os avisava pelo interfone:
- O pai de vocês chegou.
O computador era de pronto desligado, o cabo reserva retirado e escondido. Essas providências assinalavam o final da extensa seção de uso clandestino.
Essa estratégia durou até o dia em que pondo a mão em cima da CPU, a temperatura os denunciou ao pai.
Como pode um computador que passou a tarde desligado, esquentar tanto?!
Veio à tona a fraude do cabo.
Soluções lado a lado para atender objetivos opostos, a porta do quarto do computador passou a ser trancada à chave pelo pai.
A chave passou a ser levada consigo para o local de trabalho.
Fora demolida a ideia do 'cabo reserva'.
Porém, determinadas, as crianças buscaram encontrar um chaveiro. Não demorou a terem em mãos uma 'chave reserva'. Reiniciaram nova temporada de divertimentos digitais.
Implacável na fiscalização, o pai de meninos tão sagazes, era sagaz também.
Desenvolvera meios de saber o que acontecia na sua ausência.
Decidiu trocar a fechadura, desta vez por uma que tornasse o ambiente à prova de um chaveiro qualquer.
Ducha de água fria para garotos já tão habituados a tardes de rotina tão formidável.
Estariam finalmente esgotados todos os recursos?
Restava uma saída! Ou seria uma entrada?
Havia uma janela, providencialmente destravada por dentro.
Usá-la para invadir o quarto era, porém, uma ideia sem juízo.
Exigiria habilidade circense. Habilidade circense de alto risco.
Em contrapartida à criatividade, havia no garoto menorzinho a astúcia que a sua falta de juízo tolerava e permitia.
O acesso à janela era externo. Começava pela varanda, de onde laboriosamente poderia ser alcançada passando-se por cima de uma caixa de ar condicionado.
Uma vez de pé em cima da caixa, era possível chegar à janela após um impulso que levaria o invasor ao seu parapeito.
Por essa janela o acesso ao recinto proibido voltou a ser possível. Pelo menos para um dos dois, o mais ousado e viciado nos joguinhos.
Essa solução temerosa, de tão arriscada, só não prosseguiu por muito tempo, porque certo dia um morador do prédio vizinho avistou tal operação em andamento.
Imediatamente avisou o pai da criança dessa performance.
Ao saber, o pai primeiramente gelou!
Depois, terminados os almoços, passou a levar o computador para o carro, e de lá iam os dois para o local de trabalho.