sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

Passageiros de Elevador.

 


Cedo da manhã, descia 30 andares quando no 19º andar parou o elevador.

Entrou um pequeno homem, vestido de Desembargador. Não respondeu minhas boas vindas, com o 'bom dia' que lhe dei. Não maldei! Poderia ser surdo. Trazia na mão o celular no qual se concentrou.

Outra vez pára o elevador e nele uma mocinha tímida entrou. Um 'bom dia' bem baixinho balbuciou. Somente eu ouvi. Por ter ouvido respondi. Ela também trazia consigo o celular. Achei que teria dormido com ele.

Concentraram-se os dois em seus aparelhos. O que cada um tanto via? Respiravam os seus celulares, como eu respirava o ar, meu silêncio, e minhas observações.

O "Desembargador", ou seria Presidente de Supremo? Tirou os sentidos da telinha. Puxou do rosto os seus óculos redondos, e com uma flanelinha as lentes limpou. Fez errado outra vez!

Devia tê-lo feito no apartamento antes de sair, usando apropriadamente um kit de limpeza. Desse jeito pode arranhar as lentes, o que não desejo a ninguém.

Chegamos ao térreo.

Deu tempo que esfregasse as lentes com a flanela seca. Saiu primeiro, sem nem dar chance a que antes o fizesse a mocinha. Entrara mudo, saiu calado, sem nem mesmo olhar de lado.

A mocinha pela segunda vez balbuciou algo. Dessa vez inaudível.

Taciturnos!

Andei de elevador com vizinhos desconhecidos e taciturnos.

O Maior e Principalmente o Menor.


Duas crianças, um pai zeloso, e um computador. Uma peça em três atos aconteceu em um quarto de apartamento.

Um apartamento em um dos andares mais altos de um prédio residencial da avenida Beira Rio.

O tema da peça: a desobediência civil infantil. 

Uma luta entre fazer valer as regras, versus a insistência em descumpri-las.

O computador dentro daquele quarto era de acesso restrito para as crianças.

Havia uma norma: De manhã Colégio, à tarde deveres escolares e demais estudos. Joguinhos no desktop, nem pensar!

Acontece que sós em casa para efeito de quem os fiscalizasse bem, as crianças livravam-se da tentação entregando-se a ela.

A vontade de joguinhos viciantes superava largamente a obediência.

Era assim que tão logo o pai saía, voltando para o trabalho após o almoço, que o computador era por eles ligado. Começavam as longas horas de lazer.

Atento a descobrir o que acontecia na sua ausência, o pai concluiu precisar tomar uma decisão.

Ao sair passou a levar consigo, o cabo de alimentação do computador.

Que frustração essa medida provocou!

Problema sem solução? Claro que não! Não faltaria empenho das crianças em resolvê-lo. Compraram um novo cabo.

O uso do computador continuava assim a se estender até que o pai voltasse.

Por precaução criaram um motivo qualquer, que pareceu um conluio com o porteiro do prédio que os avisava pelo interfone:

- O pai de vocês chegou.

O computador era de pronto desligado, o cabo reserva retirado e escondido. Essas providências assinalavam o final da extensa seção de uso clandestino.

Essa estratégia durou até o dia em que pondo a mão em cima da CPU, a temperatura os denunciou ao pai.

Como pode um computador que passou a tarde desligado, esquentar tanto?!

Veio à tona a fraude do cabo.

Soluções lado a lado para atender objetivos opostos, a porta do quarto do computador passou a ser trancada à chave pelo pai.

A chave passou a ser levada consigo para o local de trabalho.

Fora demolida a ideia do 'cabo reserva'.

Porém, determinadas, as crianças buscaram encontrar um chaveiro. Não demorou a terem em mãos uma 'chave reserva'. Reiniciaram nova temporada de divertimentos digitais.

Implacável na fiscalização, o pai de meninos tão sagazes, era sagaz também.

Desenvolvera meios de saber o que acontecia na sua ausência.

Decidiu trocar a fechadura, desta vez por uma que tornasse o ambiente à prova de um chaveiro qualquer.

Ducha de água fria para garotos já tão habituados a tardes de rotina tão formidável.

Estariam finalmente esgotados todos os recursos?

Restava uma saída! Ou seria uma entrada?

Havia uma janela, providencialmente destravada por dentro.

Usá-la para invadir o quarto era, porém, uma ideia sem juízo.

Exigiria habilidade circense. Habilidade circense de alto risco.

Em contrapartida à criatividade, havia no garoto menorzinho a astúcia que a sua falta de juízo tolerava e permitia.

O acesso à janela era externo. Começava pela varanda, de onde laboriosamente poderia ser alcançada passando-se por cima de uma caixa de ar condicionado.

Uma vez de pé em cima da caixa, era possível chegar à janela após um impulso que levaria o invasor ao seu parapeito.

Por essa janela o acesso ao recinto proibido voltou a ser possível. Pelo menos para um dos dois, o mais ousado e viciado nos joguinhos.

Essa solução temerosa, de tão arriscada, só não prosseguiu por muito tempo, porque certo dia um morador do prédio vizinho avistou tal operação em andamento.

Imediatamente avisou o pai da criança dessa performance.

Ao saber, o pai primeiramente gelou!

Depois, terminados os almoços, passou a levar o computador para o carro, e de lá iam os dois para o local de trabalho.