quarta-feira, 26 de abril de 2017

Meu Irmão "Barata" Escreveu: "Mensagens da Índia".



Ronaldo nasceu em uma madrugada de meados de junho, no Crato, então uma pequena cidade ao sul do Ceará, no fértil vale do Cariri. Nos arredores havia sítios onde, em tempos de moagem, ouvia-se durante as noites o ranger longínquo dos carros de boi a carregarem o bagaço da cana dos engenhos de açúcar.

Eu tinha apenas oito anos, e dormia no quarto vizinho ao dos nossos pais. Não despertei com a chegada da parteira, nem com toda a movimentação que antecedeu o parto. Houve porém um momento em que, fora da casa, talvez na rua ou até mesmo sobre o teto, gatos inquietos miavam miados longos, que terminavam por aumentar de volume e de tom até eclodirem em gritos que, em meio ao silêncio da noite, me fizeram arrepiar. Acordei assustado, e impelido a dirigir-me ao quarto dos meus pais. A porta porém estava trancada, pois Ronaldo estava nascendo.

Disse de lá o meu pai em tom autoritário: Vá dormir! O dia ainda não amanheceu!

Ainda bem que os gatos pararam de namorar!

Quase não havia ainda amanhecido, e com o bebê já ocupando o meu antigo e enorme berço azul, recebi uma missão: avisar à prima de nossa mãe Alice, a qual se chamava Lurdes Esmeraldo, que o menino nasceu no dia em que ela previra.

Não andei muito para cumprir o mandado. A poucos metros da nossa casa, ao deixar à pé a rua das Laranjeiras e dobrar à direita no chamado beco do padre Lauro, deparei-me com a prima Lurdes vindo em sentido contrário sem precisar ser avisada, já se dirigindo cedo da manhã à nossa casa.


Apressei-me a lhe dizer:
-Foi menino! Nasceu de madrugada.
Ao que ela alvoraçada foi logo respondendo:
-Faz mais de dois meses que disso eu já sabia. Eu bem que avisei que ele iria nascer no dia 17 de junho! Dia do Coração de Jesus.

Dona Lurdes, mulher de coração beato, me acompanhou ou, de tão ansiosa e apressada, fui eu que a acompanhei até chegarmos ao berço.

A penumbra no interior do quarto ficou ainda maior para os nossos olhos vindos do dia. Ali dentro ainda parecia madrugada e a atmosfera era adequada ao início de um longo resguardo.

Assisti àquela primeira visitante cumprimentar exultante a minha mãe. Ela afastou com cuidado o cortinado branco que envolvia o berço, e em meio ao cheiro da alfazema tagarelou.


-Alice, como ele é lindo!
Eu, ao seu lado, lhe chamava:
-Dona Lurdes!
Mas toda a atenção dela estava voltada para dentro daquele berço.

Dona Lurdes continuou:
-Que bochechinhas tão rosadas!
Eu insistia:
-Dona Lurdes!
Insistia em vão.

Prosseguiam seus elogios ao bebê:
-Que nariz tão afiladinho!
Pela terceira vez chamei-lhe a atenção:
-Dona Lurdes!

Finalmente ela me deu ouvidos, e sem disfarçar uma certa indisposição, rendeu-se à minha insistência:

-O que é meu filho?
Só então pude lhe dizer:
-É que a cabeça dele está para o outro lado!

E foi assim que começou para mim a história dessa admirável figura a quem devo apresentar. Não sei como poderei fazê-lo, quando são muitos os que aqui o conhecem tão bem quanto eu.

Prosseguindo, eu diria que apenas dois anos depois, viveríamos ali, naquela mesma casa, momentos de sentimentos opostos, por expectativa contrária. Era a vida manifestando-se para Ronaldo como uma difícil corrida de obstáculos. Diante dele surgiu um dos maiores! Do tipo que ameaça a própria vida.

Era um sábado, quando perto do meio dia, voltei para casa suado, cansado mesmo, após uma manhã de jogos de futebol de salão na quadra do clube local. Encontrei minha mãe com Ronaldo no braço, e em meio àquela aparência de normalidade, tratei de brincar com ele. Foi estranho porém observar que ele não reagiu. Estava estático e tinha o olhar fixo, paralisado.

Em instantes, a casa se transtornou, com Ronaldo deitado na cama, o médico ao seu lado visivelmente apreensivo. Foram minutos de grande aflição, durante os quais meu pai quase foi levado ao desespero, enquanto minha mãe rezava. Uma vizinha nossa, que aplicava injeções, chegou às pressas com uma seringa. Não houve tempo para esterilizá-la. Tudo tinha de ser feito com rapidez. A luta pela vida era uma luta contra o tempo.

O Dr Quixadá, médico pediatra, continuava a apertar os dois lados do maxilar da criança, torcendo para que ele esboçasse alguma reação. Pareceu uma eternidade até que por fim o médico  pode dizer: ele vai voltar! E voltou.



Tivera um choque provocado por uma injeção de penicilina. No passado, por falta da penicilina que ainda não havia sido inventada, a nossa avó paterna fora levada à morte aos 22 anos! Paradoxalmente, o seu uso em Ronaldo por pouco não o matou quando tinha apenas dois anos.

Não se conta uma vida longa e sobretudo MUITO movimentada em pouco tempo! Tenho a intenção de ser breve, e começo a perceber que corro o risco de não o ser. Me apressarei então por resumir dizendo que, em termos de gradação, foi entre esses dois acontecimentos extremos da vida de Ronaldo, nascimento e quase morte, que os demais transcorreram com seus altos e baixos, à semelhança de uma animada montanha russa.

Uma vida plena de emoções, algumas elaboradas e bem aceitas, outras indesejáveis e imprevistas, muitas delas em meio a sustos e frios no pé da barriga.

Órfão de mãe aos 11 anos, formou-se em engenharia elétrica aos 23. Casou cedo, e récem formado já era mandado pela GE para treinamento  nos Estados Unidos.  Deixou a GE pela Chesf, indo trabalhar durante 10 longos anos na usina de Sobradinho. Nasceram os filhos, voltou de Sobradinho transferido para o Recife, onde concluiu a criação das crianças. Mudou de atividade profissional, especializando-se em Meio Ambiente, e na Inglaterra fez o Mestrado nesta área, na Universidade de Bradford. Atuou como coordenador da Pós-Graduação em Engenharia Ambiental da Escola Politécnica de Pernambuco, função que acumulava com o seu trabalho na Chesf. Divorciou-se. Refez-se afetivamente e casou com Vera. Aposentou-se e pelo visto resolveu escrever…

Durante um certo período após a morte da nossa mãe, e estando o nosso pai deprimido e temporariamente incapacitado para o trabalho, certas responsabilidades familiares couberam a mim, entre as quais a que me pôs, no tocante a Ronaldo, numa relação de mentor.

Ronaldo devia ter 12 ou 13 anos, e estudava no Colégio Nóbrega. Certo dia Galdino, seu professor de português, contou-me um episódio que o divertiu um bocado.

Era exame final de português, e o tempo já se esgotava para que os alunos entregassem as  provas. Me disse Galdino que Ronaldo parecia ansioso, e  se esforçava para lembrar a resposta de uma questão de análise sintática.


Seus últimos colegas a entregarem as provas já haviam deixado a sala, e Galdino já o pressionava a entregar a sua também.


A questão que lhe fazia puxar tanto pela memória, era a seguinte:

Classifique a conjunção coordenativa na oração: “Não chores meu filho, que a vida é bela”.

Em tempos modernos quem sabe ele seria ajudado por uma questão de múltipla escolha, e bastaria um pequeno x entre Conjunção Coordenativa Aditiva, Adversativa, Explicativa…

Em tempos de formular integralmente a resposta, era porém preciso guardá-la na memória, que  então lhe falhara.

Quando já não era mais possível retardar a entrega, contou-me Galdino que Ronaldo rabiscou algo apressadamente, entregou-lhe a prova e saiu.



Resposta dada por ele à questão:

Conjunção coordenativa CONSOLATIVA.

Acrescentou Galdino ao relato, enquanto gargalhava: essa levei até para um Congresso Literário do qual participei em Portugal, na cidade do Porto!

Não há quem não tenha alternado durante a vida lembranças felizes, algumas até mesmo engraçadas, com aquelas outras as quais preferimos esquecer. Afinal, como costumo dizer, a vida é como um trem fantasma, um susto a cada esquina. Ainda criança e depois como adolescente e até jovem adulto, algumas das dificuldades impostas à vida de Ronaldo, eu considero terem sido bem graves. Elas aconteceram muito cedo, e o privaram precocemente do afeto dos pais. Considero-as as dificuldades principais, porque não raro podem terminar por impedir alguém de alcançar seus ideais e a realização pessoal. No entanto,  apesar de tudo, Ronaldo foi em frente e até mesmo esses formidáveis obstáculos ele superou.

 Ronaldo é notável por um conjunto de características admiráveis, pelas quais sempre reuniu em torno de si um número considerável de amigos. Mas se me é dado destacar apenas uma dessas boas qualidades, eu diria que esta pode ser expressa por uma palavra de uso atual muito corrente: resiliência.

Resiliência é a capacidade de uma pessoa lidar com os próprios problemas, vencer obstáculos e não ceder à pressão, seja qual for a situação. E não é só isso! Resiliência é  também a capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças. É a capacidade de voltar ao seu estado natural, principalmente após alguma situação crítica e fora do comum.

E chegamos finalmente ao momento atual! Ao momento em que, contrariando o seu apelido de “barata”, o menino finalmente fica quieto por uns momentos e escreve sobre suas  viagens à Índia.

Se “quem canta os seus males espanta”, eu diria que quem escreve até com seus próprios males se encanta. Não com o mal em si mas pela forma que o conseguiu superar: com inteligência, sabedoria, aceitação, fortaleza, dignidade, e sobretudo com esperança.

 Dirigindo-me agora ao Ronaldo, eu digo: O que você escreveu está tão bom! Escreva mais! Escreva também sobre as viagens que faz dentro da sua cabeça, sobre as suas aventuras, suas alegrias,  as muitas anedotas das quais é protagonista, suas decepções, suas tristezas…

Faça, nem que seja com a recomendação de publicarem só daqui a 100 anos, mas faça. Escrever é bom,  ainda que o façamos para nós mesmos.
  
Quando o fizer, não esconda nada, assim como fez em “Mensagens da Índia”. Pois senti falta daquele episódio complementar à sua visita ao Sai Baba. Sai Baba que por tantos anos foi o grande Avatar da espiritualidade na Índia, e em cujo Ashram de Puttaparthi cortavam-se à faca as mais elevadas energias.

Por que não contaste que de lá saíste direto para o Festival da Cerveja em Munique?

Concluindo, e para dar-lhe motivação a novos escritos, veja só que jeito tão bom de reunir pessoas, é entregar um livro! Pessoas que poderão através dele sentirem-se ainda mais perto de você.

Parabéns portanto pela iniciativa, e que você possa continuar a escrever e reunir em torno de si um número cada vez maior de pessoas que o admiram, o prestigiam e o assistem.