Ronaldo
nasceu em uma madrugada de meados de junho, no Crato, então uma pequena cidade
ao sul do Ceará, no fértil vale do Cariri. Nos arredores havia sítios onde, em
tempos de moagem, ouvia-se durante as noites o ranger longínquo dos carros de
boi a carregarem o bagaço da cana dos engenhos de açúcar.
Eu
tinha apenas oito anos, e dormia no quarto vizinho ao dos nossos pais. Não
despertei com a chegada da parteira, nem com toda a movimentação que antecedeu
o parto. Houve porém um momento em que, fora da casa, talvez na rua ou até
mesmo sobre o teto, gatos inquietos miavam miados longos, que terminavam por
aumentar de volume e de tom até eclodirem em gritos que, em meio ao silêncio da
noite, me fizeram arrepiar. Acordei assustado, e impelido a dirigir-me ao
quarto dos meus pais. A porta porém estava trancada, pois Ronaldo estava
nascendo.
Disse
de lá o meu pai em tom autoritário: Vá dormir! O dia ainda não amanheceu!
Ainda
bem que os gatos pararam de namorar!
Quase
não havia ainda amanhecido, e com o bebê já ocupando o meu antigo e enorme
berço azul, recebi uma missão: avisar à prima de nossa mãe Alice, a qual se
chamava Lurdes Esmeraldo, que o menino nasceu no dia em que ela previra.
Não
andei muito para cumprir o mandado. A poucos metros da nossa casa, ao deixar à
pé a rua das Laranjeiras e dobrar à direita no chamado beco do padre Lauro,
deparei-me com a prima Lurdes vindo em sentido contrário sem precisar ser
avisada, já se dirigindo cedo da manhã à nossa casa.
Apressei-me
a lhe dizer:
-Foi
menino! Nasceu de madrugada.
Ao
que ela alvoraçada foi logo respondendo:
-Faz
mais de dois meses que disso eu já sabia. Eu bem que avisei que ele iria nascer
no dia 17 de junho! Dia do Coração de Jesus.
Dona
Lurdes, mulher de coração beato, me acompanhou ou, de tão ansiosa e apressada,
fui eu que a acompanhei até chegarmos ao berço.
A
penumbra no interior do quarto ficou ainda maior para os nossos olhos vindos do
dia. Ali dentro ainda parecia madrugada e a atmosfera era adequada ao início de
um longo resguardo.
Assisti
àquela primeira visitante cumprimentar exultante a minha mãe. Ela afastou com
cuidado o cortinado branco que envolvia o berço, e em meio ao cheiro da
alfazema tagarelou.
-Alice,
como ele é lindo!
Eu,
ao seu lado, lhe chamava:
-Dona
Lurdes!
Mas
toda a atenção dela estava voltada para dentro daquele berço.
Dona
Lurdes continuou:
-Que
bochechinhas tão rosadas!
Eu
insistia:
-Dona
Lurdes!
Insistia
em vão.
Prosseguiam
seus elogios ao bebê:
-Que
nariz tão afiladinho!
Pela
terceira vez chamei-lhe a atenção:
-Dona
Lurdes!
Finalmente
ela me deu ouvidos, e sem disfarçar uma certa indisposição, rendeu-se à minha
insistência:
-O
que é meu filho?
Só
então pude lhe dizer:
-É
que a cabeça dele está para o outro lado!
E
foi assim que começou para mim a história dessa admirável figura a quem devo
apresentar. Não sei como poderei fazê-lo, quando são muitos os que aqui o
conhecem tão bem quanto eu.
Prosseguindo,
eu diria que apenas dois anos depois, viveríamos ali, naquela mesma casa,
momentos de sentimentos opostos, por expectativa contrária. Era a vida
manifestando-se para Ronaldo como uma difícil corrida de obstáculos. Diante
dele surgiu um dos maiores! Do tipo que ameaça a própria vida.
Era
um sábado, quando perto do meio dia, voltei para casa suado, cansado mesmo,
após uma manhã de jogos de futebol de salão na quadra do clube local. Encontrei
minha mãe com Ronaldo no braço, e em meio àquela aparência de normalidade,
tratei de brincar com ele. Foi estranho porém observar que ele não reagiu.
Estava estático e tinha o olhar fixo, paralisado.
Em
instantes, a casa se transtornou, com Ronaldo deitado na cama, o médico ao seu
lado visivelmente apreensivo. Foram minutos de grande aflição, durante os quais
meu pai quase foi levado ao desespero, enquanto minha mãe rezava. Uma vizinha
nossa, que aplicava injeções, chegou às pressas com uma seringa. Não houve
tempo para esterilizá-la. Tudo tinha de ser feito com rapidez. A luta pela vida
era uma luta contra o tempo.
O
Dr Quixadá, médico pediatra, continuava a apertar os dois lados do maxilar da
criança, torcendo para que ele esboçasse alguma reação. Pareceu uma eternidade
até que por fim o médico pode dizer: ele
vai voltar! E voltou.
Tivera
um choque provocado por uma injeção de penicilina. No passado, por falta da
penicilina que ainda não havia sido inventada, a nossa avó paterna fora levada
à morte aos 22 anos! Paradoxalmente, o seu uso em Ronaldo por pouco não o matou
quando tinha apenas dois anos.
Não
se conta uma vida longa e sobretudo MUITO movimentada em pouco tempo! Tenho a
intenção de ser breve, e começo a perceber que corro o risco de não o ser. Me
apressarei então por resumir dizendo que, em termos de gradação, foi entre
esses dois acontecimentos extremos da vida de Ronaldo, nascimento e quase morte,
que os demais transcorreram com seus altos e baixos, à semelhança de uma
animada montanha russa.
Uma
vida plena de emoções, algumas elaboradas e bem aceitas, outras indesejáveis e
imprevistas, muitas delas em meio a sustos e frios no pé da barriga.
Órfão
de mãe aos 11 anos, formou-se em engenharia elétrica aos 23. Casou cedo, e
récem formado já era mandado pela GE para treinamento nos Estados Unidos. Deixou a GE pela Chesf, indo trabalhar
durante 10 longos anos na usina de Sobradinho. Nasceram os filhos, voltou de
Sobradinho transferido para o Recife, onde concluiu a criação das crianças.
Mudou de atividade profissional, especializando-se em Meio Ambiente, e na
Inglaterra fez o Mestrado nesta área, na Universidade de Bradford. Atuou como
coordenador da Pós-Graduação em Engenharia Ambiental da Escola Politécnica de
Pernambuco, função que acumulava com o seu trabalho na Chesf. Divorciou-se.
Refez-se afetivamente e casou com Vera. Aposentou-se e pelo visto resolveu
escrever…
Durante
um certo período após a morte da nossa mãe, e estando o nosso pai deprimido e
temporariamente incapacitado para o trabalho, certas responsabilidades
familiares couberam a mim, entre as quais a que me pôs, no tocante a Ronaldo,
numa relação de mentor.
Ronaldo
devia ter 12 ou 13 anos, e estudava no Colégio Nóbrega. Certo dia Galdino, seu
professor de português, contou-me um episódio que o divertiu um bocado.
Era
exame final de português, e o tempo já se esgotava para que os alunos
entregassem as provas. Me disse Galdino
que Ronaldo parecia ansioso, e se
esforçava para lembrar a resposta de uma questão de análise sintática.
Seus
últimos colegas a entregarem as provas já haviam deixado a sala, e Galdino já o
pressionava a entregar a sua também.
A
questão que lhe fazia puxar tanto pela memória, era a seguinte:
Classifique
a conjunção coordenativa na oração: “Não chores meu filho, que a vida é bela”.
Em
tempos modernos quem sabe ele seria ajudado por uma questão de múltipla
escolha, e bastaria um pequeno x entre Conjunção Coordenativa Aditiva,
Adversativa, Explicativa…
Em
tempos de formular integralmente a resposta, era porém preciso guardá-la na
memória, que então lhe falhara.
Quando
já não era mais possível retardar a entrega, contou-me Galdino que Ronaldo
rabiscou algo apressadamente, entregou-lhe a prova e saiu.
Resposta
dada por ele à questão:
Conjunção
coordenativa CONSOLATIVA.
Acrescentou
Galdino ao relato, enquanto gargalhava: essa levei até para um Congresso Literário
do qual participei em Portugal, na cidade do Porto!
Não
há quem não tenha alternado durante a vida lembranças felizes, algumas até
mesmo engraçadas, com aquelas outras as quais preferimos esquecer. Afinal, como
costumo dizer, a vida é como um trem fantasma, um susto a cada esquina. Ainda
criança e depois como adolescente e até jovem adulto, algumas das dificuldades
impostas à vida de Ronaldo, eu considero terem sido bem graves. Elas
aconteceram muito cedo, e o privaram precocemente do afeto dos pais.
Considero-as as dificuldades principais, porque não raro podem terminar por
impedir alguém de alcançar seus ideais e a realização pessoal. No entanto, apesar de tudo, Ronaldo foi em frente e até
mesmo esses formidáveis obstáculos ele superou.
Ronaldo
é notável por um conjunto de características admiráveis, pelas quais sempre
reuniu em torno de si um número considerável de amigos. Mas se me é dado
destacar apenas uma dessas boas qualidades, eu diria que esta pode ser expressa
por uma palavra de uso atual muito corrente: resiliência.
Resiliência
é a capacidade de uma pessoa lidar com os próprios problemas, vencer obstáculos
e não ceder à pressão, seja qual for a situação. E não é só isso! Resiliência
é também a capacidade de se recobrar
facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças. É a capacidade de voltar ao
seu estado natural, principalmente após alguma situação crítica e fora do
comum.
E
chegamos finalmente ao momento atual! Ao momento em que, contrariando o seu
apelido de “barata”, o menino finalmente fica quieto por uns momentos e escreve
sobre suas viagens à Índia.
Se
“quem canta os seus males espanta”, eu diria que quem escreve até com seus
próprios males se encanta. Não com o mal em si mas pela forma que o conseguiu
superar: com inteligência, sabedoria, aceitação, fortaleza, dignidade, e
sobretudo com esperança.
Dirigindo-me
agora ao Ronaldo, eu digo: O que você escreveu está tão bom! Escreva mais!
Escreva também sobre as viagens que faz dentro da sua cabeça, sobre as suas
aventuras, suas alegrias, as muitas
anedotas das quais é protagonista, suas decepções, suas tristezas…
Faça,
nem que seja com a recomendação de publicarem só daqui a 100 anos, mas faça.
Escrever é bom, ainda que o façamos para
nós mesmos.
Quando
o fizer, não esconda nada, assim como fez em “Mensagens da Índia”. Pois senti
falta daquele episódio complementar à sua visita ao Sai Baba. Sai Baba que por
tantos anos foi o grande Avatar da espiritualidade na Índia, e em cujo Ashram
de Puttaparthi cortavam-se à faca as mais elevadas energias.
Por
que não contaste que de lá saíste direto para o Festival da Cerveja em Munique?
Concluindo,
e para dar-lhe motivação a novos escritos, veja só que jeito tão bom de reunir
pessoas, é entregar um livro! Pessoas que poderão através dele sentirem-se
ainda mais perto de você.
Parabéns
portanto pela iniciativa, e que você possa continuar a escrever e reunir em
torno de si um número cada vez maior de pessoas que o admiram, o prestigiam e o
assistem.

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