Em um mundo imaginário porém distante do ideal, o cenário é o de um set de TV. Através da janela de vidro vê-se a neve que cai lá fora, e é perceptível a atmosfera sombria de um rigoroso inverno, que nos remete a um país bem distante do nosso Brasil tão tropical. Estamos no longínquo Azhyl.
A entrevista vai começar, e um homem está agora ao vivo diante das câmeras da TV, a espera da primeira pergunta.
O entrevistador, após satisfazer os ditames introdutórios, o cumprimenta e faz a seguinte pergunta:
- Houve um momento na sua vida, que o Sr tenha identificado como o ponto inicial de sua trajetória profissional, a partir do qual tornou-se corrupto?
Com a desfaçatez dos "iniciados", o entrevistado pede licença para antes cumprimentar os telespectadores, e responde com espontaneidade:
- Sim! Certamente que sim.
Prossegue então o entrevistador:
- O Senhor poderia nos contar como isso aconteceu?
E a entrevista tem andamento:
- Eu era um jovem recém-formado em Administração de Empresas, e fizera concurso para trabalhar em uma grande empresa estatal do petróleo, a Usabrax. Vivíamos o final da década de 70, e o meu pai tinha amigos influentes no centro administrativo governamental do meu país, localizado na cidade de Azhylia. Ter feito concurso para a Usabrax era o sinal de que eu pretendia fazer carreira por méritos pessoais, e nunca antes pensara sequer em deixar a cidade onde nasci e me formei.
- Mas por que o Senhor terminou indo trabalhar em um Ministério do Governo, em Azhylia?
- Bom! Isso aconteceu enquanto eu esperava o resultado do concurso. Não era certo que eu seria aprovado, e aconteceram as pressões familiares.
- Para qual Ministério o Senhor terminou indo?
- Eu fui contratado para trabalhar como Assessor do Ministro no Ministério dos Transportes.
- Como é sair digamos que da província, pois sua cidade natal, Arrecifes, é uma cidade fora do centro de poder, e descobrir-se em Azhylia, trabalhando em plena praça do poder quadrangular?
- Ah... Essa é uma boa pergunta, porque tem a ver com a minha descoberta inicial de um mundo novo. Logo percebi que Azhylia nada tinha de parecido como o Azhyl. Senti-me por um lado surpreso, mas por outro também deslumbrado.
- O que o surpreendia e o que o deslumbrava?
- Diria que, como aquilo lá foi para mim o descortinar de um novo mundo, isso foi o que me surpreendeu. O que me deslumbrou foram os ambientes luxuosos, e suas amplas salas em cujos tapetes ao pisar enterrávamos as pernas até os joelhos (risos...). Haviam também outras pessoas, outros interesses... Nem parecia que eu ainda estivesse no Azhyl! Embora a moeda no Azhyl fosse o Trocado Novo, moeda da época, só se ouvia falar no Dollar, que mais parecia ser a moeda oficial.
- Como foi a sua adaptação a esse novo meio?
- Azhylia tem uma vida social muito intensa. Muito do que de importante acontece, ocorre fora dos gabinetes de trabalho, nos encontros entre funcionários do governo, autoridades, e como hoje se sabe, dos 'lobbyists'.
- Essas reuniões teriam sido importantes no processo de sua adaptação ao ambiente governamental de Azhylia?
- Eu diria que sim! Até porque foi a partir de algo que aconteceu em uma dessas reuniões, que voltando de férias à Arrecifes, sentei para tomar um Chopp com um amigo, e ele me perguntou: "Como estás em Azhylia?" E respondi: Totalmente corrompido. (Risos...)
- Teria então naquele dia ocorrido o instante inicial, a partir do qual o Sr tornou-se corrupto?
- Sim! Certamente! Porém, até então eu não almejava o futuro que me esperava! Devo explicar que agi com boa vontade e sem a mínima sombra de má intenção, quando ajudei o homem que naquele dia ao se aproximar de mim, já parecia saber quem eu era, e onde eu trabalhava.
- Tratava-se de um lobbyist?
- Não! Ele não era um intermediário! E naquela época ainda não se atribuía essa denominação a quem intermediava interesses pessoais junto aos ministérios.
- Quem então lhe procurou?
- Um homem que apresentou-se como empresário, ele mesmo o interessado em que o Ministro dos Transportes despachasse um processo por cuja aprovação havia muito tempo que ele esperava.
- Ele lhe pediu os préstimos para que o Sr Ministro assinasse a aprovação?
- Sim, e eu me dispus a ajudá-lo. Nada me seria tão fácil! Apenas localizei o projeto em meio a uma pilha de outros, e coloquei-o em cima daqueles que já estavam na caixa de saída. Não demorou para que o Ministro o assinasse.
- Por que esse terminou sendo o ato de corrupção que o Senhor considera como o marco inicial para os demais da sua carreira?
- Até aí eu nem considerava que estivesse fazendo nada demais! Só quando verifiquei ao checar o meu saldo bancário, que havia um depósito na minha conta no valor equivalente a U$ 15 000.00. Logo descobri que o depósito viera da parte do homem a quem prestara aquele favor.
- Qual foi a sua atitude, diante dessa descoberta?
- Procurei-o imediatamente, e lhe digo, eu o fiz indignado! Demonstrei-lhe o meu desagrado e exigi o número da conta para a qual eu pudesse lhe devolver o dinheiro.
- Qual a reação do empresário que lhe subornou?
- Ele demonstrou-se ofendido com a minha atitude, e disse considerar da minha parte uma indelicadeza o que eu pretendia fazer com ele, devolvendo-lhe um presente. Comentou que eu parecia ainda não ter alcançado a verdadeira importância que tivera para ele o que eu fizera. Ele justificou-se quanto ao depósito dizendo que a intenção era comprar com aquele dinheiro algo para me presentear. Como teve dificuldade de saber qual seria o meu interesse, resolvera dar o presente em espécie. Ele foi de tal modo cortês e envolvente, que me deixou completamente sem jeito de insistir. Ele ainda me acrescentou que o valor com o qual retribuíra o meu trabalho, não era nada em relação ao que a aprovação do projeto que eu conseguira, iria lhe proporcionar. E passou a desconsiderar inteiramente a minha pretensão de devolver-lhe o dinheiro, mudando de assunto para falar de frivolidades.
- E então?
- E então, foi quando passei a entender que em Azhylia, para a grande maioria dos funcionários governamentais, o que menos importa são os seus salários, em face do que recebem por prestações de favores, informações privilegiadas e tudo o mais. E então? Pensei: Em terra de sapos, de cócoras com eles. Decidi que passaria a fazer parte dessa maioria.
Fim da primeira entrevista.
Segunda e última entrevista:
Mesmo cenário, mesmo entrevistador, muda apenas o entrevistado.
O entrevistado agora é um Agente de uma Instituição Federal do Azhyl, que pelos seus altos objetivos ligados ao cumprimento da lei, goza de considerável prestígio junto a população daquele país, onde é conhecida pela sigla KTM.
O entrevistador inicia explicando: o nosso programa de entrevistas de hoje propõe-se a indagar aos entrevistados, qual o fato marcante das suas vidas profissionais elas consideram ter sido determinante para balizar o futuro no exercício das suas profissões.
- Eu iniciaria porém lhe perguntando: o que o levou a escolha de tão prestigiosa profissão?
- Acredito que essa foi uma decisão a partir das primeiras influências, que vieram lá da minha infância. Meu pai costumava me presentear com estrelas de Xerife, eu adorava os filmes de cowboys, e costumava ganhar revólveres de presente que tinham até cartucheiras e davam tiros de espoleta.
- Qual a atitude de seus pais ao perceberem que você já um jovem adulto, mantinha o interesse por seguir essa profissão?
- Tentaram por todos os meios me dissuadir, pois eles mais do que eu, tinham consciência dos riscos da profissão de Agente da KTM.
- Qual a sua trajetória até tornar-se finalmente um Agente da KTM?
- Essa foi a parte que em tudo contrastou com as minhas fantasias de criança, pois por cinco anos enfrentei os bancos da faculdade, às voltas com disciplinas do curso de Direito, para como pré-requisito tornar-me advogado. Depois seguiram-se as horas de estudos preparatórios para o concorrido concurso a que precisei me submeter, sem falar em demais exigências legais para exercer a função.
- Uma vez finalmente trabalhando como Agente da KTM, e a partir da sua experiência nessa Instituição, gostaria de lhe perguntar: O Senhor presenciou atos de corrupção na KTM da Azhyl?
- Sim.
- Significa dizer que a KTM é uma instituição corrompida?
- Assim como não há árvore que o vento não tenha balançado, não há em Azhyl, Instituição que não esteja corrompida.
- Nesse caso, devo lhe perguntar: o Senhor atuando como Agente da KTM já recebeu propina?
- Recebi.
- Mas em se tratando do papel que deve exercer um Agente da KTM a serviço da Sociedade, não estaria o Senhor fazendo o papel de um bombeiro que em lugar de extinguir o fogo provoca um incêndio criminoso?
- É justo que pense assim, a menos que me seja dada a oportunidade de me explicar.
- Gostaria sim que o fizesse, afinal o que o Senhor acaba de dizer, nos deixou a todos muito perplexos.
- Certo dia uma grande mobilização interna aconteceu, quando após muitos meses de investigações foi expedido um mandato de prisão para três poderosos mandatários contra os quais se havia encontrado provas de fazerem contrabando de armas para a um país vizinho. A importância da operação justificou um numeroso e forte contingente, e dela chegaram a participar oito Agentes da KTM. Entre eles estava eu, agora já tão apartado dos meus devaneios infantis, por fatos negativos anteriormente já vivenciados, no meio daquela corporação. A caminho, e sob a tensão que antecede operações de risco, eis que soou o celular do Agente que coordenava a operação. O diálogo foi breve. Ao desligar, ele nos informou com naturalidade: "A operação foi abortada e segunda-feira vai ter um depósito de U$ 5 000.00 na conta de cada um de nós.
- O Senhor recebeu esta propina?
- Quando você antes me fez essa pergunta, eu já havia respondido que sim. Recebi não somente esta, como as de ocasiões anteriores. Não há como não receber se uma recusa vai nos indispor diante dos colegas, que passariam a sentirem-se por mim ameaçados.
- Teria sido este momento que acabou de destacar o que constituiu-se o marco a partir do qual moldou os seus propósito de vida futura? Qual foi ele?
- Certamente! Entendi ali que não era isso o que queria para a minha vida. Aquilo não era certo, e eu me exporia a risco e exporia a risco a minha família, caso quisesse fazer valer os meus princípios morais. Pedi demissão.
- O que o Senhor faz depois que deixou a KTM?
- Sou dono de uma padaria.
- Como é deixar de ser Agente da KTM, para ser dono de uma padaria?
- É poder viver fiel aos meus princípios éticos, norteando os meus empregados a servirem de acordo com os valores da honestidade, prestando sempre um serviço de qualidade para os nossos clientes. Agora eu posso todos os dias, quando à noite chega e é hora de dormir, por a cabeça no travesseiro e adormecer em paz. Para mim ter paz de espírito é fundamental! Não há dinheiro que pague! Finalmente vivo em paz, vivo com dignidade.
- Obrigado por sua participação, e boa noite!
- Obrigado por sua participação, e boa noite!
Fim da última entrevista.

