sábado, 21 de julho de 2018

Os Parentes.

                                                                                   Mapa do Estado do Ceará município do Crato.

Década de 50 em uma pequena, pouco populosa e pacata cidade do interior. Vêm dali as minhas primeiras lembranças. Elas só não começaram antes, na década anterior, porque durante os seus últimos anos, meu cérebro incipiente ainda se formava. Perdi muito pouco do que por lá acontecia!

A psicanálise dá conta de que nossas lembranças longínquas podem não ser reais, ainda que em nós estabelecidas como se assim fossem.

Por isso separo minhas lembranças em duas. As que pude na fase adulta comprovar como fatos, e aquelas pelas quais ainda espero a confirmação.

A comprovação dessa história que vou contar, só me veio mais de quarenta anos depois.

Saí do Crato aos onze anos, e certa vez, ao voltar a passeio quando já passava dos cinqüenta anos, encontrei quase do jeito que sempre fora, a casa onde nasci. À sua esquerda, nossos antigos vizinhos, a numerosa família alegre, musical e ruidosa constituída a partir do casal Hilda e Manoelito Parente.

Minha memória guardou, do convívio com eles, uma cronologia de acontecimentos que para mim tornaram-se marcantes.

Alguns deles se misturam com a vida da cidade, outros são muito próprios da vida familiar.

Deixarei para o fim o registro de algo singular que na casa deles aconteceu. Eu tinha apenas sete anos e me senti por aquilo impactado. 

Esse acontecimento viria numa sequência cronológica de outros que o antecederam, alguns sem muita importância e um deles até que por demais inusitado.

Apesar de inusitado, disso eu ainda não podia então dar conta, e por causa da minha pouca idade à época, causou-me menos forte impressão.

O interesse por música encontrava naquela casa a sua expressão maior na figura do Hildelito, um dos filhos mais velhos do casal. “Encostado do filho mais velho Ailton”. Ailton, dos filhos o que caiu da moto... 

Lembro que meu pai elogiava Hildelito, dizendo: “Toca muito bem, e toca de ouvido!”

Por não entender muito bem o que aquilo significava, deduzi, vendo-o tocar sua “sanfona”, que era uma referência à posição meio que de lado, em que colocava a sua cabeça enquanto tocava. Quase a encostar o ouvido no acordeom. Isso! Pensei: “tocar de ouvido” - tocar quase encostando o ouvido na sanfona.

Pelas ligações da família com a vizinha cidade de Exu, teria sido de lá, e das relações de amizade com sanfoneiros locais, que surgira em Hildelito, então um garoto de uns 14 ou 15 anos, aquele gosto e aquela desenvoltura pela música.

Certo dia, em que a movimentação na casa dos Parentes se fez ainda mais alvoroçada, eles nos convidaram para uns momentos de música e diversão, após o jantar. Naquele tempo chamavam a isso de “luau”.

- Venham para cá José e Alice, e tragam os meninos.

Nesse dia, na noite desse dia, a casa deles ferveu! Somente eles e nós, já não deixava espaço para mais ninguém. Tocando a sanfona e de quebra também cantando com grande vozeirão, não era o Hildelito. Ele, dessa vez, também se deleitava. Era um sanfoneiro que viera de Exú: Luiz Gonzaga.

Meu pai bem que me alertou: preste atenção, que ele é um sanfoneiro famoso!

Anos depois, quando eu já era um jovem adulto, um estalo em minha cabeça se deu. De uma música do “Rei do Baião”, para mim ganhou um sentido maior, o trecho da letra que diz:

            “É! O caminho é de açúcar! O Cratinho é doce! Cratinho é terra boa! Todo mundo quer ir pra lá… Eh! Eh! Mas ninguém quer ir pro hoté… todo mundo quer se arrumar na casa de um parente. Um, diz que vai pra casa do Alencar… Ah! Ah! Outro diz que vai pra casa do Parente.”

Mas, concluindo, preciso contar sobre a que ali, foi a ocorrência mor aos meus olhos de criança, e que aos olhos de um adulto, décadas depois se complementaria. Se complementaria em meio a novas reflexões.

Zélia era o nome da menina. Fora criada por Dona Hilda Parente. Era “uma cria da casa” por ela adotada, filha de uma das suas empregadas que morrera, deixando-a recém-nascida. Crescera para ser uma substituta da mãe. Por isso não era como os seus filhos, embora como qualquer dos seus filhos fosse. E Zélia devia ser quase da minha idade.

Um dia almoçávamos em nossa casa, e tínhamos a presença do tio Plácido, irmão dos mais novos de minha mãe, o qual embora morasse em Recife, estava de passagem pelo Crato com destino à cidade de Picos no Piauí.

A conversa estava animada, mas foi interrompida pela gritaria vinda de junto. A voz que se sobressaía era a de D. Hilda Parente. A voz mais sobressaltada, que ressoava aflita: “Valha-me Deus, nos acuda”.

Em dois tempos estávamos todos de pé. Meu pai à frente, seguido pelo tio Plácido e depois deles todo os demais de nós, inclusive Eu. Direto à casa dos nossos vizinhos, sem ainda saber no que seria possível ajudar.

Zélia caíra dentro da fossa.

O buraco cavado no meio do quintal destinava-se a ser a nova fossa que, inacabada, ainda não começara a ser usada. Menos mal! Mas o serviço ia adiantado o suficiente para justificar o desespero de quem se deu conta do que ocorreu.

Tio Plácido, ex-aventureiro nos seringais do Acre, além de ainda jovem, tinha todas as características de quem, em situações como esta, se imbui do espírito de bombeiro.

Devia gostar da camisa que usava, pois embora a tenha tirado com muita pressa, não a sacudiu de lado. Encontrou alguém a quem entregar.

Resoluto, ajudado pelo meu pai, entrou no buraco e pouco depois o resgate estava completo. Zélia sobrevivera. Atordoada, e um pouco ferida e machucada, já tornara a si. Por um tempo as pessoas ainda falaram alto e comentaram detalhes do ocorrido. Demorou até que tudo serenasse.

Não me lembro de, nesse dia, termos terminado o nosso almoço! Nossa memória é seletiva e não guarda fatos de menor importância. Lembro contudo que durante os momentos de maior tensão, Dona Hilda perguntava por onde estariam os filhos mais velhos, e mandou alguém ir chamá-los.

Depois de relembrar tudo isso, me vem aquele outro momento, no mesmo local, mais de quatro décadas depois. Eu visitava nossos caros vizinhos, na mesma casa em que sempre viveram. Reencontrei Dona Hilda aproximando-se dos 90 anos! Seu Manoelito falecera cedo, e já fazia muito tempo.

Estavam presentes alguns dos seus muitos filhos: Marlene, a filha mais velha, Ailton o filho mais velho, o que "um dia caiu da moto", Paulo, esse “encostado com o Hildelito”, que por sinal lá não estava mas me mandou, por Paulo, seu último CD gravado com composições próprias e também do Luiz Gonzaga.

Sempre achei que o passado de pequenas cidades do interior é mais próximo. Fala-se de coisas remotas como se a clareza com a qual foram impressas na alma as tornassem recentes. 

E quanto ao prazer que trazem essas recordações? 

Até fatos desagradáveis nos chegam sem lamentos, e o que antes foi motivo de atropelo pode ser visto com um toque de alívio por já ter passado. Mas, por paradoxal que pareça, a tudo se conta com certo tom de saudosismo.

Naquele dia, foram muitas e sensacionais as nossas conversas! Revivemos coisas “do arco da velha”. As conversas dos mais velhos não raro nos reapresentam a nós mesmos, ao trazer de volta as nossas traquinices da infância.

E foi em meio a essa atmosfera inigualável de boas conversas, que mencionei, para espanto de todos, o dia em que Zélia caiu na fossa.

Disse então Dona Hilda:

- Como pode você se lembrar disso? Você ainda era muito pequeno!!!

E em seguida me perguntou: você quer ver Zélia? A “menina” que caiu na fossa?

E disse Dona Hilda para um dos filhos:

- Marlene, chame aí a Zélia.

Em um instante chegou Zélia e só os olhos e as bochechas guardavam os traços da criança assustada que um dia eu vira a viver pelos cantos.

Sobrevivera depois de cair na fossa, e substituíra a mãe.

Nenhum comentário:

Postar um comentário