domingo, 6 de setembro de 2020

Na Calçada.


O registro dessas lembranças talvez só me seja possível a partir do cada vez mais antigo costume, hoje extinto, das famílias colocarem cadeiras na calçada após o jantar, à frente das suas casas, para então conversarem.

A casa de Vivina e Quinco Landim, era ao lado da Igreja da Sé do Crato, sul do Ceará, e à frente da imensa praça da Matriz. Lembro das vezes que lá meus pais participaram das alegres conversas animadas pela espirituosa Vivina, sua prima. Contar o mais simples fato ou  apenas expressar o modo como vivenciava o cotidiano, prendia a atenção geral, e divertia pelo seu humor natural, e jeito engraçado, vivaz, de se comunicar.

O mais simples acontecimento virava uma estória, as vezes dramática, como a que um dia contou, da sua empregada roliça, que ao voltar da feira, sentiu coçar a parte posterior do antebraço. Só então deu-se conta que trazia enfiado ali, uma seta de espingarda de ar comprimido, utilizada para fazer tiro ao alvo.

Das muitas histórias que contava, já que tudo virava um acontecimento palpitante, e humorístico, a verdadeira graça se perde ao tentar reproduzi-la, pois se esvai a sua alma que era emprestada por Vivina.

Assis, um dos seus dois filhos homens, havia ainda três filhas, rendeu-nos boas risadas com uma das história que ela nos contou.  E imaginem que tudo que havia acontecido, foi que sentindo-se doente ele ainda garoto, deitara para descansar. Já era noite quando ao acordar, sentia muita febre. Ao levantar, confundiu a parte pendurada do cinto da calça com uma cobra. Passara a gritar  "a cobra", "a cobra"...  e pulava de um lado para o outro enquanto tentavam contê-lo.

O outro filho, Zé Landim, também foi personagem de suas narrativas. Lembro que embora fosse o mais velho, tornara-se o único a "não se formar". Significava não haver concluído ainda o ensino de segundo grau. Faltava portanto na casa a sua foto de formatura na parede, ao lado dos irmãos.

Zé Landim gostava mais da sua vida de lazeres, e o futebol, onde jogava de goleiro,  era seu esporte preferido. Como alguns jogos eram transmitidos pela rádio local, e para permanecer incógnito, tinha o apelido de Bacurau. Assim foi que sem ter a intenção, chegou a arrancar elogios da própria mãe, que um dia comentou: "Esse Bacurau é bom mesmo!".

A descoberta de quem ele era, trouxe-lhe grande decepção. Zé Landim desse jeito não iria nunca se formar. Vivina então segurou-o pelo braço, levou-o ao "Foto Saraiva" e nele vestiu uma beca com a qual tirou a sua foto de formatura.

Inesquecível a sua expressão quando após ela colocar aquela foto junto  às dos irmãos, comentou aliviada, e com o sentimento de um dever cumprido: Agora sim, estão todos formados!

Ao comentar sobre as coisas mais triviais, emprestava sempre a sua graça. Como ao falar das suas dificuldades em lidar com suas empregadas. Nessas ocasiões ansiava pelo dia em que pudesse substitui-las por autômatos com receptáculo em certo lugar, e que pudessem fazer os seus serviços automáticamente quando ligados a uma tomada.

O bom humor contudo podia inesperadamente ceder espaço a uma sinceridade incontida. Certa vez Pedro Felício, candidato a reeleição para prefeito do Crato, caminhou pela calçada dela e estando Vivina à porta de sua casa, ele parou para falar:

- Bom dia D. Vivina, aproveito para pedir o seu apoio à minha candidatura para reeleição como prefeito.

- Você não tem vergonha de vir me pedir o voto? Votei em você na última eleição e por quatro anos nunca me deu um bom dia, e só agora vem falar comigo porque precisa de voto? Faça o favor de nunca mais passar na minha calçada!

O advento da TV e o aumento da violência urbana  retirou as famílias das calçadas e substituiu por outros meios o prazeroso jeito original de convivência entre as pessoas, e da apreensão de suas histórias.

Campanha Eleitoral.


O pai de Maria (Bau), vivia com a sua numerosa família, no município de uma pequena cidade interiorana no sul do estado do Ceará,  Brejo Santo.

Era o que se chamava morar no meio do mato, e no sopé da chapada do Araripe.

Tal localização, que em épocas sem GPS era ainda mais difícil de se encontrar, não foi empecilho para que certo dia chegasse à sua porta, um homem que com ele precisava falar.

- Sr José Pereira, permita que eu me apresente. Sou candidato a    prefeito da nossa Brejo Santo, e sei que só na sua família o senhor tem dez eleitores. Eu aqui estou para pedir esses votos do senhor e dos seus familiares.

O seu José Pereira no seu modo tranquilo mas assertivo, sobretudo sábio, assim respondeu:

- Pode contar com a gente cidadão! Lhe garanto cinco dos dez votos, pois os outros cinco já estão prometidos ao outro candidato.

Às vezes sim!

 




Presenciei com atenção o interrogatório ao qual o Dr Vitorino Spinelli submeteu sua idosa cliente, a já bem velhinha Maria.

- A senhora se engasga quando come?

- As vezes me engasgo!

- Quando?

- Quando como farinha.

Uma Questão Nasal.


A franqueza era uma das características daquela senhora idosa, que fazia mais de 30 anos fizera uma cirurgia mal sucedida no nariz. Décadas depois resolvera consultar-se outra vez em busca de uma solução.

Após examina-la, o médico bruscamente voltou-se para ela, e demonstrando indignação, perguntou:

- Quem foi o cavalo do médico que fez essa desgraceira em seu nariz?

- Foi o senhor!

 

sábado, 5 de setembro de 2020

Tentando Acertar.

 

Reencontrei um antigo professor de português, o professor Galdino, e ele foi logo me perguntando por meu irmão Ronaldo. Disse ter uma lembrança divertida dele, a qual chegara a contar em um Congresso do qual participara em Coimbra, Portugal.

Ele aplicava uma prova de português no Colégio São Bento, na qual uma das questões era a seguinte:

Classificar a conjunção subordinativa na oração: "Não chores menina, pois a vida é bela."

Quase todos os alunos já haviam entregue as suas provas e deixado a sala, mas Ronaldo insistia em continuar. Faltava responder esta questão, e não parecia seguro de fazer. Assim, continuava a pensar. Por fim só restavam ele na sala, e o professor Galdino a esperar. Com o tempo esgotado, o professor voltava a insistir para que ele entregasse a prova, quando finalmente Ronaldo resoluto, escreveu rapidamente a resposta e a entregou.

Curioso, o professor Galdino foi logo verificar o que ele havia respondido. E não se conteve! A resposta estava lá:

"Conjunção subordinativa consolativa."


quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Mangústia.


Meu tio Cícero tinha um motorista, Sr Lauro, que dirigia a sua Rural Willys pelas estradas da Bahia, por onde trabalhava como representante comercial. Em uma das suas permanências em sua casa, em Recife, minha tia Letícia, sua esposa, perguntou gentilmente ao Sr Lauro:

- Sr Lau, o senhor aceita que eu lhe sirva uma mangústia?

- O que é mangústia, D. Letícia?

- É manga com leite, passados no liquidificador!

- Oh não! Obrigado! Eu prefiro a manga pessoalmente.

Pegando Carona.


Anoitecera e já fazia algum tempo que os colegas de trabalho haviam deixado o escritório ao final do expediente. Ali só permaneciam Humberto Dória e Herivelto Bronzeado. Herivelto elevou a voz, para ser ouvido por Dória do outro lado da sala, e perguntou:

- Dória, quando você sair daqui irá para casa?

- Sim. Eu vou.

- Nesse caso eu vou esperar para ir contigo.

- Ok!

O tempo passou, e como Dória não fizesse menção de ir embora, Herivelto resolveu perguntar-lhe:

-  Dória, a que horas você pretende ir?

- Daqui a pouco! Estou terminando. Falta só fechar as gavetas do birô.

De fato, minutos depois os dois deixavam o local conversando, enquanto dirigiam-se à parte externa do prédio principal da Chesf, onde trabalhavam. Estranhamente Dória não se encaminhou para o estacionamento, o que levou Herivelto a perguntar:

- Onde você estacionou o seu carro?

- Não vim de carro! Vou voltar de ônibus.

- Mas Dória! Por que você não me disse antes?

- Porque você não me perguntou! Quis saber apenas se eu iria para casa.


Pondo um Ponto Final.


O jeep era do meu pai, mas até parecia que o dono era eu. Aos 19 anos, cheguei mesmo a  escolher a cor com que a sua capota de aço foi pintada. Uma cor abóbora de gosto por demais espalhafatoso. No carnaval eu a tirava, pois para o propósito momesco bom mesmo era o jeep sem capota nem escape.

Na minha cidade, Recife, o melhor era divertir-se durante a semana pré. Principalmente em tempos de corso ao longo das principais ruas, passando pela Av Conde da Boa Vista e Av Guararapes.

Já era o último dia de folia da semana pré-carnavalesca, por mim comemorada regiamente desde o primeiro dia. Voltávamos eu e dois amigos para casa, em Olinda, tarde da noite mas ainda cedo da madrugada. Era natural que o meu pai já estivesse preocupado pelo adiantado da hora. Ansioso, já fazia muito tempo que ele me esperava.

Muitas décadas depois, um dos amigos que me acompanhava, Paulito, em meio a uma conversa que passava pela rememoração de fatos, relembrou-me da reação do Sr Jucá, quando em casa finalmente chegamos. 

Pois é, enérgica e autoritariamente, meu pai chegou até mim e bradou:

- Chega de orgia!

Zoroastro.


 Zoroastro era um empregado coringa, que aos seus 18 ou 19 anos tinha certas vezes o comportamento de uma criança! Sempre pronto para as novas tarefas, apresentava-se para assumi-las com grande determinação embora nem sempre as cumprisse a contento. Fazia poucos dias que havia recebido o salário, quando procurou a esposa do meu sócio no restaurante onde trabalhava:

- D. Fata, (o nome dela era Fátima) estou precisando que a senhora me arranje aí um dinheiro.

- Como assim, Zoroastro? Ainda não faz três dias que você recebeu seu pagamento!

- Mas é uma urgência, D. Fata!

- Que urgência é essa, Zoroastro? Você é solteiro, tem casa, tem comida...

- É para eu ir ao médico, D. Fata.

- Mas e você está doente, Zoroastro? Que doença é essa que estou lhe vendo aí cheio de saúde!

- Mas estou doente sim, D. Fata.

-  O que é que você está sentindo, que nem parece?

- Tô doente é do pêni, D. Fata.

Um Pequeno Lapso.

 


Estavam todos apreensivos por causa do Sr Moacir. Afinal já fazia algum tempo que ele vinha se queixando de sentir uma dor no peito. Resistente a  médicos, relutava em atender o apelo dos seus familiares para que fosse se consultar. 

Só depois de muita insistência foi que terminou indo.

Ao voltar, estavam todos na expectativa do resultado. D. Ilma, sua esposa, foi logo perguntando:

- E então Moacir? Contou tudo direitinho? O que o médico falou da dor no peito?

- Falei tudo que sentia, mas sobre a dor no peito, não é que esqueci de dizer!!!

Desacordo.


 Na rua do seu edifício em Boa Viagem, bairro de Recife, um garoto morador do prédio viu passar à sua frente um carro que achou muito bonito. Como estava próximo da guarita, quis mostrá-lo ao porteiro, e apressado chamou sua atenção:

- Seu Claudio, Seu Claudio, veja só aquele carro ali passando! É um Eclipse.

- Que Ecripse que nada menino! O Ecripse que eu conheço é um praneta.

Por uma Questão de Reconhecimento.



Meu pai comentava sobre a extrema atenção que o homem simples do campo, sertanejo do sertão do Ceará, dispensava ao médico que sempre que necessário atendia a ele e aos seus familiares.

Para exemplificar, contou que certo dia o médico local atendeu a mulher de um sertanejo acometida de grave enfermidade. Após certo tempo de longas tentativas de tratamento, em dia de feira na cidade, o médico encontrou casualmente aquele homem e foi logo lhe perguntando:

- Como está sua mulher?

- Ela morreu doutor!

- Morreu?!!!

Surpreendeu-se o médico, que ficou visivelmente constrangido, ao que o viúvo apressou-se em alivia-lo:

- Morreu sim, doutor, mas já morreu se sentindo muito melhorada!


Alcides bebe?


Salvador, Bahia, subestação de Matatu, sala do Serviço de Transmissão de Salvador, CHESF, ano de 1975. Um operador de subestações seria transferido para a subestação de Governador Mangabeira chefiada pelo operador Edmundo, evangélico.

É que chegara a hora. Subestações de 69 Kv operadas pela Chesf, passariam para as concessionárias. Em uma subestação no estado de Sergipe, alguns dos seus operadores lá permaneceriam, passando a ser funcionários da Energipe. Outros seriam remanejados incorporando-se a outras subestações da Chesf.

Presenciei o seguinte diálogo entre o engenheiro Dorgival, então responsável pelo Serviço de Transmissão de Salvador, e o Sr Edmundo:

- E então Edmundo, gostaria de lhe perguntar uma coisa! É sobre o operador Alcides, que depois de transferido irá trabalhar com você. Ele deverá  ocupar junto com a família, a casa da subestação vizinha a sua. A pergunta que lhe faço é:

-O Alcides bebe?

- Não Dr Dorgival! O Alcides não bebe. Ele come com farinha.