sexta-feira, 31 de março de 2023

Superando Um Trauma - Parte II.

 


E agora chegara a hora de fazer de novo o que de uma primeira vez não dera certo.

Mas convenhamos! Para mim nada havia que me fizesse temer. Eu tinha razões pessoais para disso me sentir seguro. Outras pessoas, outro momento da vida e outra cidade, ainda que do mesmo país.

Os  dias descontraídos e alegres que ali passei, fizeram um grande contraste com a minha experiência anterior. Bem recepcionado, acolhido  e  aceito, me fizeram sentir em casa. Resgatei aquele raro momento de tristeza vivido,  do qual, se já passara a dor, terminou passando também o dolorido. 

Passeios pelos lugares históricos da cidade, incluindo os murais com os grafites de Bansky, e até mesmo através de trilhas já que persistia a minha vontade de caminhar. Visitas a Bath e aos bares (pubs) de Bristol, à bela cidade de Salisbury, ao monumento pré-histórico de Stonehenge e até Cardiff no País de Gales, e Londres ao final de semana para visita à feira de Porto Belo.

 Por gentileza de um então garoto infantil, que hoje já está na fase de jovem adulto, a mim não foi permitido sequer pagar as eventuais passagens de ônibus. Um dia quando ele não estava com o dinheiro eu mesmo paguei. Porém chegando em casa ele fez questão de me ressarcir justificando: você é uma visita.

Que belo conceito sobre visitantes!

E antes que como nas estórias de trancoso essa entre por uma perna de pinto e saia por uma de pato, chegou o dia em que minha estadia terminou. Tomei o trem para Londres.

Tenho a dizer que despedi-me depois de terem na véspera comemorado o meu aniversário. O trem já fazia a última parada antes de chegar ao seu destino, quando atendi uma chamada no meu celular.

Era a minha anfitriã. Ela queria saber:

- E agora, onde você está?

Respondí:

- Estação Reading, a última antes de chegar a Londres.

Não posso esquecer dos últimos cuidados que recebi, mesmo depois de ter ido embora. Pois tive então um exemplo de uma hospitalidade incomparável.

Ela apressou-se em dizer:

-  Nesse caso melhor você aproveitar para fazer xixi, pois deixando para fazer em Londres, você vai ter de pagar.

Hóspede agradável, e hospedeiros também!

Superando Um Trauma - Parte I.


Outra viagem, mesmo país, outra cidade... Uma viagem distanciada por muitos anos da anterior. 

Como toda viagem, tinha um propósito: escapar da rotina, refrescar a mente, desvincular-se do dia a dia habitual. Novos sons, novos cheiros, temperaturas diferentes, outra umidade, outra língua, ativação de partes diferenciadas do cérebro. 

Fazer uma faxina mental. Recarregar baterias. Reciclar-se. Prosseguir a vida nos melhores termos. Relembrar um mundo que sabemos existir, mas do qual não fazemos parte. A menos que para lá viajemos.

Mas essa nova viagem tinha algo que era mais do que só isso, muito mais do que o habitual.

Outra vez não fui para um hotel, e até aí tudo igual àquela viagem anterior. Havia pessoas queridas por lá, e eu fora mais uma vez convidado para me hospedar na casa deles.  E isso  era também para mim assustadoramente igual. 

Não eram as mesmas pessoas! Mas eram seres humanos também. Nada tinham a ver com o que havia me acontecido naquela ocasião anterior.  Estavam bem entre si, e não havia discrepância de sentimentos entre o momento do convite e a hora da minha chegada.

Acontece que eu ainda guardava o trauma de como tudo acontecera antes. Daquela vez, por lá nem todos estavam bem. Havia problemas, e não comportava naquele momento me receberem. Mas receberam! O convite fora feito quando ainda era possível fazê-lo. Mas as coisas mudam! Como mudam as políticas e as nuvens no céu!

Era fim de ano, aquele mês que termina em festas. Pequena cidade, do norte frio da Inglaterra. Temperatura que só não era mais fria do que o jeito que fui recebido. "Mais frio que um diagnóstico". Mas nas ruas havia calor humano! Achei isso paradoxal. Véspera de Ano Novo, os pubs estavam lotados. Deles saíam sobretudo jovens embriagados, que por assim estarem, apesar de ingleses, na rua cantavam e tinham até mesmo a disposição de abraçar desconhecidos.

Havia razões para aquela má disposição de me receber, que embora não tivesse a ver comigo, em mim reverberasse. E aconteceu um ápice trágico. Não mais havendo como  suportar minha presença, ainda que ela fosse do bem, senti-me impelido a ir embora.

Voltei para Londres, onde já estava fazia meses, e de onde arredara para passar uns poucos dias em família, durante o Natal e dia de Ano. Claro que não deu certo.

Nessa retirada súbita de volta a Londres, fui acompanhado por um familiar a quem coube, como eu, e em trajetória diversa, cruzar as mesmas plagas naquele mesmo instante. Também haviam respingado nele aqueles maus jeitos.

Foi um longo percurso de volta a Londres, que então fizemos  distanciando-nos daquele lugar que se tornara inóspito. Se fora assim para mim, assim tornara-se para ele. Além do mais, conhecemos o dito popular: "quem vê a barba do vizinho arder, põe a sua de molho".

Primeiro o ônibus de linha doméstica daquele subúrbio distante para a estação rodoviária, depois o trajeto para Londres, e finalmente o taxi  da estação rodoviária  para o mesmo hotel, e durante todo esse percurso, ainda abalados, permanecemos calados!

Não temos vontade de falar quando a nós se sobrepõe um absurdo tão grande quanto inesperado. Recuperar-se leva um tempo. Enquanto isso, o recolhimento. O silêncio dos monges trapistas.

No hotel dirigimo-nos aos nossos quartos, e ali um breve descanso, um banho, um trocar de roupas e ainda, a perdurar, o silêncio. 

Combinamos de sair e comer uma pizza. Leicester Square. Uma pizzaria legal! De toque bem italiano. Lá chegamos. Escolhemos a mesa, e pedimos a pizza econômicos no falar. Esperamos o atendimento ainda calados. Um silêncio que já durava horas, e comecei a ficar curioso de como aquela mudez iria acabar. Ou será que não mais acabaria? Tínhamos perdido a voz para sempre?

Foi quando ouvi do sobrinho que me acompanhava:

- Que coisa! Não é, tio? Nunca esperei que aquilo lá acontecesse!     Estávamos só de passagem e somos pessoas tão agradáveis!

O resto da noite então foi leve, talvez pela admissão de que ele tivesse razão! A perspectiva de sermos agradáveis e de que continuávamos a sê-lo apesar de tudo, criava a condição de entender os maus momentos dos outros e deixar que, ainda que magoados, o tempo nos possibilitasse de conceder o perdão.

Para mim foi também uma lição de auto-estima.


quinta-feira, 30 de março de 2023

Dias Engraçados se Repetem!

 



Quase todos os dias, não falta algo para a gente se divertir! 


Ontem, no melhor caminho indicado pelo Waze para meu trajeto de carro até uma clínica fisioterapêutica, me deparei com muitos cruzamentos não sinalizados, que eu motociclista de longa data, me precavi de passar em marcha reduzida, atento às aproximações descuidadas.


Fui pego mesmo assim  de surpresa, ao perceber a aproximação atabalhoada de um ciclista, que se contorcia como uma cobra com câimbra, em cima da bicicleta, tentando evitar de se chocar contra a porta do meu carro, lado do motorista. Só não aconteceu o acidente, porque acelerei.

Pelo retrovisor pude ver ele xingando uma barbaridade! Não deve ter tido palavrão que ele não dissesse!

 Eu nunca mais tinha tido uma crise de riso! Mas crise de riso é MUITO bom. 

Afinal, o engraçado de tudo foi ver enfurecido, o responsável pela própria fúria! Só que dirigindo-a a quem evitou o pior! 🤣🤣🤣

Porém confesso, me diverti ainda mais foi com a troca de bengalas! 🤣🤣🤣🤣🤣🤣  (postagem anterior).

O Pitoresco De Cada Dia Nos Dai Hoje.

 


Ao sair pela enésima vez para a mesma fisioterapia, até ironizei:

Chegou a melhor hora do dia. Lá vamos nós para a fisioterapia!


Mas sabe de uma coisa? Ironias poéticas à parte, me diverti inesperadamente. Afinal os dias são assim. Às vezes mesmo quando a gente não espera, coisas divertidas acontecem.

E sou dos que costumam se divertir à toa!
 
Duas senhoras super-idosas, faziam lá os seus tratamentos. A que terminou primeiro foi embora, e a outra minutos depois. A segunda delas ao sair descobriu que a anterior tinha levado por engano a sua bengala. Essa troca de bengalas causou uma risadagem geral! 

Também pelos desdobramentos.

Contactada pela fisioterapeuta chefe Carol, a primeira das super idosas negou que tivesse pego a bengala da outra. Isso gerou uma reflexão filosófica, sobre se a super idosa número 2 não teria reconhecido a sua própria bengala. 

Bom, o caso está em suspenso, e parece sem solução.

Quando chegou minha hora de ir embora, resolvi botar um pouco mais de fogo na fogueira. Já me aproximando da porta de saída, e com ar de seriedade eu me voltei e disse:

- Carol, a minha bengala que deixei aqui desapareceu! 

Ela levou a sério, e demorou um pouco para dizer: mas você não usa bengala!

A risadagem então se repetiu ao relembrarem o fato fisiopitoresco do dia. 🤣🤣🤣

domingo, 26 de março de 2023

Coisas de Sobrinhos-Netos - Crianças.


Foi no interior de uma igreja, quando pela primeira vez, aos três anos de idade, Tomás via transcorrer uma missa. Atento ao seu redor, pedia esclarecimentos ao seu pai sobre o que via:

- Por que aquela mulher está com uma toalha na cabeça?

- Por que aquele senhor cabeludo está pendurado?

- Quando o verdadeiro papai do céu vai descer?


E ainda Tomás, certo dia de futebol entre Brasil x França, fizeram-lhe uma pergunta. A pergunta não  seria embaraçosa se a sua mãe não fosse francesa e o pai brasileiro.

- Por quem você vai torcer?

Respondeu:  

- Pela França!

- Por que pela França?

- Porque mamãe é francesa!

Mas e o seu pai?

- Meu pai é franceso.


          


Outro dia a avó dos dois quase entrou em desespero!

Sim, pois trata-se dos gêmeos Martin e Tomás.

Ela pensava estar a sós com eles no apartamento do último andar do prédio.

Cheguei como combinado para levá-los para almoçar no restaurante da esquina.

Deparei-me no jardim do térreo com aquelas duas crianças de três anos, sentados no chão brincando com a areia. Estavam sós, o que me causou estranheza.

- Quem os trouxe para cá?

Martin respondeu, enquanto continuava a brincar:

- Viemos sós.

- Como chegaram aqui?

- O elevador! Ele abriu a porta, a gente entrou, ele desceu!

Presenciei então duas expressões conflitantes de sentimentos que ocorreram  ali naquele  instante. 

A satisfação e tranquilidade infantis em momento de grande realização pessoal, e o infortúnio e quase desespero da avó que, andares acima, os procurava em vão por toda parte. 

Não deu tempo de avisá-la onde eles estavam, pois não os encontrando onde esperava que estivessem, desceu às pressas. Quando apareceu na portaria do prédio estava lívida, espavorida. 

Ao vê-los sentiu o alívio dos que acordam de um pesadelo!

Ao observar o que as crianças na sua ingenuidade fizeram, lembrei-me do slogan do Google: simplify, simplify, simplify. E para reforçar  a ideia de importância da simplicidade, no  mural da sede da Google, os dois primeiros simplify estão riscados.

Só que ás vezes, pensei eu, enquanto alguns  simplificam, outros podem ser levados à loucura!


Martin e Tomás têm dois tios paternos, somos eu e o meu irmão.

Meu irmão tem precisado usar cadeira de rodas para se deslocar. 

Um dia o pai deles os avisou:

- Hoje o tio vem nos visitar.

Na dúvida, foi a vez de Martin perguntar:

- O da cadeira de rodas? Ou o do cabelo feio?


Tom tinha menos de dois anos, e aproveitava os poucos dias em que pela primeira vez visitava o avô, meu irmão, no Brasil. O que aconteceu foi simples, mas para mim ficou gravado talvez pelo inesperado. Afinal Tom  falava muito pouco!

Estávamos em uma lanchonete, e chegara a hora de eu ir embora. Tom brincava ao lado, próximo de nós e fui até ele. Baixei-me para vê-lo de perto e me despedir.

Ele olhou para mim muito admirado, e exclamou:

- Não é o vovô!!! 😃


Enquanto houver crianças a alegria estará assegurada, muitas novas histórias e a esperança também!