Outra viagem, mesmo país, outra cidade... Uma viagem distanciada por muitos anos da anterior.
Como toda viagem, tinha um propósito: escapar da rotina, refrescar a mente, desvincular-se do dia a dia habitual. Novos sons, novos cheiros, temperaturas diferentes, outra umidade, outra língua, ativação de partes diferenciadas do cérebro.
Fazer uma faxina mental. Recarregar baterias. Reciclar-se. Prosseguir a vida nos melhores termos. Relembrar um mundo que sabemos existir, mas do qual não fazemos parte. A menos que para lá viajemos.
Mas essa nova viagem tinha algo que era mais do que só isso, muito mais do que o habitual.
Outra vez não fui para um hotel, e até aí tudo igual àquela viagem anterior. Havia pessoas queridas por lá, e eu fora mais uma vez convidado para me hospedar na casa deles. E isso era também para mim assustadoramente igual.
Não eram as mesmas pessoas! Mas eram seres humanos também. Nada tinham a ver com o que havia me acontecido naquela ocasião anterior. Estavam bem entre si, e não havia discrepância de sentimentos entre o momento do convite e a hora da minha chegada.
Acontece que eu ainda guardava o trauma de como tudo acontecera antes. Daquela vez, por lá nem todos estavam bem. Havia problemas, e não comportava naquele momento me receberem. Mas receberam! O convite fora feito quando ainda era possível fazê-lo. Mas as coisas mudam! Como mudam as políticas e as nuvens no céu!
Era fim de ano, aquele mês que termina em festas. Pequena cidade, do norte frio da Inglaterra. Temperatura que só não era mais fria do que o jeito que fui recebido. "Mais frio que um diagnóstico". Mas nas ruas havia calor humano! Achei isso paradoxal. Véspera de Ano Novo, os pubs estavam lotados. Deles saíam sobretudo jovens embriagados, que por assim estarem, apesar de ingleses, na rua cantavam e tinham até mesmo a disposição de abraçar desconhecidos.
Havia razões para aquela má disposição de me receber, que embora não tivesse a ver comigo, em mim reverberasse. E aconteceu um ápice trágico. Não mais havendo como suportar minha presença, ainda que ela fosse do bem, senti-me impelido a ir embora.
Voltei para Londres, onde já estava fazia meses, e de onde arredara para passar uns poucos dias em família, durante o Natal e dia de Ano. Claro que não deu certo.
Nessa retirada súbita de volta a Londres, fui acompanhado por um familiar a quem coube, como eu, e em trajetória diversa, cruzar as mesmas plagas naquele mesmo instante. Também haviam respingado nele aqueles maus jeitos.
Foi um longo percurso de volta a Londres, que então fizemos distanciando-nos daquele lugar que se tornara inóspito. Se fora assim para mim, assim tornara-se para ele. Além do mais, conhecemos o dito popular: "quem vê a barba do vizinho arder, põe a sua de molho".
Primeiro o ônibus de linha doméstica daquele subúrbio distante para a estação rodoviária, depois o trajeto para Londres, e finalmente o taxi da estação rodoviária para o mesmo hotel, e durante todo esse percurso, ainda abalados, permanecemos calados!
Não temos vontade de falar quando a nós se sobrepõe um absurdo tão grande quanto inesperado. Recuperar-se leva um tempo. Enquanto isso, o recolhimento. O silêncio dos monges trapistas.
No hotel dirigimo-nos aos nossos quartos, e ali um breve descanso, um banho, um trocar de roupas e ainda, a perdurar, o silêncio.
Combinamos de sair e comer uma pizza. Leicester Square. Uma pizzaria legal! De toque bem italiano. Lá chegamos. Escolhemos a mesa, e pedimos a pizza econômicos no falar. Esperamos o atendimento ainda calados. Um silêncio que já durava horas, e comecei a ficar curioso de como aquela mudez iria acabar. Ou será que não mais acabaria? Tínhamos perdido a voz para sempre?
Foi quando ouvi do sobrinho que me acompanhava:
- Que coisa! Não é, tio? Nunca esperei que aquilo lá acontecesse! Estávamos só de passagem e somos pessoas tão agradáveis!
O resto da noite então foi leve, talvez pela admissão de que ele tivesse razão! A perspectiva de sermos agradáveis e de que continuávamos a sê-lo apesar de tudo, criava a condição de entender os maus momentos dos outros e deixar que, ainda que magoados, o tempo nos possibilitasse de conceder o perdão.
Para mim foi também uma lição de auto-estima.

Nenhum comentário:
Postar um comentário