quarta-feira, 29 de abril de 2026

Na Serra da Borborema.

                                                       

                                                     


Comprar uma rede para o filho e pagar em várias prestações, já denotava a precária condição financeira daquele mestrando do curso de engenharia elétrica da Universidade Federal de  Campina Grande. 

Era início da década  de setenta, época em que vivíamos muitas restrições pessoais, compromissos familiares, responsabilidades, dificuldades de pagamentos, problemas para lidar, incertezas...

Havia contudo, e de sobra, habilidade para sobreviver. No mesmo grau coexistiam força, determinação, esperança e confiança no futuro.

Quanto a ele, antes já se safara de dificuldades e seguira em frente. Era uma prática recorrente à qual eu também já me habituara.

Sua 'expertise' porém, parecia nata.

Foi o que pude constatar ao vê-lo deparar-se com a chegada daquele cobrador, que veio para receber uma prestação da dita rede.

Se dinheiro ele tivesse para saldar a dívida, não precisaria ter recebido o cobrador tão solicitamente: a forma como lhe indicou o caminho para a porta de entrada, o jeito como lhe apontou o assento, o oferecimento de um copo água...

Tudo isso deve ter deixado aquele pobre homem muito apreensivo, desconfiado!

Viera receber dinheiro pouco, mas o pouco é muito para quem não tem quase nada.

Sentados agora frente a frente, o mestrando Reginaldo, tomou fôlego e assim começou:

- Veja só o que aconteceu!

Do outro lado o coitado do homem já estremeceu!

E assim ele continuou:

- Era para te pagar hoje, mas não vai dar!

E prosseguindo, afinal só ele é que tinha explicações para dar:

- Mas fique tranquilo! Você vai receber. O que acontece é que a faculdade atrasou meu pagamento. Você pode, se quiser, ligar para lá, e você vai saber! A questão é que estou sem dinheiro aqui. Porém o tenho com meu irmão em João Pessoa. Tivesse eu dinheiro para ir até lá buscar, na volta lhe pagaria. Talvez fosse um bom negócio para você, me emprestar aí esse dinheiro, pois teria a garantia de eu lhe pagar de volta quando retornar, e assim liquidar de vez essa prestação.

                                       No mesmo dia, já em João Pessoa, o seu irmão Evaldo emprestava ao aliviado Reginaldo, a quantia que ele precisava. Certamente não só o necessário para atender aquele compromisso, pois outros também tinha.

Certas saídas, como esta, são do gênero “dar nó em pingo d'água”. Ele atuara no modo emprestar dinheiro a agiota, imitando-lhe os juros. Coisa de quem ensina Pai Nosso a vigário.

Realizara mais uma vez a sábia recomendação de tirar o maior bem do maior mal.

Passados mais de cinquenta anos, os reencontros com Reginaldo sempre trazem de volta lembranças comuns muito divertidas. Afinal, convivemos durante os árduos anos iniciais da vida adulta, desde os tempos de bancos de faculdade.

Ainda na Serra da Borborema, nos reuníamos, nós e outros colegas, para estudar na casa que eu alugara. A casa tinha um subsolo, local de porta e janela, com saída para um vasto quintal. Um espaço isolado e acolhedor, bastante apropriado para as nossas incursões nas matérias do curso.

Ali, um dia, enquanto estudávamos, de um auto-falante distante nos chegou a voz aveludada de Nat King Cole, que cantava em espanhol "Quizás, quizáz, quizás." Nos divertíamos um bocado com a estrofe em que ele (nos) dizia: "Estás perdiendo el Tiempo! Hasta quando? Hasta quando?..."

Divertir-se largamente parecia nos deixar melhor preparados para os momentos de seriedade, que de qualquer forma eram a maioria.

As vezes, a descontração podia surgir de modo inesperado, em meio ao silêncio quebrado pela vizinha mal educada, que no quintal ao lado, berrava a todos pulmões pelo filho:

- E B I N H A !!!!

Reginaldo emendava, maldizendo a súbita interrupção:

- Seu filho da Puta!!!!

Era com muito pouco que nos divertíamos a valer!

Ali, diante de uma lousa na frente da qual havia um birô e algumas cadeiras, relembro a figura magra de óculos de lentes para muito míopes, do colega Pedro, cearense de Fortaleza.

Seu nome ganhara um adendo para distingui-lo de outros Pedros, e ressaltar algumas das suas características pessoais: Pedro Doido.

Estudávamos a disciplina de "Análise de Sistemas I", e o assunto era "Componentes Simétricas". O conceito básico desse tema é, de fato, muito interessante, e por que não dizer, intrigante. Para quem está sendo apresentado a ele, eu diria que surpreendente, elegante!

Porém, surpreendente mesmo, e inesquecível foi assistir à reação de Pedro, Pedro Doido, quando interrompendo o desenvolvimento que fazia no quadro, teve uma crise nervosa de riso, enquanto esfregava as costas na parede. Entremeava seu descontrole, com uma pergunta-observação dirigida a nós:

- Vocês acreditam nisso? Eu não acredito não!

Dos mais variados fatos, não nos escapava explorar o seu lado pitoresco, talvez o jeito inconsciente de suavizar os momentos de tensão.

Outro dia, ou melhor, em certa noite de estudos, resolvíamos os últimos exercícios de uma série que nos foi dada. Servia como o aprendizado para o exame no dia seguinte.

Restou um único problema que nos faltava resolver, e pairava sobre ele uma dúvida a esclarecer. Que falta ali nos fez a presença do professor da disciplina, Armando Ribeiro, que viera do Rio de Janeiro para ministrar aquele curso. 

Hospedado no Hotel Ouro Branco, no entanto, ele não nos parecia fora do alcance a qualquer hora, para  alunos mais afoitos.

Assim é que sucedeu entre nós a escolha de a quem caberia dirigir-se àquela hora ao hotel onde o professor se hospedava, e tirar com ele  aquela dúvida crucial.

Zenirak! Sobrou para o nosso colega Zenirak. De certa forma ele quem terminou se disponibilizando. Iria mesmo, de volta para casa, passar perto do hotel. Além disso, quem sabe, pode ter pensado que aquilo poderia contribuir para a construção de uma imagem de aluno aplicado.

A nossa curiosidade de saber o resultado duraria até a manhã do dia seguinte, ao reencontrar um Zenirak de cenho franzido, e olhos esbugalhados.

- E então Zenirak, o que foi que ele disse?

- O que ele disse? Ele disse: "Meu filho!!! Você vem me acordar uma hora dessas para me perguntar isso!!!!!!!

Lamentamos por Zenirak, mas ainda bem que ao Mestre pareceu que aquela fora uma iniciativa individual. No geral, e apesar da gafe, para resolver a prova não nos fez falta a persistência daquela dúvida, e nos saímos muito bem.

Esses escritos me ocorreram de registrar, quando hoje, aniversário de um Reginaldo aposentado mas sempre com a mesma verve, ele me relembrou um episódio simples, fruto de um momento de espontaneidade, no qual fomos protagonistas. Com isso, eu encerro esse relato que, do contrário, poderia prosseguir, tendo eu certa dificuldade de concluir.

Reginaldo comprara o seu primeiro carro. Um fusca cor telha, e não imagino como conseguiu levá-lo da Agência para casa, pois não sabia dirigir.

Os dias iniciais com o carro, não lhe alteraram a rotina de continuar a ir todos os dias para a faculdade de ônibus, o que causava interpelações de como isso era possível, tendo um carro novinho na garagem!

Aproveitou, contudo, um primeiro fim de semana para os seus ousados treinos iniciais de direção. Acompanhei-o no banco de passageiros, enquanto ele, à direção, seguia amarradamente, por uma estrada periférica pouco movimentada, quase rural. Ele seguia brigando com o carro, perdendo aqui e ali para ele, com imensa dificuldade de controlá-lo.  

O que a gente não faz pelos amigos!

Acho que eu já suava um pouco, quando, à nossa frente, um homem puxando um burro por uma corda atravessou a estrada. O atrapalho foi enorme! O homem com o burro teria admitido que qualquer condutor seria capaz de lidar com aquela situação: desviar, diminuir a velocidade e até mesmo parar, já que vinha devagar.

Mas é claro o homem não sabia quem estava na direção daquele carro.

Foram momentos de aflição, exceto para o burro, que acredito nada compreendia.

Foram segundos horripilantes com o carro aproximando-se cada vez mais do burro e do homem, prenúncio de um lento e malvado atropelamento. Em um último instante, Reginaldo acertou pisar no freio e o carro estancou quando todos já estavam pálidos, e dados por vencidos.

Reginaldo não se conteve em culpar o homem que confiantemente conduzia o burro para o quase atropelamento. Virou-se para mim, e perguntou:

- Se você fosse um policial rodoviário o que você faria?

Até hoje ele não se contém de dar boas risadas, pela resposta que eu lhe dei:

- Eu prendia você e o burro!

 

"Onde não há prazer não há proveito."

"...e onde o humor entra, o prazer faz eco."