sexta-feira, 5 de junho de 2026

Entre a Política e o Futebol.

 

                                              Entre a Política e o Futebol.


Fiel ao princípio de que “Todo prazer me diverte”, eu aprenderia as regras da sinuca, e até de jogos estranhos e aparentemente sem graça, em troca de bons momentos de distração.

Não sou grande aficionado do futebol, mas gosto de assistir a jogos de alto nível, que hoje concentram-se principalmente na Europa: Champions, Premier League, La Liga, Bundesliga…

As plataformas de stream trazem esses grandes jogos para nossas salas, e sem levantar da poltrona podemos confortavelmente assisti-los, comendo pipoca.

A propósito, na Inglaterra, até campeonatos de sinuca são transmitidos pela televisão.

Hoje porém há um tema nacional em pé de igualdade com o genocídio na Palestina, a guerra na Ucrânia ou a prevalência de lideranças políticas arrogantes e corruptas.

Esse tema é a convocação do jogador de futebol Neymar para a Copa.

O embróglio termina chamando a atenção até de quem odeia os esportes.

Na minha visão, que por ser pouco privilegiada deve ser considerada menos opinião e mais palpite, Neymar na Copa, claro que o motivo não é atlético, é financeiro!

Basta lembrarmos da afirmação contemporânea do filósofo italiano Giorgio Agamben, quando declarou:

“Nietzsche não tinha razão. Deus não morreu. Ele transformou-se em dinheiro."

Já houve Copa, a da França em 1998, em que por desconfiança das altas cúpulas, cogitou-se até de negociatas envolvendo a venda do título.

Por suposição, consideremos:

Alguém vai se submeter a uma delicada intervenção cirúrgica no coração, e cateteres passearão por suas delicadas artérias.

Há um cirurgião consagrado com a experiência de milhares de cirurgias, e outro mais jovem que em início de carreira desponta pela sua performance de reconhecida capacidade e competência.

Quem ele escolheria para o operar?

O velho experiente e consagrado cirurgião, ou aquele capacitado, competente, mas até então ainda construindo um brilhante futuro?

Peço que ele considere na sua escolha, que o cirurgião mais experiente sofre de tremores nas mãos!

Certamente que seu amor próprio ditaria a escolha racional, que seria a melhor para sua segurança.

Acontece que o interesse de um hipotético paciente pela própria vida, tem semelhança com o de muitos dirigentes, pelo dinheiro.

Sendo assim, deixam de lado as decisões racionais menos lucrativas e abraçam as aparentemente ilógicas.

As metáforas nunca guardam relação fiel com o objeto de retratação.

Mas servem neste caso para indicar que a irracionalidade de uma escolha termina por preterir alguém que no momento seria o mais indicado.

E o que pensa a sociedade?

Um complexo de entendidos e desentendidos desse metier, que vão do ex-jogador de futebol de alto nível, passam pelos comentaristas esportivos, e chegam até aqueles analfabetos em futebol.

O que observamos é uma divisão que vai do desinteresse total pela questão, passando pelo acompanhamento distante, até os posicionamentos viscerais.

Há mesmo um quase disfarçável ingrediente político, se considerarmos  que o pivô dessa querela nacional é um contraponto a alguns dos seus companheiros de profissão do passado.

Aqueles companheiros de posicionamento político bem fundamentado, como eram Sócrates, Casa Grande, Raí, Tostão, Juninho Pernambucano, Reinaldo…

Há contudo algo que admito que possa acontecer, de modo subjacente, na mente dos que querem vê-lo convocado.

Mesmo naqueles que, com com um olho no padre e outro na missa, são responsáveis diretos pelo sucesso na Copa e aumento do caixa.

É que a construção de mitos parece estar na cesta básica dos brasileiros.

Essa carência de origem psíquica a ser explicada por conhecedores do comportamento humano, alimenta muitas atitudes bizarras tomadas nos últimos tempos em nosso país.

Talvez na base da construção de certas falácias, esteja a propensão do homem ao auto-engano.

Diz-se que “A ilusão é uma importante ferramenta de sobrevivência.”

Creio que o imaginário popular projeta a própria realização naqueles que a alcançam.

Acho indiscutível o talento de certos jogadores!

Para mim, a qualidade de um jogador está associada ao quanto o Deus-dinheiro está com ele.

Só pode ser muito bom aquele por quem grandes clubes europeus pagaram milhões de euro.

Baseio meu pensamento em acreditar que ao contratá-los, empresários foram inspirados pelo Deus-dinheiro que a eles só fala depois de ter absoluta certeza.

A identificação de um possível mito a quem glorificar, me parece um processo tão míope, quanto a própria necessidade de tê-lo.

Esse processo cega para a maldade que faz o tempo, de desgastar as habilidades, depalperar o corpo, e prejudicar o desempenho de atletas, até mesmo os que foram mais cuidadosos consigo mesmos.

No entanto, o sonho uma vez iniciado prossegue, enquanto no mundo real se desfaz a possibilidade de concretizá-lo. 

Que decepção seria para uma criança, quando assistindo a um filme de bang-bang, o mocinho morresse no final!

O que é pretendido como sonho dos trópicos  é a concretização de um mito.

Adivinhar o resultado de certas decisões, torna-se um desafio para os oráculos!

O improvável não é impossível, e logo mais a resposta sobre a correção ou erro crasso dessa decisão será conhecida, no tocante ao resultado prático pretendido.

No final haverá exaltados e crucificados.

A enxurrada de jogos se encerrará faltando menos de três meses para as eleições.

Haverá resquícios de discussões sobre futebol, misturados com o de política eleitoral.

Mas a discussão política será imperativa.

A escolha do melhor para um time de futebol, será substituída pela escolha do melhor para todo um país.

Outra vez as opiniões continuarão divergentes, pelas preferências divididas entre as poucas opções existentes.

Para mim a escolha será entre um velho cirurgião saudável e consagrado na profissão, e o jovem charlatão claudicante, a quem nem sequer  podemos chamar de médico. 

Neste momento, com hexa ou sem hexa, o que para mim mais importa é que sejamos tetra.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Sobre Lapsos.


Há eventos que encerram ricos significados, e nos convidam a uma participação condizente com momentos solenes.

Adequamo-nos aos ambientes das celebrações de casamentos, ou das cerimônias das colações de grau, ritualisticas cada uma ao seu modo.

Nelas é esperado que nada fuja de uma meticulosa programação, ainda que haja riscos disso não acontecer.

Apesar de toda pompa e seriedade desses momentos, não raro a falibilidade humana se insinua, e a nossa real natureza se sobressai.

Certo dia, o casamento, além de solene, era refinado, e o celebrante, um padre jovem e piedoso, ocupava o seu lugar no púlpito.

Pretendia exaltar o Sacramento do Casamento, quando resolveu interagir com os convidados, perguntando:

- Quem aqui é casado, por favor levante a mão.

Prosseguiu o pregador:

- Vejo que aqui quase todos são casados!

E acrescentou:

- Só quem é solteiro sou eu, graças a Deus!

Lapsos há que nos fazem rir, e não importando as circunstâncias, diz-se que quando rimos estamos na presença dos deuses! Porém há lapsos que nos fazem corar!

Ainda tendo como palco o interior de uma igreja, coraram muitos convidados de um casamento, quando o velho padre curvado ao peso de muitos anos, dirigiu-se aos ali presentes ao iniciar a sua prédica.

O templo lotado, era constituído em grande parte por membros da colônia japonesa local, a maioria deles parentes do noivo. 

Dirigindo-se a todos, disse o antigo celebrante:

- Prezados irmãos, prezadas irmãs... e japoneses aqui presentes.

Todo esse preâmbulo foi feito para finalmente contar algo que veio a tornar memorável um evento não ritualístico, nem tão formal como esses antes mencionados.

Aconteceu em uma das cíclicas reuniões de familiares e amigos, para festejo de um aniversário. O inusitado fez rir e corar, mas não nessa ordem. Primeiro coraram todos, para rir somente muito depois.

O restaurante já fervilhava e aquele não seria o único aniversário que ali era comemorado.

Em mesas contíguas, familiares e amigos de famílias diversas já tomavam assento, animados convivas preparados para a animação dos seus almoços.

E tudo ocorreu em meio a muita efusividade, muita alegria, características de uma autêntica festa de família.

O tio Toim, do aniversariante Antonius, para dar maior significado ao momento, sugeriu que juntos cantassem o tradicional "Parabéns pra Você".

Chamou ele o garçon, que se não era estagiário, parecia estar estreando na profissão.

- Você tem aí um bolinho para a gente cantar aqui os parabéns?

Ato contínuo, trouxe o garçon um belo bolo confeitado com velinha ao centro.

Exultaram todos e ecoaram os cânticos entusiasmados e palmas que até contagiaram o meio, pois houve quem da mesa vizinha se juntasse a acompanhar o coro, e aplaudir o aniversariante.

Fim de festa. O garçon atendeu prontamente ao pedido da conta. Antes porém perguntou:

- O senhor já pagou o bolo?

O tio Toim surpreso, respondeu:

- Não! O bolo, alguém daqui da mesa foi quem trouxe!

Na sequência, e para identificar quem o teria trazido, fez a inevitável pergunta:

_ Quem daqui trouxe o bolo?

Ninguém havia trazido!

A movimentação estranha a um final de festa, despertou a atenção e curiosidade, e consequente desconfiança dos ocupantes da mesa do aniversariante ao lado. Eles ainda não haviam cantado os parabéns. Porém tinham trazido um belo bolo e entregue aos cuidados do restaurante.

Tudo logo ficou muito claro. O bolo errara de mesa. Velinha já apagada, bolo já fatiado, seus pedaços já divididos, a distribuição até já terminara. Dele quase nada restava. Poucos eram os vestígios do erro.

Formou-se então em "petit comité", um ensaio de troca de satisfações e esclarecimentos, entre os ocupantes das duas mesas. Vieram de lá o filho e a esposa do aniversariante do qual fora subtraído o bolo.

O filho, talvez pela impetuosidade da juventude, foi irredutível:

- Como pode você comer o bolo que não comprou?

A mãe foi compreensiva e atenuou:

- Entendo que não houve má intenção.

E quanto à reação do aniversariante, que literalmente "levou o bolo"?  Ele agora sorria largamente, depois de muito ter gargalhado. Talvez comemorasse também o fim do seu inferno zodiacal.

Para que essa história entrasse por uma perna de pato e saísse por uma de pinto, assumiram todos a fatalidade. Alguns mais conformados do que outros!

O tio do aniversariante, em um gesto de reparação, autorizou ao garçon trapalhão servir sobremesas aos prejudicados, e tratou de pagar o bolo.

Mesmo no mais comum dos eventos, há quebras de roteiro tão marcantes, que terminam  por magnificá-lo tornando-o inesquecível. 

Ao que me consta, o bolo estava delicioso, mas apesar da amistosidade final entre as partes, ninguém ousou sobre isso comentar. Nem sequer perguntar onde o tinham comprado!


"Divirta-se porque você não pode mudar nada mesmo"

Holtzer.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Na Serra da Borborema.

                                                       

                                                     


Comprar uma rede para o filho e pagar em várias prestações, já denotava a precária condição financeira daquele mestrando do curso de engenharia elétrica da Universidade Federal de  Campina Grande. 

Era início da década  de setenta, época em que vivíamos muitas restrições pessoais, compromissos familiares, responsabilidades, dificuldades de pagamentos, problemas para lidar, incertezas...

Havia contudo, e de sobra, habilidade para sobreviver. No mesmo grau coexistiam força, determinação, esperança e confiança no futuro.

Quanto a ele, antes já se safara de dificuldades e seguira em frente. Era uma prática recorrente à qual eu também já me habituara.

Sua 'expertise' porém, parecia nata.

Foi o que pude constatar ao vê-lo deparar-se com a chegada daquele cobrador, que veio para receber uma prestação da dita rede.

Se dinheiro ele tivesse para saldar a dívida, não precisaria ter recebido o cobrador tão solicitamente: a forma como lhe indicou o caminho para a porta de entrada, o jeito como lhe apontou o assento, o oferecimento de um copo água...

Tudo isso deve ter deixado aquele pobre homem muito apreensivo, desconfiado!

Viera receber dinheiro pouco, mas o pouco é muito para quem não tem quase nada.

Sentados agora frente a frente, o mestrando Reinaldo, tomou fôlego e assim começou:

- Veja só o que aconteceu!

Do outro lado o coitado do homem já estremeceu!

E assim ele continuou:

- Era para te pagar hoje, mas não vai dar!

E prosseguindo, afinal só ele é que tinha explicações para dar:

- Mas fique tranquilo! Você vai receber. O que acontece é que a faculdade atrasou meu pagamento. Você pode, se quiser, ligar para lá, e você vai saber! A questão é que estou sem dinheiro aqui. Porém o tenho com meu irmão em João Pessoa. Tivesse eu dinheiro para ir até lá buscar, na volta lhe pagaria. Talvez fosse um bom negócio para você, me emprestar aí esse dinheiro, pois teria a garantia de eu lhe pagar de volta quando retornar, e assim liquidar de vez essa prestação.

                                       No mesmo dia, já em João Pessoa, o seu irmão Agnaldo emprestava ao aliviado Reinaldo, a quantia que ele precisava. Certamente não só o necessário para atender aquele compromisso, pois outros também tinha.

Certas saídas, como esta, são do gênero “dar nó em pingo d'água”. Ele atuara no modo emprestar dinheiro a agiota, imitando-lhe os juros. Coisa de quem ensina Pai Nosso a vigário.

Realizara mais uma vez a sábia recomendação de tirar o maior bem do maior mal.

Passados mais de cinquenta anos, os reencontros com Reginaldo sempre trazem de volta lembranças comuns muito divertidas. Afinal, convivemos durante os árduos anos iniciais da vida adulta, desde os tempos de bancos de faculdade.

Ainda na Serra da Borborema, nos reuníamos, nós e outros colegas, para estudar na casa que eu alugara. A casa tinha um subsolo, local de porta e janela, com saída para um vasto quintal. Um espaço isolado e acolhedor, bastante apropriado para as nossas incursões nas matérias do curso.

Ali, um dia, enquanto estudávamos, de um auto-falante distante nos chegou a voz aveludada de Nat King Cole, que cantava em espanhol "Quizás, quizáz, quizás." Nos divertíamos um bocado com a estrofe em que ele (nos) dizia: "Estás perdiendo el Tiempo! Hasta quando? Hasta quando?..."

Divertir-se largamente parecia nos deixar melhor preparados para os momentos de seriedade, que de qualquer forma eram a maioria.

As vezes, a descontração podia surgir de modo inesperado, em meio ao silêncio quebrado pela vizinha mal educada, que no quintal ao lado, berrava a todos pulmões pelo filho:

- E B I N H A !!!!

Reinaldo emendava, completando o chamado exasperado daquela mãe:

- ...seu filho da Puta!!!!

Era com muito pouco que nos divertíamos a valer!

Ali, diante de uma lousa na frente da qual havia um birô e algumas cadeiras, relembro a figura magra de óculos de lentes para muito míopes, do colega Pedro, cearense de Fortaleza.

Seu nome ganhara um adendo para distingui-lo de outros Pedros, e ressaltar algumas das suas características pessoais: Pedro Doido.

Estudávamos a disciplina de "Análise de Sistemas I", e o assunto era "Componentes Simétricas". O conceito básico desse tema é, de fato, muito interessante, e por que não dizer, intrigante. Para quem está sendo apresentado a ele, eu diria que surpreendente, elegante!

Porém, surpreendente mesmo, e inesquecível foi assistir à reação de Pedro, Pedro Doido, quando interrompendo o desenvolvimento que fazia no quadro, teve uma crise nervosa de riso, enquanto esfregava as costas na parede. Entremeava seu descontrole, com uma pergunta-observação dirigida a nós:

- Vocês acreditam nisso? Eu não acredito não!

Dos mais variados fatos, não nos escapava explorar o seu lado pitoresco, talvez o jeito inconsciente de suavizar os momentos de tensão.

Outro dia, ou melhor, em certa noite de estudos, resolvíamos os últimos exercícios de uma série que nos foi dada. Servia como o aprendizado para o exame no dia seguinte.

Restou um único problema que nos faltava resolver, e pairava sobre ele uma dúvida a esclarecer. Que falta ali nos fez a presença do professor da disciplina, Armando Ribeiro, que viera do Rio de Janeiro para ministrar aquele curso. 

Hospedado no Hotel Ouro Branco, no entanto, ele não nos parecia fora do alcance a qualquer hora, para  alunos mais afoitos.

Assim é que sucedeu entre nós a escolha de a quem caberia dirigir-se àquela hora ao hotel onde o professor se hospedava, e tirar com ele  aquela dúvida crucial.

Zenirak! Sobrou para o nosso colega Zenirak. De certa forma ele quem terminou se disponibilizando. Iria mesmo, de volta para casa, passar perto do hotel. Além disso, quem sabe, pode ter pensado que aquilo poderia contribuir para a construção de uma imagem de aluno aplicado.

A nossa curiosidade de saber o resultado duraria até a manhã do dia seguinte, ao reencontrar um Zenirak de cenho franzido, e olhos esbugalhados.

- E então Zenirak, o que foi que ele disse?

- O que ele disse? Ele disse: "Meu filho!!! Você vem me acordar uma hora dessas para me perguntar isso!!!!!!!

Lamentamos por Zenirak, mas ainda bem que ao Mestre pareceu que aquela fora uma iniciativa individual. No geral, e apesar da gafe, para resolver a prova não nos fez falta a persistência daquela dúvida, e nos saímos muito bem.

Esses escritos me ocorreram de registrar, quando hoje, aniversário de um Reinaldo aposentado mas sempre com a mesma verve, ele me relembrou um episódio simples, fruto de um momento de espontaneidade, no qual fomos protagonistas. Com isso, eu encerro esse relato que, do contrário, poderia prosseguir, tendo eu certa dificuldade de concluir.

Reinaldo comprara o seu primeiro carro. Um fusca cor telha, e não imagino como conseguiu levá-lo da Agência para casa, pois não sabia dirigir.

Os dias iniciais com o carro, não lhe alteraram a rotina de continuar a ir todos os dias para a faculdade de ônibus, o que causava interpelações de como isso era possível, tendo um carro novinho na garagem!

Aproveitou, contudo, um primeiro fim de semana para os seus ousados treinos iniciais de direção. Acompanhei-o no banco de passageiros, enquanto ele, à direção, seguia amarradamente, por uma estrada periférica pouco movimentada, quase rural. Ele seguia brigando com o carro, perdendo aqui e ali para ele, com imensa dificuldade de controlá-lo.  

O que a gente não faz pelos amigos!

Acho que eu já suava um pouco, quando, à nossa frente, um homem puxando um burro por uma corda atravessou a estrada. O atrapalho foi enorme! O homem com o burro teria admitido que qualquer condutor seria capaz de lidar com aquela situação: desviar, diminuir a velocidade e até mesmo parar, já que vinha devagar.

Mas é claro o homem não sabia quem estava na direção daquele carro.

Foram momentos de aflição, exceto para o burro, que acredito nada compreendia.

Foram segundos horripilantes com o carro aproximando-se cada vez mais do burro e do homem, prenúncio de um lento e malvado atropelamento. Em um último instante, Reginaldo acertou pisar no freio e o carro estancou quando todos já estavam pálidos, e dados por vencidos.

Reinaldo não se conteve em culpar o homem que confiantemente conduzia o burro para o quase atropelamento. Virou-se para mim, e perguntou:

- Se você fosse um policial rodoviário o que você faria?

Até hoje ele não se contém de dar boas risadas, pela resposta que eu lhe dei:

- Eu prendia você e o burro!

 

"Onde não há prazer não há proveito."

"...e onde o humor entra, o prazer faz eco."