Entre a Política e o Futebol.
Entre a Política e o Futebol.
Adequamo-nos aos ambientes das celebrações de casamentos, ou das cerimônias das colações de grau, ritualisticas cada uma ao seu modo.
Nelas é esperado que nada fuja de uma meticulosa programação, ainda que haja riscos disso não acontecer.
Apesar de toda pompa e seriedade desses momentos, não raro a falibilidade humana se insinua, e a nossa real natureza se sobressai.
Certo dia, o casamento, além de solene, era refinado, e o celebrante, um padre jovem e piedoso, ocupava o seu lugar no púlpito.
Pretendia exaltar o Sacramento do Casamento, quando resolveu interagir com os convidados, perguntando:
- Quem aqui é casado, por favor levante a mão.
Prosseguiu o pregador:
- Vejo que aqui quase todos são casados!
E acrescentou:
- Só quem é solteiro sou eu, graças a Deus!
Lapsos há que nos fazem rir, e não importando as circunstâncias, diz-se que quando rimos estamos na presença dos deuses! Porém há lapsos que nos fazem corar!
Ainda tendo como palco o interior de uma igreja, coraram muitos convidados de um casamento, quando o velho padre curvado ao peso de muitos anos, dirigiu-se aos ali presentes ao iniciar a sua prédica.
O templo lotado, era constituído em grande parte por membros da colônia japonesa local, a maioria deles parentes do noivo.
Dirigindo-se a todos, disse o antigo celebrante:
- Prezados irmãos, prezadas irmãs... e japoneses aqui presentes.
Todo esse preâmbulo foi feito para finalmente contar algo que veio a tornar memorável um evento não ritualístico, nem tão formal como esses antes mencionados.
Aconteceu em uma das cíclicas reuniões de familiares e amigos, para festejo de um aniversário. O inusitado fez rir e corar, mas não nessa ordem. Primeiro coraram todos, para rir somente muito depois.
O restaurante já fervilhava e aquele não seria o único aniversário que ali era comemorado.
Em mesas contíguas, familiares e amigos de famílias diversas já tomavam assento, animados convivas preparados para a animação dos seus almoços.
E tudo ocorreu em meio a muita efusividade, muita alegria, características de uma autêntica festa de família.
O tio Toim, do aniversariante Antonius, para dar maior significado ao momento, sugeriu que juntos cantassem o tradicional "Parabéns pra Você".
Chamou ele o garçon, que se não era estagiário, parecia estar estreando na profissão.
- Você tem aí um bolinho para a gente cantar aqui os parabéns?
Ato contínuo, trouxe o garçon um belo bolo confeitado com velinha ao centro.
Exultaram todos e ecoaram os cânticos entusiasmados e palmas que até contagiaram o meio, pois houve quem da mesa vizinha se juntasse a acompanhar o coro, e aplaudir o aniversariante.
Fim de festa. O garçon atendeu prontamente ao pedido da conta. Antes porém perguntou:
- O senhor já pagou o bolo?
O tio Toim surpreso, respondeu:
- Não! O bolo, alguém daqui da mesa foi quem trouxe!
Na sequência, e para identificar quem o teria trazido, fez a inevitável pergunta:
_ Quem daqui trouxe o bolo?
Ninguém havia trazido!
A movimentação estranha a um final de festa, despertou a atenção e curiosidade, e consequente desconfiança dos ocupantes da mesa do aniversariante ao lado. Eles ainda não haviam cantado os parabéns. Porém tinham trazido um belo bolo e entregue aos cuidados do restaurante.
Tudo logo ficou muito claro. O bolo errara de mesa. Velinha já apagada, bolo já fatiado, seus pedaços já divididos, a distribuição até já terminara. Dele quase nada restava. Poucos eram os vestígios do erro.
Formou-se então em "petit comité", um ensaio de troca de satisfações e esclarecimentos, entre os ocupantes das duas mesas. Vieram de lá o filho e a esposa do aniversariante do qual fora subtraído o bolo.
O filho, talvez pela impetuosidade da juventude, foi irredutível:
- Como pode você comer o bolo que não comprou?
A mãe foi compreensiva e atenuou:
- Entendo que não houve má intenção.
E quanto à reação do aniversariante, que literalmente "levou o bolo"? Ele agora sorria largamente, depois de muito ter gargalhado. Talvez comemorasse também o fim do seu inferno zodiacal.
Para que essa história entrasse por uma perna de pato e saísse por uma de pinto, assumiram todos a fatalidade. Alguns mais conformados do que outros!
O tio do aniversariante, em um gesto de reparação, autorizou ao garçon trapalhão servir sobremesas aos prejudicados, e tratou de pagar o bolo.
Mesmo no mais comum dos eventos, há quebras de roteiro tão marcantes, que terminam por magnificá-lo tornando-o inesquecível.
Ao que me consta, o bolo estava delicioso, mas apesar da amistosidade final entre as partes, ninguém ousou sobre isso comentar. Nem sequer perguntar onde o tinham comprado!
"Divirta-se porque você não pode mudar nada mesmo"
Holtzer.
Comprar uma rede para o filho e pagar em
várias prestações, já denotava a precária condição financeira daquele
mestrando do curso de engenharia elétrica da Universidade Federal de Campina Grande.
Era início da década de setenta,
época em que vivíamos muitas restrições pessoais, compromissos familiares,
responsabilidades, dificuldades de pagamentos, problemas para
lidar, incertezas...
Havia contudo, e de sobra, habilidade para
sobreviver. No mesmo grau coexistiam força, determinação, esperança
e confiança no futuro.
Quanto a ele, antes já se safara de dificuldades e
seguira em frente. Era uma prática recorrente à qual eu também já me habituara.
Sua 'expertise' porém, parecia nata.
Foi o que pude constatar ao vê-lo deparar-se com a
chegada daquele cobrador, que veio para receber uma prestação da dita rede.
Se dinheiro ele tivesse para saldar a dívida, não
precisaria ter recebido o cobrador tão solicitamente: a forma como lhe indicou
o caminho para a porta de entrada, o jeito como lhe apontou o assento, o oferecimento
de um copo água...
Tudo isso deve ter deixado aquele pobre homem muito
apreensivo, desconfiado!
Viera receber dinheiro pouco, mas o pouco é muito
para quem não tem quase nada.
Sentados agora frente a frente, o mestrando
Reinaldo, tomou fôlego e assim começou:
- Veja só o que aconteceu!
Do outro lado o coitado do homem já estremeceu!
E assim ele continuou:
- Era para te pagar hoje, mas não vai dar!
E prosseguindo, afinal só ele é que
tinha explicações para dar:
- Mas fique tranquilo! Você vai receber. O que
acontece é que a faculdade atrasou meu pagamento. Você pode, se quiser, ligar
para lá, e você vai saber! A questão é que estou sem dinheiro aqui. Porém o tenho
com meu irmão em João Pessoa. Tivesse eu dinheiro para ir até lá buscar, na
volta lhe pagaria. Talvez fosse um bom negócio para você, me emprestar aí esse
dinheiro, pois teria a garantia de eu lhe pagar de volta quando retornar, e
assim liquidar de vez essa prestação.
No mesmo dia, já em João Pessoa, o seu irmão Agnaldo emprestava ao
aliviado Reinaldo, a quantia que ele precisava. Certamente não só o necessário
para atender aquele compromisso, pois outros também tinha.
Certas saídas, como esta, são do gênero “dar
nó em pingo d'água”. Ele atuara no modo emprestar dinheiro a agiota,
imitando-lhe os juros. Coisa de quem ensina Pai Nosso a vigário.
Realizara mais uma vez a sábia recomendação de
tirar o maior bem do maior mal.
Passados mais de cinquenta anos, os
reencontros com Reginaldo sempre trazem de volta lembranças comuns muito
divertidas. Afinal, convivemos durante os árduos anos iniciais da vida adulta,
desde os tempos de bancos de faculdade.
Ainda na Serra da Borborema, nos reuníamos, nós
e outros colegas, para estudar na casa que eu alugara. A casa tinha um subsolo,
local de porta e janela, com saída para um vasto quintal. Um espaço
isolado e acolhedor, bastante apropriado para as nossas incursões nas matérias
do curso.
Ali, um dia, enquanto estudávamos, de um
auto-falante distante nos chegou a voz aveludada de Nat King Cole, que cantava em
espanhol "Quizás, quizáz, quizás." Nos divertíamos um bocado com
a estrofe em que ele (nos) dizia: "Estás perdiendo el Tiempo! Hasta
quando? Hasta quando?..."
Divertir-se largamente parecia nos deixar melhor
preparados para os momentos de seriedade, que de qualquer forma eram a maioria.
As vezes, a descontração podia surgir de modo
inesperado, em meio ao silêncio quebrado pela vizinha mal educada, que no
quintal ao lado, berrava a todos pulmões pelo filho:
- E B I N H A !!!!
Reinaldo emendava, completando o chamado exasperado daquela mãe:
- ...seu filho da Puta!!!!
Era com muito pouco que nos divertíamos a valer!
Ali, diante de uma lousa na frente da qual havia um
birô e algumas cadeiras, relembro a figura magra de óculos de lentes para muito
míopes, do colega Pedro, cearense de Fortaleza.
Seu nome ganhara um adendo para distingui-lo de
outros Pedros, e ressaltar algumas das suas características
pessoais: Pedro Doido.
Estudávamos a disciplina de "Análise de
Sistemas I", e o assunto era "Componentes Simétricas". O
conceito básico desse tema é, de fato, muito interessante, e por que não dizer,
intrigante. Para quem está sendo apresentado a ele, eu diria que
surpreendente, elegante!
Porém, surpreendente mesmo, e inesquecível foi
assistir à reação de Pedro, Pedro Doido, quando interrompendo o
desenvolvimento que fazia no quadro, teve uma crise nervosa de riso, enquanto
esfregava as costas na parede. Entremeava seu descontrole, com
uma pergunta-observação dirigida a nós:
- Vocês acreditam nisso? Eu não acredito não!
Dos mais variados fatos, não nos
escapava explorar o seu lado pitoresco, talvez o jeito inconsciente de
suavizar os momentos de tensão.
Outro dia, ou melhor, em certa noite de estudos,
resolvíamos os últimos exercícios de uma série que nos foi dada. Servia como o
aprendizado para o exame no dia seguinte.
Restou um único problema que nos faltava resolver,
e pairava sobre ele uma dúvida a esclarecer. Que falta ali nos fez
a presença do professor da disciplina, Armando Ribeiro, que viera do Rio
de Janeiro para ministrar aquele curso.
Hospedado no Hotel Ouro Branco, no entanto, ele não
nos parecia fora do alcance a qualquer hora, para alunos mais afoitos.
Assim é que sucedeu entre nós a escolha de a quem
caberia dirigir-se àquela hora ao hotel onde o professor se hospedava, e
tirar com ele aquela dúvida crucial.
Zenirak! Sobrou para o nosso colega Zenirak. De
certa forma ele quem terminou se disponibilizando. Iria mesmo, de volta
para casa, passar perto do hotel. Além disso, quem sabe, pode ter pensado que
aquilo poderia contribuir para a construção de uma imagem de aluno
aplicado.
A nossa curiosidade de saber o resultado duraria
até a manhã do dia seguinte, ao reencontrar um Zenirak de cenho franzido,
e olhos esbugalhados.
- E então Zenirak, o que foi que ele disse?
- O que ele disse? Ele disse: "Meu filho!!!
Você vem me acordar uma hora dessas para me perguntar isso!!!!!!!
Lamentamos por Zenirak, mas ainda bem que ao Mestre
pareceu que aquela fora uma iniciativa individual. No geral, e apesar da gafe,
para resolver a prova não nos fez falta a persistência daquela dúvida, e
nos saímos muito bem.
Esses escritos me ocorreram de registrar, quando
hoje, aniversário de um Reinaldo aposentado mas sempre com a mesma verve, ele
me relembrou um episódio simples, fruto de um momento de espontaneidade, no
qual fomos protagonistas. Com isso, eu encerro esse relato que, do contrário,
poderia prosseguir, tendo eu certa dificuldade de concluir.
Reinaldo comprara o seu primeiro carro. Um fusca
cor telha, e não imagino como conseguiu levá-lo da Agência para casa, pois
não sabia dirigir.
Os dias iniciais com o carro, não lhe alteraram a
rotina de continuar a ir todos os dias para a faculdade de ônibus, o que
causava interpelações de como isso era possível, tendo um carro novinho na
garagem!
Aproveitou, contudo, um primeiro fim de semana para
os seus ousados treinos iniciais de direção. Acompanhei-o no banco de
passageiros, enquanto ele, à direção, seguia amarradamente, por uma
estrada periférica pouco movimentada, quase rural. Ele seguia
brigando com o carro, perdendo aqui e ali para ele, com imensa
dificuldade de controlá-lo.
O que a gente não faz pelos amigos!
Acho que eu já suava um pouco, quando, à nossa
frente, um homem puxando um burro por uma corda atravessou a estrada. O
atrapalho foi enorme! O homem com o burro teria admitido que qualquer
condutor seria capaz de lidar com aquela situação: desviar, diminuir a
velocidade e até mesmo parar, já que vinha devagar.
Mas é claro o homem não sabia quem estava
na direção daquele carro.
Foram momentos de aflição, exceto para o
burro, que acredito nada compreendia.
Foram segundos horripilantes com o carro
aproximando-se cada vez mais do burro e do homem, prenúncio de um lento e
malvado atropelamento. Em um último instante, Reginaldo acertou pisar no freio
e o carro estancou quando todos já estavam pálidos, e dados por vencidos.
Reinaldo não se conteve em culpar o homem
que confiantemente conduzia o burro para o quase atropelamento. Virou-se
para mim, e perguntou:
- Se você fosse um policial rodoviário o que
você faria?
Até hoje ele não se contém de dar boas risadas,
pela resposta que eu lhe dei:
- Eu prendia você e o burro!
"Onde não há prazer não há proveito."
"...e onde o humor entra, o prazer faz
eco."