sábado, 11 de abril de 2015

Bacurau.

Bacurau.


Houve um tempo em que após o jantar, as cadeiras iam para as calçadas, e as pessoas nelas sentadas, só entravam quando dava sono.

Esse costume parecia mais arraigado nas cidades do interior. Por isso, cresci no Crato habituado a escutar as conversas dos adultos nas calçadas que os meus pais visitavam.

Quase sempre eram as mesmas calçadas, de familiares dele, e a mais frequentada era a da casa de Vivina, prima do meu pai.

Ficava ao lado da igreja matriz, em uma rua mais larga do que o normal, de frente a uma imensa praça (vista com os meus olhos de criança) chamada praça da Sé, e a menos de cinco minutos a pé da nossa casa.

Dava gosto ouvir Vivina contar as suas histórias, seja lá quais fossem. Havia muita vida e graça em tudo o que ela dizia. O mais simples fato do cotidiano, ganhava dramaticidade e humor. Sobretudo fino humor!

Ela tinha olhos grandes, voz grave, falava com todo o corpo, e demonstrava grande inteligência por todas as suas articulações. 

Uma das histórias que relembro, das que eram contadas à calçada, revela um pouco da sua peculiaridade.

Formar os filhos, àquela época, era levá-los à conclusão do então chamado curso científico ou curso clássico. Vivina e seu marido Joaquim (Quinco) Landim, já haviam conseguido isso quase com todos os filhos, pois só faltava o Zé Landim. 

Garoto levado e de enorme disposição para as brincadeiras, ele ia sempre empurrando com a barriga a conclusão do atual ensino médio. Parece que resolvera ser dono das suas prioridades.

No futebol era goleiro, e nos jogos mais importantes, que a rádio local transmitia, jamais Vivina poderia saber que era o seu próprio filho aquele a quem chamavam de "Bacurau", e que a todos entusiasmava por tantas bolas que defendia.

E quanto a terminar o segundo grau, o tempo passava e nada acontecia.

Não lembro que a paciência fosse uma característica predominante da inteligente e bem humorada Vivina. Pareço estar certo, pelo que não demoraria a acontecer.

Um dia, sem que por isso ninguém esperasse, ela segurou pelo braço o Zé Landim, e disse: pois vai ser hoje, seu cabra. Você agora não me escapa.

Quem hoje for ao Crato, ainda encontrará na antiga rua da Vala o tradicional Foto Saraiva, que há mais de 70 anos funciona no mesmo lugar. Para lá seguiu Vivina com o Zé Landim a tiracolo.

Não demoraria para que, feita a foto, a parede da sala da sua casa a recebesse emoldurada. Era a única foto que ali faltava, e agora juntava-se às demais. Com o Zé Landim de beca e capelo, Vivina completava a sua galeria de filhos formados.

Formei tudim!, dizia Vivina orgulhosa e aliviada. E prosseguia: o que faltava, não tive paciência! Mandei tirar o retrato de formatura, e está lá na parede pregado, junto com os outros. Missão cumprida, agora sim estão todos formados!


"A coisa anda como deve andar, e vamos de vento em popa."
Vinicius de Moraes.

4 comentários:

  1. Pois é, a realidade o desejo era dela e nada mais justo do que desistir de cobrar dele e ficar em paz com ele e com ela própria. É um comportamento inteligente e de uma pessoa emocionalmente resolvida. De outra forma, passaria a vida toda insatisfeita, tentando realizar um sonho que era dela, embora fosse um desejo compreensível de toda mãe. Final feliz e com direito a uma moral da história.

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    1. Sim Fátima, certamente! Essa a moral da história! Ótimo comentário.

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  2. Essas cadeirinhas na calçada dá uma saudade....
    Adorei a forma como foi resolvida a questão da foto, que também era seu sonho.
    Muito bem escrito...viajei no texto.

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