Era a abertura de um novo semestre no Centro de Estudos Freudianos em Recife. Início de noite fresca, francamente favorável a que as cadeiras estivessem ali dispostas, sob aquele céu aberto onde a lua se insinuava.
Havia expectativa dos não poucos que esperavam a abertura inaugural de mais um ciclo de atividades sobre o tema da psicanálise.
Um homem de fisionomia que me era familiar, dirigente fazia anos daquele centro de aprendizado, brilhante pela sua inteligência, saber e simplicidade, tomou do microfone e cumprimentou a todos .
Durante a mensagem que direcionou aos atentos ouvintes, relembrei tratar-se, nos meus tempos de menino, do vigilante inspetor de disciplina do meu colégio, a quem nada parecia escapar. Suas ações entretanto fugiam do padrão enérgico, atemorizador, para um modo sempre ameno, contemporizador e até mesmo fraternal.
Talvez por isso, foi com simpatia que acolhi aquele lugar, ao qual voltaria muitas vezes.
Sua fala começou, e embora isso tenha sido há mais de duas décadas, guardei-a na memória por sua pertinência àquele momento.
Ele nos contou:
Certa vez, um jovem alemão, andarilho, distraído pela beleza de um dia de primavera, se permitiu andar a esmo pelos campos do seu país. Encantado pela beleza de tudo que via, não se deu conta do quanto já andara, até que se deparou com uma majestosa e bela casa de campo, que lhe provocou grande admiração.
Curioso de saber a quem ela pertencia, aproveitou a aproximação de um camponês, e a ele perguntou:
- Bom dia, poderia me dizer quem é o dono dessa belíssima mansão?
Ao que o homem lhe respondeu:
- Kanitsféristat.
O andarilho prosseguiu no seu caminho, estupefato. Como poderia alguém ser tão rico ao ponto de possuir uma casa tão esplendorosa! Pensou ele.
No seu deslumbramento ele não percebera que, tendo cruzado a fronteira do seu país, já caminhava por terras de nação vizinha em cujo dialeto local, 'Kantitsféristat' significava "não consigo te entender".
Prosseguindo, o andarilho veio a se deparar com uma feérica movimentação em um porto, onde estavam atracados vários navios. Mercadorias eram deles desembarcadas, e o seu transporte para a terra era feito de modo contínuo.
Admirado com tamanha demonstração de riqueza, dirigiu-se a um homem que, assim com ele, de longe tudo observava, e perguntou:
- Boa tarde, a quem pertence tamanha riqueza?
Ao que o homem lhe respondeu:
- Kanitsféristat.
Com admiração redobrada, prosseguiu uma vez mais o seu caminho, e já era final da tarde quando chegou a uma bela cidade de casas e jardins bem dispostos esteticamente, ainda que desertos.
Caminhou por ruas vazias, até que ouviu um burburinho de vozes e passos que pareciam vir de algum lugar onde a cidade se aglomerara. Tratou de dirigir-se até lá.
Desta vez viu um imenso cortejo, e não demorou a distinguir, em meio àquela multidão, um vistoso carro fúnebre que levava o corpo de alguém sem dúvida muito importante.
O andarilho se apressou a perguntar a uma mulher que por ele passava:
- Quem morreu que, de tão importante, está a causar tamanha comoção?
A mulher lhe respondeu:
- Kanitsféristat.
Desolado o andarilho comentou então com os seus botões: não importa o quanto alguém seja rico, poderoso e admirado, o seu fim será sempre igual ao de todos. A morte!
Para concluir essas breves palavras de recepção aos novos membros daquele grupo de estudos, talvez nem fosse preciso o psicanalista e professor Ivan Correia, dizer o que em seguida ele acrescentou:
"Ainda que a compreensão correta de um significado não aconteça, isso pode não ser empecilho a que se venha a chegar à conclusão correta."

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