Era domingo e amanhecera propício para uma longa caminhada. Ameaçava chover! Porém nada que arrefecesse o ânimo daquele pequeno grupo - "Caminhadas quase secretas" - que costuma perambular aos domingos pelas ruas vazias da cidade. Descompromissados e conscientes de que a menor distância entre dois pontos "é uma curva vadia e delirante", como diria um poeta.
A caminhada encaixava-se bem na minha rotina de atividades físicas. Os 18 quilômetros que neste dia andei, o fiz com naturalidade.
Talvez nisso ainda houvesse resquícios de um condicionamento físico adquirido dez anos passados, quando fiz a pé os 775 quilômetros do Caminho de Santiago.
No dia seguinte, uma segunda-feira, eram 11 horas quando ao concluir o treino habitual de musculação na academia do meu prédio, comentei com o meu competente PT (Personal Trainer) o quanto, apesar da intensidade dos exercícios, eu não sentia cansaço cardio-respiratório!
Foi então, com esse perfil de quem sempre cuidou bem da saúde sob todos os aspectos: físico, mental e inclusive alimentar... que no dia seguinte, senti pela primeira vez um leve e passageiro desconforto no peito. Atribuí a um pequeno problema gástrico!
Na noite desta terça para a quarta-feira, dormi muito bem, e não senti nenhum desconforto. No entanto, cedo ao levantar, eram 7 horas, senti novamente a mesma anomalia, que desta vez não seria passageira. Achei que precisava de uma medicação.
Morar nessa etapa da vida próximo de um dos maiores e melhores hospitais da região, não foi intencional ou preditivo. No entanto, a proximidade do Real Hospital Português foi providencial!
Minutos após, eram quase 8 horas, quando depois de um breve deslocamento de carro, entrei andando na emergência daquele hospital. O atendimento foi mais ligeiro do que a rapidez com que se faz um caldo de cana.
O diagnóstico não foi frio, pois veio temperado pela surpresa da médica ao constatar que embora eu não aparentasse, tivera o tipo mais severo de infarto: oclusão total da artéria.
De imediato me puseram em uma maca, e fui levado diretamente para a sala de hemodinâmica, onde médicos e sua equipe pareciam já estar me esperando desde o dia anterior.
Eram 11 h quando após a conclusão de um cateterismo e colocação de um stent, fui internado por três dias, inicialmente em UTI.
Deu certo!
No entanto, a rapidez e o semblante grave dos que me socorreram, em nenhum momento deixaram dúvida de que poderia não ter dado! Afinal sou eu mesmo, em carne e osso, quem está contanto a história. Isso aqui não é nenhuma psicografia.
Durante meu acompanhamento na UTI, respondi negativamente a todas as perguntas que os médicos me fizeram:
- Sente dor?
- Não.
- Sente náusea?
- Não.
- Sente tontura?
- Não.
Sentia apenas vontade de voltar para casa!
Do internamento à alta foram apenas três dias. Dois na UTI e um no quarto.
Que hospital tão bom nós temos! Equipes muito competentes e bem treinadas. Encontramos gente que até calor humano tinha!
Expressamos, é claro, os nossos melhores reconhecimentos e agradecimentos. E não só no final! A nutricionista, por exemplo, me ofereceu tantas opções para cada refeição, que não me contive em dizer: sentirei muitas saudades daqui!
As visitas de familiares e amigos que recebi ainda no hospital, me permitiram iniciar a construção de um ranking dos que mais se importam que eu viva.
Claro que não foram poucos os que também se importando, e muito, pelos mais diversos e justificáveis motivos, me acompanharam e ainda me acompanham em Home Office.
Diz-se muito bem, que partir é morrer um pouco, e morrer é partir demais. Nunca achei que iria partir demais! Em todo caso, também nunca esperei ter nascido. Pequenos intervalos de dúvidas para quem as tenha, transformam-se nesse momentos em grandes espaços de esperança.
Em um sábado ao meio dia, véspera do dia dos pais, aconteceu a volta do internado para casa. Um momento que rivalizou em alegria com aqueles da ida para o aeroporto, para uma viagem dos sonhos.
Em casa iniciei a melhor fase de qualquer doença: a convalescença. Seguiu-se um período inicial de 15 dias sob cuidadosa e implacável vigilância, durante meu alongado caminho de volta à normalidade.
Esta fase há pouco concluí! Duas semanas de confinamento doméstico, à semelhança de uma prisão domiciliar, como se eu fosse um ex-presidente!
Achei tudo isso muito fácil! Não fui proibido de ler nem de escutar boa música, podendo até mesmo de receber visitas, sem precisar da autorização de nenhum juiz.
A casa ainda vive um período festivo, onde sob uma atmosfera de alívio, os visitantes se alegram por me encontrarem bem, e são recebidos à volta de uma mesa, como se fossemos espanhóis.
Há quem, vindo com regular frequência, faz parada em uma deliciosa padaria de Boa Viagem, de onde traz iguarias que fazem valer a pena tudo que aconteceu.
Três dias atrás, concluída a minha reclusão, compareci a uma consulta com o meu cardiologista para iniciar a fase de acompanhamento.
Já sei o que me espera para os próximos 90 dias. Até a próxima consulta, daqui a três meses: exames laboratoriais.
Para o dia a dia, de imediato, devo andar: andar dez minutos por dia durante dez dias, em seguida vinte minutos pelos dez dias seguintes, aumentando dez minutos a cada dez dias subsequentes, até alcançar 60 minutos por dia, no que será a etapa de manutenção.
A liberação para a volta aos exercícios de academia, se dará trinta dias após o "procedimento". Estarei tecnicamente liberado para recomeçar, a partir de seis de setembro - ainda faltam sete dias!
Quanto a permissão para ingerir bebidas alcoólicas? O prazo é maior! Sessenta dias. A partir do dia seis de outubro, ganharei o seguinte direito: por semana, três latinhas de cerveja ou meia garrafa de vinho. o que achar mais vantagem!
Esqueci de perguntar se mesmo que eu não tenha vontade, terei que fazer isso que ele passou.
Acreditem, esse limite fica dentro da cota a que me permito, e as vezes, em média, nem chega a tanto!
Quanto às bebidas destiladas, nem quis saber, pois não estão nos meus planos. Assim como não está nos meus planos visitar a China na próxima semana.
Em todo caso sempre fica algo que a gente deveria ter perguntado durante a consulta, e não o fez. Esqueci de perguntar se passando três semanas sem beber, eu poderia tomar tudo de uma vez no final do mês: doze latinhas de cerveja ou duas garrafas de vinho.
Ainda sobre a consulta, foi um momento leve, descontraído, e para isso contribuiu a presença amiga do Dr Emmanuel Abreu, que adotei como meu médico particular, desde que lhe entregaram o Diploma.
Quase esqueci de dizer para que o relato ficasse completo, que tenho remédios para tomar! Durante o dia toca regularmente o alarme do meu celular, para me lembrar. Geralmente toca em momentos em que não estou fazendo nada. Ainda assim, não gosto muito de ser interrompido! Até aqui não deixei de tomar nenhum dos comprimidos.
O importante de tudo foi ter sido possível que a vida prosseguisse e é inevitável dar a devida valorização a isso! Às metas que eu já tinha, outras vieram a se acrescentar, reclamando suas devidas prioridades que estavam adiadas.
Concluindo, eu diria que em momentos como esse ressurgem da memória algumas citações, desta vez em letras maiores e em cores vívidas, porque internalizadas:
"Às vezes não há nenhum aviso. As coisas acontecem em segundos. Tudo muda. Você está vivo. Você está morto. E as coisas continuam. Somos finos como papel."
Charles Bukovsky.
"Você não morre porque está doente. Você morre porque está vivo."
Montaigne.
"Quem nos desviou assim para que tivéssemos um ar de despedida em tudo o que fazemos?
Rilke.
Viva o recomeço!
"Aprender com o que passou!"
Voodrag Rabinore.