Especializou-se em se superficializar. E foi assim que talvez tenha alcançado uma maior profundidade existencial.
Entendera que havia certo tipo de ignorância que dava certo.
Embora soubesse que a felicidade era desnecessária para viver bem, admitia que de fato, "não existe felicidade fora da ignorância".
Dedicara muito do seu tempo a praticar as boas intenções.
Andaram juntas por todas as etapas da sua vida, a curiosidade e a estupefação. Resistira a tudo, e levara uma vida inofensiva.
Cedo descobriu que não eram seu nariz, joelhos ou o dedão do pé, suas partes mais sensíveis às desilusões, tristezas e decepções. Era mesmo o coração.
Precisava torná-lo menos fácil de esmagar.
O desafio era fazê-lo e ao mesmo tempo não esmagar o coração dos outros.
A vida esgotara toda a sua ingenuidade, e ele continuava vivendo.
Paradoxalmente, agora sem mais ilusões, sentia a novidade de um grande alívio. Já era tempo!
Um pouco mais e a vida acabaria pegando-o de calças curtas: sem ter alcançado compreensões que há muito buscava.
A vida porém, ao modo de que ela é capaz, o compensara.
Ele dando-se por satisfeito, até já pensara de quantos modos é possível morrer, e escolhera o seu! Sentia-se preparado para cruzar a "porta de saída", embora ainda não estivesse pronto.
Foi quando atravessando uma rua movimentada, deu-se conta de estar deitado de costas no asfalto. Enxergava nuvens distantes que se movimentavam contra um céu azul, e até os sons haviam dele se afastado.
Restava-lhe porém uma pálida percepção, quase extra corpórea, de um burburinho ao seu redor: pessoas o rodeavam.
Não fora essa a forma que escolhera para deixar a terra, fosse ela plana ou mesmo esférica. Contudo, até com isso já se conformara. Afinal esses instantes finais não estavam tão ruins: já não sentia tristeza, embora o coração ainda batesse!
Decepções? Nem pensar! Agora achava ridículo ter demorado tanto para adivinhar a realidade. Porém leva-se de fato muito tempo para não entender quase nada!
Finalmente sentia-se perto de conhecer o grande mistério da vida. Ainda assim não evitou que lhe ocorresse pensar: ou não!
Até em um momentos desses há incerteza? Há dúvida? Que inferno! Cala-te boca!
Já haviam lhe providenciado uma vela que nele já ardia, e talvez fossem os seus últimos sofrimentos, a dor dos pingos quentes que aqui e ali escorriam queimando a sua mão.
Os adeptos da tragédia continuavam a cerca-lo, vivendo seu momento de pequena transcendência. Momentos assim para muitos é seu aperitivo.
Destacou-se então entre os mais e os menos frios e impassíveis, naquela que seria a sua última visão dos seres com os quais compartilhara a vida, alguém que deixara-se influenciar pelo ditado popular: "gentileza gera gentileza".
Disse ele, destacando-se da multidão: espere um pouco!
Que ironia!
E aproximando-se retirou a vela daquele que quase já expirava. Depositou em seu lugar um montinho de areia, e sobre ele repôs a vela. Agora sim, disse aquela alma capaz de boas ações, os pingos não mais te queimarão.
Reunindo suas últimas parcas energias, o moribundo que ali se exauria, conseguiu com extremo esforço abrir um olho e pronunciar suas últimas palavras:
- É morrendo e aprendendo!

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