sábado, 17 de maio de 2025

Vantagens da Ignorância.

Especializou-se em se superficializar. E foi assim que talvez tenha alcançado uma maior profundidade existencial.

Entendera que havia certo tipo de ignorância que dava certo.

Embora soubesse que a felicidade era desnecessária para viver bem, admitia que de fato, "não existe felicidade fora da ignorância".

Dedicara muito do seu tempo a praticar as boas intenções. 

Andaram juntas por todas as etapas da sua vida, a curiosidade e a estupefação. Resistira a tudo, e levara uma vida inofensiva.

Cedo descobriu que não eram seu nariz, joelhos ou o dedão do pé, suas partes mais sensíveis às desilusões, tristezas e decepções. Era mesmo o coração.

Precisava torná-lo menos fácil de esmagar. 

O desafio era fazê-lo e ao mesmo tempo não esmagar o coração dos outros.

A vida esgotara toda a sua ingenuidade, e ele continuava vivendo.

Paradoxalmente, agora sem mais ilusões, sentia a novidade de um grande alívio. Já era tempo!

Um pouco mais e a vida acabaria pegando-o de calças curtas: sem ter alcançado compreensões que há muito buscava.

A vida porém, ao modo de que ela é capaz, o compensara. 

Ele dando-se por satisfeito, até já pensara de quantos modos é possível morrer, e escolhera o seu! Sentia-se preparado para cruzar a "porta de saída", embora ainda não estivesse pronto.

Foi quando atravessando uma rua movimentada, deu-se conta de estar deitado de costas no asfalto. Enxergava nuvens distantes que se movimentavam contra um céu azul, e até os sons haviam dele se afastado.

Restava-lhe porém uma pálida percepção, quase extra corpórea,  de um burburinho ao seu redor: pessoas o rodeavam. 

Não fora essa a forma que escolhera para deixar a terra, fosse ela plana ou mesmo esférica. Contudo, até com isso já se conformara. Afinal esses instantes finais não estavam tão ruins: já não sentia tristeza, embora o coração ainda batesse! 

Decepções? Nem pensar! Agora achava ridículo ter demorado tanto para adivinhar a realidade. Porém leva-se de fato muito tempo para não entender quase nada!

Finalmente sentia-se perto de conhecer o grande mistério da vida. Ainda assim não evitou que lhe ocorresse pensar: ou não! 

Até em um momentos desses há incerteza? Há dúvida? Que inferno!  Cala-te boca!

Já haviam lhe providenciado uma vela que nele já ardia, e talvez fossem os seus últimos sofrimentos, a dor dos pingos quentes que aqui e ali escorriam queimando a sua mão.

Os adeptos da tragédia continuavam a cerca-lo, vivendo  seu momento de pequena transcendência. Momentos assim para muitos é seu aperitivo.

Destacou-se então entre os mais e os menos frios e impassíveis, naquela que seria a sua última visão dos seres com os quais compartilhara a vida, alguém que deixara-se influenciar pelo ditado popular: "gentileza gera gentileza".

Disse ele, destacando-se da multidão: espere um pouco! 

Que ironia!

E aproximando-se retirou a vela daquele que quase já expirava. Depositou em seu lugar um montinho de areia, e sobre ele repôs a vela. Agora sim, disse aquela alma capaz de boas ações, os pingos não mais te queimarão.

Reunindo suas últimas parcas energias, o moribundo que ali se exauria, conseguiu com extremo esforço abrir um olho e pronunciar suas últimas palavras:

- É morrendo e aprendendo!


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