Entre a Política e o Futebol.
Fiel ao princípio de que “Todo prazer me diverte”, eu aprenderia as regras da sinuca, e até de jogos estranhos e aparentemente sem graça, em troca de bons momentos de distração.
Não sou grande aficionado do futebol, mas gosto de assistir a jogos de alto nível, que hoje concentram-se principalmente na Europa: Champions, Premier League, La Liga, Bundesliga…
As plataformas de stream trazem esses grandes jogos para nossas salas, e sem levantar da poltrona podemos confortavelmente assisti-los, comendo pipoca.
A propósito, na Inglaterra, até campeonatos de sinuca são transmitidos pela televisão.
Hoje porém há um tema nacional em pé de igualdade com o genocídio na Palestina, a guerra na Ucrânia ou a prevalência de lideranças políticas arrogantes e corruptas.
Esse tema é a convocação do jogador de futebol Neymar para a Copa.
O embróglio termina chamando a atenção até de quem odeia os esportes.
Na minha visão, que por ser pouco privilegiada deve ser considerada menos opinião e mais palpite, Neymar na Copa, claro que o motivo não é atlético, é financeiro!
Basta lembrarmos da afirmação contemporânea do filósofo italiano Giorgio Agamben, quando declarou:
“Nietzsche não tinha razão. Deus não morreu. Ele transformou-se em dinheiro."
Já houve Copa, a da França em 1998, em que por desconfiança das altas cúpulas, cogitou-se até de negociatas envolvendo a venda do título.
Por suposição, consideremos:
Alguém vai se submeter a uma delicada intervenção cirúrgica no coração, e cateteres passearão por suas delicadas artérias.
Há um cirurgião consagrado com a experiência de milhares de cirurgias, e outro mais jovem que em início de carreira desponta pela sua performance de reconhecida capacidade e competência.
Quem ele escolheria para o operar?
O velho experiente e consagrado cirurgião, ou aquele capacitado, competente, mas até então ainda construindo um brilhante futuro?
Peço que ele considere na sua escolha, que o cirurgião mais experiente sofre de tremores nas mãos!
Certamente que seu amor próprio ditaria a escolha racional, que seria a melhor para sua segurança.
Acontece que o interesse de um hipotético paciente pela própria vida, tem semelhança com o de muitos dirigentes, pelo dinheiro.
Sendo assim, deixam de lado as decisões racionais menos lucrativas e abraçam as aparentemente ilógicas.
As metáforas nunca guardam relação fiel com o objeto de retratação.
Mas servem neste caso para indicar que a irracionalidade de uma escolha termina por preterir alguém que no momento seria o mais indicado.
E o que pensa a sociedade?
Um complexo de entendidos e desentendidos desse metier, que vão do ex-jogador de futebol de alto nível, passam pelos comentaristas esportivos, e chegam até aqueles analfabetos em futebol.
O que observamos é uma divisão que vai do desinteresse total pela questão, passando pelo acompanhamento distante, até os posicionamentos viscerais.
Há mesmo um quase disfarçável ingrediente político, se considerarmos que o pivô dessa querela nacional é um contraponto a alguns dos seus companheiros de profissão do passado.
Aqueles companheiros de posicionamento político bem fundamentado, como eram Sócrates, Casa Grande, Raí, Tostão, Juninho Pernambucano, Reinaldo…
Há contudo algo que admito que possa acontecer, de modo subjacente, na mente dos que querem vê-lo convocado.
Mesmo naqueles que, com com um olho no padre e outro na missa, são responsáveis diretos pelo sucesso na Copa e aumento do caixa.
É que a construção de mitos parece estar na cesta básica dos brasileiros.
Essa carência de origem psíquica a ser explicada por conhecedores do comportamento humano, alimenta muitas atitudes bizarras tomadas nos últimos tempos em nosso país.
Talvez na base da construção de certas falácias, esteja a propensão do homem ao auto-engano.
Diz-se que “A ilusão é uma importante ferramenta de sobrevivência.”
Creio que o imaginário popular projeta a própria realização naqueles que a alcançam.
Acho indiscutível o talento de certos jogadores!
Para mim, a qualidade de um jogador está associada ao quanto o Deus-dinheiro está com ele.
Só pode ser muito bom aquele por quem grandes clubes europeus pagaram milhões de euro.
Baseio meu pensamento em acreditar que ao contratá-los, empresários foram inspirados pelo Deus-dinheiro que a eles só fala depois de ter absoluta certeza.
A identificação de um possível mito a quem glorificar, me parece um processo tão míope, quanto a própria necessidade de tê-lo.
Esse processo cega para a maldade que faz o tempo, de desgastar as habilidades, depalperar o corpo, e prejudicar o desempenho de atletas, até mesmo os que foram mais cuidadosos consigo mesmos.
No entanto, o sonho uma vez iniciado prossegue, enquanto no mundo real se desfaz a possibilidade de concretizá-lo.
Que decepção seria para uma criança, quando assistindo a um filme de bang-bang, o mocinho morresse no final!
O que é pretendido como sonho dos trópicos é a concretização de um mito.
Adivinhar o resultado de certas decisões, torna-se um desafio para os oráculos!
O improvável não é impossível, e logo mais a resposta sobre a correção ou erro crasso dessa decisão será conhecida, no tocante ao resultado prático pretendido.
No final haverá exaltados e crucificados.
A enxurrada de jogos se encerrará faltando menos de três meses para as eleições.
Haverá resquícios de discussões sobre futebol, misturados com o de política eleitoral.
Mas a discussão política será imperativa.
A escolha do melhor para um time de futebol, será substituída pela escolha do melhor para todo um país.
Outra vez as opiniões continuarão divergentes, pelas preferências divididas entre as poucas opções existentes.
Para mim a escolha será entre um velho cirurgião saudável e consagrado na profissão, e o jovem charlatão claudicante, a quem nem sequer podemos chamar de médico.
Neste momento, com hexa ou sem hexa, o que para mim mais importa é que sejamos tetra.

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