domingo, 30 de junho de 2019

Les Deux Garçons - Parte 1.


                

  "Les Deux Garçons"


Nossos pensamentos não raro são como macacos que pulam de galho em galho, sem que saibamos qual será o próximo galho a ser escolhido!

Foi após rever a foto acima que eu mesmo fiz, de um restaurante chamado "Les Deux Garçons", que em mim se  desencadearam esses pensamentos.  

Qual teria sido a origem deste nome?  

Dois Garçons?

Diria que sim ou não!

Garçom no português brasileiro, é aquele que nos serve no café, bar ou restaurante.  Em francês porém, a ele se diz "le serveur".

A palavra Garçon em francês tem o significado de garoto ou de menino.

Sendo assim o sentido original daquele nome poderá ter sido  "Os Dois Garotos" ou quem sabe mesmo "Os Dois Garçons", em uma simpática referência a dois jovens que um dia ali serviram os seus clientes. 

A história deste lugar teve inicio faz mais de três séculos e meio, quando ali funcionou um albergue chamado "Les Cheval Blanc". 
Nome do proprietário: Monsieur Gros.

Em 1650, quando a estrada carrossal à frente do albergue iria tornar-se a atual Cours Mirabeau, Monsieur Gros, vendeu o "Cheval Blanc" a um homem muito rico, que ali construiu o prédio ao qual emprestou como seria de se esperar, o seu próprio nome.
Nome do novo proprietário: Monsieur Gantés.
Nome do prédio por ele construído: Hôtel Particulier Gantés. No seu térreo, viria a se instalar quase dois séculos depois, o Café e Brasserie "Les Deux Garçons".

O Hôtel Particulieur Gantés, deve ter servido de moradia à  família Gantés por muitos anos. Para isso, os hotéis particulares eram  construídos pelas famílias abastadas de Aix-En-Provence. 

Hoje eles lá permanecem como uma das belas características da cidade, e em sua maioria agora funcionam  nessas belas mansões, bancos, escritórios, repartições públicas e privadas, estabelecimentos comerciais e até hotéis, e eventualmente ocupando parte da construção, restaurantes.

Seguindo porém a ordem cronológica, é de se ressaltar que durante o século  XVIII, da revolução francesa, a família Gantés já não morava mais lá. 

Funcionou então ali um clube de xadrez, denominado "Grand Cercle", destinado à nobreza e a alta burguesia de Aix. 

Em 1790, portanto um ano após a revolução francesa, o lugar foi palco de escaramuças, o que nos é compreensível! 
Nome do dono do "Grand Cercle": Monsieur Guion. 

No mesmo lugar e ao mesmo tempo do clube de xadrez, funcionava também, desde 1789, um café chamado "Café Julien".
Nome do proprietário do café: Monsieur Guérini.

Foi no clima dos novos tempos pós revolução francesa, que pouco depois do "Grand Cercle", em 1792, surgiria ali finalmente, o que viria a ser o atual "Les Deux Garçons". Entretanto, somente  a partir de 1840 ganharia esse nome. 

Em 1972, o Monsieur Guérini, dono do "Café Julien", associou-se a mais alguém, e  os dois sócios  administraram o que passou a chamar-se "Café Guérin".
Nome do sócio do Monsieur Guérin: Monsieur Guidoni. 

A coincidência de nomes de proprietários cuja primeira letra do nome era G, terminou ressaltada pela dobradinha resultante da associação dos monsieurs Guérin e Guidoni.

Como seria natural, o restaurante passou a ser chamado "Les 2 G". G das letras iniciais dos seus donos, mas também a letra inicial de Garçons.

A história que aí começa do "Les Deux Garçons", tem desdobramentos reforçados por fatos acontecidos a partir da primeira metade do século XX, os quais vieram a torna-lo no lugar até hoje tão atrativo.

Antes de que na sequência, eu venha a pular para um galho verdadeiramente inesperado, continuarei a contar sobre isso, por outros ramos desse mesmo galho, no "Les Deux Garçons" - Parte 2. 

Les Deux Garçons - Parte 2.



Léon Arvaux

Foi em um momento de abstração do que seria mais importante fazer, que tentei descobrir um pouco mais da história do "Les Deux Garçons", cuja narrativa prossigo.

Antes da consulta ao Google, e atento as eventuais "fake news", me perguntei assim como fazem os psicólogos: "E você? O que pensa que esteja na origem da escolha desse nome?


O "Les Deux Garçons", endereço privilegiado no Cours Mirabeau em Aix-En-Provence, sul da França, sente-se ainda mais privilegiado, por preservar o local  tal qual ele era desde a data da sua fundação, em 1792.

Embora pretenda justificar o seu atual prestígio falando sobre fatos ocorridos a partir da primeira metade do século XX, não é possível deixar de antes comentar sobre o seu final de século XIX.

Assim, na década de 1860, o restaurante foi frequentado todas as tardes, por dois garotos que viriam a tornarem-se famosos.

Dois "garçons" franceses!

Sem muito mais pensar, não poderia o nome atual do restaurante ter ligação com a presença assídua de Paul Cézanne e seu amigo Émile Zola, quando ainda jovens? 


Cézanne era natural de Aix e Zola embora parisiense, estudara quando garoto em Aix no mesmo colégio que Cézanne, onde eles se conheceram e tornaram-se amigos!

Talvez sim, talvez não! 

Quem sabe, o nome  nada tivesse a ver com isso! As origens de nomes nem sempre são evidentes.


Tomemos por justificativa para assim admitir, o nome de outro restaurante nascido no Brasil, no estado das Alagoas, situado em consonância com o nome, em regiões litorâneas: "Bargaço". Por ter filial em Recife, o conheço bem!


O nome escolhido pelo dono, foi na realidade "Bar do garçom". Véspera da inauguração, tendo ido buscar a placa que mandara fazer, a encontrou pronta: Bargaço. 

Passada a contrariedade, afixou-a conformado à frente do estabelecimento, que recebeu assim um nome não escolhido e inusitado, mas apropriado.

Mas retomemos a história de "Les Deux Garçons", quando em 1947, um jovem chamado Léon Arvaux retornando da guerra procurava emprego em Aix-En-Provence.

Ele foi atraído para uma oportunidade de trabalho, pelo aviso afixado à frente do "Café Royale", que precisava empregar um jovem, um garoto, para servir à sua clientela: "precisa-se de garoto de café". Léon passou a ali trabalhar.

No térreo do Café Royale funcionava o escritório que promovia em Aix-En-Provence, os Festivais de Artes Líricas, os quais congregavam os artistas que dele participavam. O Café Royale passou a ser na cidade, o café associado aos Festivais de Artes Líricas, e local de reunião dos seus artistas.

Léon Arvaux era um "serveur" simpático, atencioso, bem humorado, que servia sem ser servil, e a todos encantava com a sua presença.

Ele permaneceu lá até ser convidado pelo dono de outro café, o "Les Deux Garçons", para trabalhar com ele. O interesse especial por Léon era de que ele trouxesse consigo parte considerável da clientela do "Café Royale", o que terminaria acontecendo.

Léon Arvaux contribuiu então para o prestígio contemporâneo de um lugar frequentado por gente famosa, que a exemplo de Picasso, fazia questão de ser atendida por ele.

Isso porém é apenas um pouco da história recente deste estabelecimento.

Fato é que de tão antigo e requintado ao longo dos séculos, e a partir da década de 1950 enriquecido pelo refinado atendimento do apreciado Monsieur Avraux, o "Les Deux Garçons", foi frequentado em diferentes décadas por figuras importantes desde Napoleão e Winston Churchill, até Alain Delon e Jean Paul Belmondo, passando por Picasso, Edith Piaf... e inúmeras outras celebridades, até as mais recentes, como Hugh Grant e George Cloney. 

Não seria surpreendente que por lá hoje nos deparássemos com algumas das celebridades atuais. A elas eu daria toda razão, se as visse reclamar do atendimento, ou mesmo da falta de requinte dos pratos. O "Les Deux Garçons" tem a seu favor o histórico, pois hoje sobrevive graças ao seu passado.

As suspeitas sobre a qualidade e sua 
administração atual, aumentaram quando muito recentemente, em 07 de junho de 2019, teve as suas portas fechadas pela prefeitura de Aix-En-Provence, ao serem constatadas irregularidades devido a contratação de imigrantes ilegais.

Pulemos porém para outro galho, pois o "les Deux Garçons" foi apenas o gancho para o que me ocorreu ao me deparar com a fotografia que fiz desse restaurante.

A dupla Cézanne e sobretudo Zola, sem querer me orientou o pensamento para outro galho.

Contarei porque na "Les Deux Garçons" - Parte 3.

Les Deux Garçons - Parte 3.


Alfred Dreyfus

Durante a minha recente viagem à França, busquei cumprir o propósito das melhores viagens: uma pausa no cotidiano para descomprimir, e respirando outros ares melhor relaxar. 

Mergulhar na realidade atual de outro país, esquecendo ou tentando momentaneamente esquecer, aquela que no momento vivemos no Brasil. 

Relembrar diferenças culturais que nos consolam do ponto de vista da humanidade, ao constatar que nem tudo está perdido, pois certas mazelas das quais sofremos todos os dias, não acontecem somente no nosso maltratado país.

Por isso, ver o "Le Deux Garçons" e relembrar a presença ali de Cézanne e Zola, jamais iriam inicialmente me desviar da visão poética de dois grandes artistas amigos a conversar. 

Cézanne o grande mestre da pintura,  e Zola o exímio escritor de tantas grandes obras literárias e de sentido libertário.

Com a volta ao Brasil, no entanto, e o reencontro com a nossa malvada realidade, esvaiu-se a visão poética, para dar lugar  outra vez, à visão política.

Acordar de um sonho bom, para respirar outra vez o ar que hoje nos envolve, por demais contaminado. 

Mas quão falso seria pensar que estamos condenados eternamente à má política, aos sentimentos de desconfiança e de revolta, ao ódio direcionado, ás revanches provocadas a essas ações maléficas, as perseguições, as injustiças, as mentiras, os preconceitos...

A europa viveu em tempos modernos duas guerras mundiais, e passou por revoluções e  situações traumáticas outras, como sangrentas guerras civis. 

Imaginei-me então visitando a França na última década do século XIX.

Teria encontrado uma sociedade irremediavelmente dividida. 

O próprio Zola de um lado e seu amigo Cézanne do outro.

Sob o belo céu de Paris, também pairava a atmosfera então irrespirável  da desconfiança, da revolta, do ódio, da perseguição, da injustica, da fraude, e do preconceito.

Os judeus já haviam de longo tempo sido estigmatizados, o que acontecera aos poucos. 

Criara-se em relação a eles, a ojeriza que os tornava como de outras vezes, bodes espiatórios. Estava presente e crescente, em toda a França, a onda do anti-semitismo.

Foi nesse contexto que um capitão judeu do exercito francês, foi acusado injustamente de alta traição. Todo o exército se rebelou indignado. A população, na sua grande maioria permeável aos formadores de opinião através da imprensa, posicionou-se contra ele.

Acontecera que uma contraespiã francesa, trabalhando como faxineira na embaixada alemã, encontrou no cesto de papéis da sala de um adido militar alemão, uma carta apócrifa manuscrita por alguém que se dizia oficial do exercito francês, e que em anexo enviava informações sigilosas de disposições estratégicas da artilharia do exército francês.

As investigações levaram a um capitão que resultou preso, por ser ele judeu, originário da Alsácia, região francesa que na ocasião era parte integrante da alemanha, além de ele ter domínio da lingua e da cultura alemã e familiares com atividades comerciais e propriedades na Alsácia.

O réu contudo declarou-se inocente.

Não houve unanimidade em relação a sua culpabilidade na sociedade em geral. Havia porém dois campos irreconciliáveis. Os que sustentavam a sua inocência, e os que o consideravam culpado.

Julgado por corte militar, foi condenado a prisão perpetua na ilha do Diabo, na costa da Guiana. Antes, de ser para lá levado, em cerimônia humilhante, tiraram-lhe as insígnias militares diante de um público de 4000 pessoas.

A opinião pública contudo começou a perceber que o seu julgamento fora eivado de irregularidades e vícios. A fragilidade jurídica do processo levou a que o julgamento fosse contestado.

Forças ditas de esquerda e anti-militaristas, tentaram através da imprensa fazer com que ele fosse levado a novo julgamento.  A contra-partida porém foi um recrudescimento do anti-semitismo.

Foi quando estando o réu condenado preso, a mesma faxineira encontrou uma segunda carta de mesma caligrafia, que incriminava um comandante de origem Húngara.

Aumentaram os indícios de que o capitão condenado não era autor do crime que lhe atribuíam. 

Apesar disso o Estado Maior das Forças Armadas não estava interessada em rever o processo.

Foi quando um irmão do prisioneiro prestou queixa contra o comandante de origem húngara. 

O exército julgou e inocentou o comandante, mantendo o resultado do julgamento que condenara o capitão, que já cumpria pena incomunicável a 4 anos.

Diante de tamanha intransigência e injustiça, Zola passou a se posicionar de modo incisivo. Buscou a imprensa de posição política à direita, e foi através do jornal conservador Le Figaro, que escreveu pela primeira vez sobre o caso, buscando demonstrar a parcialidade com que fora conduzido o julgamento daquele réu.

A sua segunda investida foi no jornal L'Aurore, através do que passou a ser considerada a mais notável peça da imprensa francesa, tendo isso acontecido em 13 de janeiro de 1898.

Desta vez Zola sob o título "Eu acuso", nominava todas autoridades que segundo ele participavam do conluio para manter o réu inocente na prisão. Denunciava todo o abuso de poder e nomeava os responsáveis. Com isso ganhou o apoio da opinião pública internacional e assim aumentaram as pressões sobre os militares para que libertassem o réu, e o submetessem a novo julgamento.

A fragilidade jurídica do processo no qual fora condenado estava constatada, e também os seus responsáveis, pois nem sequer havia provas contra ele.

Qual terá sido a reação dos que o queriam preso, mesmo com a maioria pressionando para que se fizesse justiça?

Direi ao pular para outros ramos desse galho final.

Continua na "Les Deux Garçons" - Parte 4 (O Epílogo).

Les Deux Garçons - Parte 4.



Émile Zola

Diante dos fatos que viram à tona e contribuíram para o aumento das pressões internacionais, escancarando para o mundo a parcialidade dos juízes que condenaram o capitão Dreyfus, muitos esperavam a reconsideração do seu julgamento. 

Foi quando um militar tenente coronel viria a causar espécie, ao forjar provas que levavam a incriminação do acusado.

O raciocínio foi: Não tem problema! Se não há provas, nós que tudo podemos e nem escrúpulos temos, inventaremos uma. Algo que possa arrefecer o clamor que se levanta.

O "documento" surgiu sob a forma de uma carta enviada por um major italiano a um major alemão, na qual o nome de Alfred Dreyfus era citado de modo incriminatório.

A falsificação era tão grosseira que logo foi desmascarada.  Após confessar a farsa, o tenente coronel por ela responsável foi preso e em seguida suicidou-se.

Encurralados, mandaram buscar Dreyfus para um novo julgamento.  E desta vez fizeram justiça? Não! Apenas o condenaram a uma pena menor. Dez anos de cadeia.

Isso causou imenso escândalo.

Dreyfus que já passara 4 anos preso, desde os 36 anos, embora só tivesse 40 anos já aparentava 60. Sentia-se doente e alquebrado. 

Porém, quando diante do clamor público que se agigantava o presidente da França resolveu conceder-lhe um indulto, Dreyfus recusou  pois seria aceitar a sua culpa. Recusou-se  a abrir mão da sua dignidade, preferindo continuar preso até   ter a sua inocência reconhecida e a sua imagem reabilitada.

Interviram a sua esposa, familiares e amigos, que percebiam o quanto ele estava fragilizado, e não mais suportaria muito tempo na prisão.

Tendo cedido ao apelo dos que queriam cuidar da sua saúde, Dreyfus sob indulto continuou a luta pela sua reabilitação total do crime de que fora acusado injustamente, e sem provas.

Sete anos se passaram com muitos recursos sendo submetidos, até que  finalmente, em 1906, foi concluído o demorado processo que culminaria com a anulação do julgamento que o condenara  doze anos antes, em 1894. A sua inocência foi reconhecida, e Dreyfus foi plenamente reabilitado, recuperando sua patente no exército. 

O papel de Émile Zola na defesa intransigente dos valores constitucionais de direito a defesa, e de um julgamento justo, levou a que as autoridades francesas em reconhecimento prestassem a ele a justa homenagem de tê-lo no Panteão ao lado dos grandes heróis franceses.

Por sua determinação e coragem, ao insurgir-se contra os poderosos que recusavam os caminhos da justiça, sempre houve grande temor por parte dos que o apoiavam, de que pudesse ser vítima de alguma violência.

De fato Zola não viveria para ver a conclusão do processo, pois morreu 4 anos antes, em 1902. As circunstâncias da sua morte deixaram suspeitas de que tenha sido assassinado. Morreu em casa, intoxicado pela fumaça que inalou, decorrente de um entupimento da sua chaminé.

Émile Zola nos deixou a seguinte frase que será sempre atual:


"Á mentira tem contra si a impossibilidade de se manter para sempre, enquanto a verdade tem para si a eternidade."

Em 1998 ao completarem os cem anos da publicacão do artigo "Eu Acuso" o então presidente Jacques Chirac enviou cartas aos familiares de Zola e de Dreyfus, de reconhecimento da França e dos franceses, á sua contribuição aos valores da liberdade, dignidade e justiça.