Durante a minha recente viagem à França, busquei cumprir o propósito das melhores viagens: uma pausa no cotidiano para descomprimir, e respirando outros ares melhor relaxar.
Mergulhar na realidade atual de outro país, esquecendo ou tentando momentaneamente esquecer, aquela que no momento vivemos no Brasil.
Relembrar diferenças culturais que nos consolam do ponto de vista da humanidade, ao constatar que nem tudo está perdido, pois certas mazelas das quais sofremos todos os dias, não acontecem somente no nosso maltratado país.
Por isso, ver o "Le Deux Garçons" e relembrar a presença ali de Cézanne e Zola, jamais iriam inicialmente me desviar da visão poética de dois grandes artistas amigos a conversar.
Cézanne o grande mestre da pintura, e Zola o exímio escritor de tantas grandes obras literárias e de sentido libertário.
Com a volta ao Brasil, no entanto, e o reencontro com a nossa malvada realidade, esvaiu-se a visão poética, para dar lugar outra vez, à visão política.
Acordar de um sonho bom, para respirar outra vez o ar que hoje nos envolve, por demais contaminado.
Mas quão falso seria pensar que estamos condenados eternamente à má política, aos sentimentos de desconfiança e de revolta, ao ódio direcionado, ás revanches provocadas a essas ações maléficas, as perseguições, as injustiças, as mentiras, os preconceitos...
A europa viveu em tempos modernos duas guerras mundiais, e passou por revoluções e situações traumáticas outras, como sangrentas guerras civis.
Imaginei-me então visitando a França na última década do século XIX.
Teria encontrado uma sociedade irremediavelmente dividida.
O próprio Zola de um lado e seu amigo Cézanne do outro.
Sob o belo céu de Paris, também pairava a atmosfera então irrespirável da desconfiança, da revolta, do ódio, da perseguição, da injustica, da fraude, e do preconceito.
Os judeus já haviam de longo tempo sido estigmatizados, o que acontecera aos poucos.
Criara-se em relação a eles, a ojeriza que os tornava como de outras vezes, bodes espiatórios. Estava presente e crescente, em toda a França, a onda do anti-semitismo.
Criara-se em relação a eles, a ojeriza que os tornava como de outras vezes, bodes espiatórios. Estava presente e crescente, em toda a França, a onda do anti-semitismo.
Foi nesse contexto que um capitão judeu do exercito francês, foi acusado injustamente de alta traição. Todo o exército se rebelou indignado. A população, na sua grande maioria permeável aos formadores de opinião através da imprensa, posicionou-se contra ele.
Acontecera que uma contraespiã francesa, trabalhando como faxineira na embaixada alemã, encontrou no cesto de papéis da sala de um adido militar alemão, uma carta apócrifa manuscrita por alguém que se dizia oficial do exercito francês, e que em anexo enviava informações sigilosas de disposições estratégicas da artilharia do exército francês.
As investigações levaram a um capitão que resultou preso, por ser ele judeu, originário da Alsácia, região francesa que na ocasião era parte integrante da alemanha, além de ele ter domínio da lingua e da cultura alemã e familiares com atividades comerciais e propriedades na Alsácia.
O réu contudo declarou-se inocente.
Não houve unanimidade em relação a sua culpabilidade na sociedade em geral. Havia porém dois campos irreconciliáveis. Os que sustentavam a sua inocência, e os que o consideravam culpado.
Julgado por corte militar, foi condenado a prisão perpetua na ilha do Diabo, na costa da Guiana. Antes, de ser para lá levado, em cerimônia humilhante, tiraram-lhe as insígnias militares diante de um público de 4000 pessoas.
A opinião pública contudo começou a perceber que o seu julgamento fora eivado de irregularidades e vícios. A fragilidade jurídica do processo levou a que o julgamento fosse contestado.
Forças ditas de esquerda e anti-militaristas, tentaram através da imprensa fazer com que ele fosse levado a novo julgamento. A contra-partida porém foi um recrudescimento do anti-semitismo.
Foi quando estando o réu condenado preso, a mesma faxineira encontrou uma segunda carta de mesma caligrafia, que incriminava um comandante de origem Húngara.
Aumentaram os indícios de que o capitão condenado não era autor do crime que lhe atribuíam.
Apesar disso o Estado Maior das Forças Armadas não estava interessada em rever o processo.
Foi quando um irmão do prisioneiro prestou queixa contra o comandante de origem húngara.
O exército julgou e inocentou o comandante, mantendo o resultado do julgamento que condenara o capitão, que já cumpria pena incomunicável a 4 anos.
Diante de tamanha intransigência e injustiça, Zola passou a se posicionar de modo incisivo. Buscou a imprensa de posição política à direita, e foi através do jornal conservador Le Figaro, que escreveu pela primeira vez sobre o caso, buscando demonstrar a parcialidade com que fora conduzido o julgamento daquele réu.
A sua segunda investida foi no jornal L'Aurore, através do que passou a ser considerada a mais notável peça da imprensa francesa, tendo isso acontecido em 13 de janeiro de 1898.
Desta vez Zola sob o título "Eu acuso", nominava todas autoridades que segundo ele participavam do conluio para manter o réu inocente na prisão. Denunciava todo o abuso de poder e nomeava os responsáveis. Com isso ganhou o apoio da opinião pública internacional e assim aumentaram as pressões sobre os militares para que libertassem o réu, e o submetessem a novo julgamento.
A fragilidade jurídica do processo no qual fora condenado estava constatada, e também os seus responsáveis, pois nem sequer havia provas contra ele.
Qual terá sido a reação dos que o queriam preso, mesmo com a maioria pressionando para que se fizesse justiça?
Direi ao pular para outros ramos desse galho final.
Continua na "Les Deux Garçons" - Parte 4 (O Epílogo).
Nenhum comentário:
Postar um comentário