Freira da Ordem das Doroteias, entrara muito cedo para aquele Convento no Recife. Tão cedo quanto a idade permitia. Já octogenária havia um bom tempo, consolidara uma ingenuidade rara, que diria não ser deste mundo.
Não era bom que ela soubesse de nenhum trâmite familiar que não fosse reto. Reto pelos seus princípios de uma fé cristã, católica, inarredável. E como reagiria se soubesse de alguém claudicante na crença religiosa, ou não claudicante porque ateu? Esse ser ganharia suas orações mais frequentes, demoradas e fervorosas. Como admitir que um parente perdesse assim a sua alma?
Os escrúpulos da tia avó Dona - sim, chamávamos a tia Idalina de tia Dona, avançavam pelos reparos que fazia aos menores deslizes que à sua presença cometessem os que a visitavam. Estavam todos prevenidos de que era assim, diante da tia Dona até as crianças teriam que perder a naturalidade, essa era a postura mais adequada. Além disso, dela ouvir perguntas e conselhos pueris.
Por tudo isso foi que compreendi, até certo ponto, a tensão presente em um encontro que aconteceu entre a tia Dona e o seu sobrinho Joaquim. Joaquim, filho de um seu irmão, ele que na década de 60 chegara à capital vindo da sua cidade natal no interior. Trazia de lá a mesma ingenuidade que a nossa tia Dona também trouxera, e que foi por ela incrementada com o passar da vida.
Mas Joaquim veio por um objetivo muito distinto: tornar-se marinheiro. Temia não ser admitido por causa da sua baixa estatura. No dia do exame médico admissional saiu de casa depois de encher de palmilhas os seus sapatos. Isso, eu digo, para tipificar o grau de ingenuidade do meu primo, que para seu alívio e alegria, passou no teste.
A vida de Joaquim passou a ser no mundo. Quase sempre embarcado, contrastando com a vida santa e enclausurada da tia Dona. Um se deparando com a crua realidade da vida, a outra se aproximando cada vez mais da excelsa pureza dos anjos.
Passaram-se muitos anos até que aquele marinheiro, agora de tantas viagens, viesse outra vez ao Recife, cidade onde fora recrutado.
Joaquim perdera a ingenuidade, mas mantivera a timidez. Visitar a velha tia em seu convento, lembro do quanto a ele custou. Precisava se assegurar de que não lhe causaria má impressão. Aceitaria recomendações sobre como se vestir, e como se comportar. No entanto, sem que ninguém lhe dissesse, intuía o quanto teria de substituir o seu linguajar de marinheiro que se lhe tornara habitual.
Foram dias de preparação para que as gírias não aflorassem durante aquela visita. Levei-o ao encontro dela. Preferi nem presenciar! Hoje disso me arrependo pois teria muito mais para contar! Mas asseguro que deu tudo muito certo. Joaquim voltou feliz, leve, aliviado. Vencera a prova. A tia nem deve ter sentido que precisasse rezar tanto por ele. Tia Dona foi uma ótima freira e Joaquim um ótimo marinheiro.
Excelente ter conhecimento e tia Dona foi a pedido do meu pai conseguiu com a Madre superiora meu estudos no Sta Dorotéia de graça em Fortaleza
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