sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Hoje Foi Assim! (08/nov/2024)


Com o dia amanhecendo chuvoso a oeste e ensolarado a leste, o piso do Parque estava quase enxuto. Havia contudo vestígios de que ainda mais cedo, uma chuva passara por lá. Já havia muita gente a se movimentar! Um dia descobrirei a que horas chega o primeiro frequentador. Claro que nesse dia o primeiro a chegar terá de ser eu!


Por enquanto o que é cedo para mim é tardio para a maioria da vizinhança. Desde o começo busco estar presente, em contrapartida aos que parecem não observar o dia, mantendo-se alheios ao arredor.


Apesar do tempo nublado com promessa de chuva, de toda essa população móvel do Parque, somente um único caminhante preveniu-se levando um guarda chuva. Não, esse caminhante não fui eu! Por paradoxal que pareça foi um homem com aparência de desprevenido.


Três pessoas pararam para conversar, e conversavam. Achei estranho que fizessem, pois não traziam cachorros! Mesmo assim interagiam! É que os cães, em proporção abundante, parecem levar os seus "tutores" para passear, como donos deles fossem. Cumprem uma função adicional a de simples acompanhantes, desempenhando um relevante papel na sociabilização dos seus amos.


Em geral não há conflitos entre eles. Cheiram-se uns aos outros, no máximo emitem alguns resmungos amistosos, e enquanto isso os humanos entabulam diálogos não tão inusitados, pois comentam sobre os seus pares caninos:

- Meu cachorro é incrível! Vocês não acreditarão se eu contar. E olhem que ele não é treinado! E o seu?

- O meu é um abestalhado!


De passagem pensei: como assim?! No dia seguinte encontrei-o de novo com o seu Gold Retriever, que insistia em andar de lado.


A heterogeneidade das gentes no Parque é notável. Tem semelhança com a variedade dos cães, uns que parecem risonhos, outros de humor duvidoso. Os cumprimentos entre os humanos são menos comuns. Aconteceu de eu assistir o momento em que uma mulher deu "bom dia" a outra. A resposta aconteceu! Soou de lá um "bom dia" musical, de duração maior que o usual, que se por escrito teria umas três exclamações ao final. Ela fora surpreendida por algo não usual. A resposta àquele "bom dia" foi em tom de surpresa e admiração.


Não usual também tornara-se encontrar pessoas vestidas com camisas da seleção brasileira de futebol. Hoje porém, dois dias depois da eleição do Trump, me deparei com três. Em meio a aleatoriedade das camisas com estampas, a próxima que avistei trazia: "O jumento é nosso irmão". Bem lembrado!


A leitura das frases estampadas em camisetas termina sendo quase automática. Principalmente para alguém interessado em sociologia, antropologia, psicologia social... Elas nos levam a pensar em quantos mundos se juntam para formar esse em que vivemos.


Não deixa de ser engraçado ver quem contradiz o propósito expresso em suas camisas, como a estampa "Amo Correr", em quem visivelmente detesta andar. A diversidade de inscrições nas "T-Shirts" só não é maior do que conversam entre si os que andam acompanhados. De Mulheres que portavam: "Viajar & Aprender/Viver & Nunca Esquecer.", escutei comentários sobre um riacho em Surubim.


Já de uma provável aluna de "Coach": " Escolhi ser vencedora."


Ainda no campo das frases motivacionais: "Despite the waves, the diver found peace in the depths." Essa porém não é das frases mais longas que eu vi! Usuários de camisas Ultra Large, se permitem estampar verdadeiros prefácios nas suas costas. Para lê-las eu precisaria dos meus óculos de leitura, e acompanhar de muito perto andando por algum tempo no mesmo passo. Teria o risco da pessoa parar de repente, e eu nela esbarraria.


Alguns escritos podem ser, em uma primeira leitura, aparentemente enigmáticos: "A bike is not life at all." Outros são de natureza imperativa e espiritual: "Na mão do mestre, sê inteiro." A propósito, mensagens de religiosidade explícita às vezes nem precisam ser escritas.  Não raro vê-se passar mulheres a debulharem seus terços. E não sei o que pensar, dos que passam apressadamente a falarem sozinhos coisas ininteligíveis.


Por último tive a registrar as estampas de auto-defesa, tão claras quanto defensivas: "D'ont cut my vibe", "Não aperte minha mente", etc, etc... Não sei o que vem primeiro! Se a transcendência ou a necessidade de se defender.


Há porém os que tendo desenvolvido os músculos em academias,  parecem não mais encontrarem camisas que neles caibam. Nenhuma outra mensagem trazem além da demonstração de narcisismo, pois para fazê-lo teriam de trazê-las tatuadas no peito ou nas costas, o que não deixa de ser possível!


Depois de caminhar meu primeiro quilômetro, passo por três bancos à minha direita, e no banco do meio, sentado sempre no mesmo lugar, um senhor muito idoso, talvez mais de dez anos mais novo que eu. 👶 Como todos os dias a cena se repete, ela me remete à rua da aurora, às margens do rio Capibaribe, onde monumentos - homenagem a grandes escritores e poetas locais, mantém-se tão estáticos quanto aquele idoso do Parque.


Por fim, o relato não estaria completo, se eu não mencionasse que essa minha jornada matinal decorre pontilhada de eventuais encontros com conhecidos em diversos graus: parentes e amigos, passando por ex-colegas de trabalho, alguns vizinhos... A probabilidade até aqui desses encontros fortuitos, no meu caso, calculei que tem sido de 30%.


O que eu ando não me cansa. Me diverte! As vezes penso em dar tantas voltas no Parque, até ficar tonto. Ou cansado. O que acontecer primeiro. Isso porém não seria divertido. Mesmo repetindo esse hábito diariamente, fica claro: para um bom observador, os dias são desiguais por mais parecidos que sejam, e fácil é encontrar as diferenças através dos diferentes.


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