domingo, 26 de agosto de 2018

Na Morte e na Vida.


O Auditório do prédio sede da Chesf estava lotado. Havia até  empregados em pé, que se acotovelavam encostados nas paredes. 

Era o último dia do engº Eunápio na Companhia, pois chegara à aposentadoria.

Fora convidado ao auditório, alheio ao real motivo do convite.

Ali entrou, e começaram os aplausos. Não notou de imediato que aqueles aplausos eram todos para ele.

Já sentado, foi quando então percebeu. Ao se dar conta, de imediato se levantou. Passou a ser aplaudido de pé pelos empregados.

As palmas aumentavam em intensidade, harmonizavam-se em ritmo, cresciam em incontido entusiasmo. Alguns até ensaiaram gritos de aprovação, como ao final de grandes óperas. Ao que se seguiu eu chamo de ovação.

Uma grande ovação pela numerosa e heterogênea platéia, e porque não foi curto e sim demorado o tempo que ela durou.

A lembrança dessa homenagem, da qual participei,  me veio quando recentemente chegou-me a notícia do falecimento do engº Mauro Amorim, ex-diretor de Engenharia da Chesf.

A lembrança decorreu de considerar o engº Mauro Amorim também merecedor de uma homenagem brilhante. 


Também o engº Mauro Amorim, pelo que representou para a Chesf e, em especial, para os que tiveram o privilégio de trabalhar com ele, ficará na história da empresa, lembrado dentre aqueles que encontraram ali o reconhecimento pleno.

Naturalmente que o engº Mauro Amorim também foi homenageado em vida. E, ao lado dele e do Engº Eunápio, o foram tantos outros grandes profissionais da Chesf.

Ao recordar esses fatos, penso em como terá sido bom e bonito para eles, saber o quanto despertaram admiração, reconhecimento e respeito, da parte daqueles que expressaram esses sentimentos em vida, através de significativas homenagens.

Portanto, aproveito para desejar vida longa e de boa qualidade a todos os companheiros dessa rica jornada e, em especial, lembrar que as homenagens àqueles que as merecem têm significado ainda maior quando prestadas em vida.

No contexto que nos remete à memória do engº Mauro Amorim, e quando mais uma vez ele é por nós homenageado, gostaria de concluir relembrando um episódio de trabalho que aconteceu na subestação de Imperatriz.

Afinal, nossa vida na Chesf, embora marcadas muitas vezes pela complexidade dos problemas a resolver, pela responsabilidade envolvida e não raro por momentos de natural ansiedade e tensão, foi também pontuada por fatos amenos, que resultaram em lembranças bem humoradas. 

À época do comissionamento das instalações de 500 kV, algo incomum estava ali para acontecer. Para atender necessidades operacionais do sistema, uma linha de 500 kV da subestação de Presidente Dutra à subestação de Imperatriz, estava prestes a ser energizada em 69 kV.

A subestação fervilhava com a presença do pessoal da área técnica dos mais diversos setores, e até mesmo de empresas de consultoria,  como era o caso da antiga Themag. 

Nos painéis, a densidade demográfica de engenheiros ultrapassara o que o operador chefe daquela subestação era capaz de suportar, um verdadeiro pandemônio.

Foi quando, tendo alcançado o limite da sua paciência, o Sr operador esbravejou alto para que todos ouvissem:

- Chega! Saiam daqui! Todos para fora! Agora aqui só ficamos eu e esse gordinho, que é o único que está entendo das coisas.

O "gordinho" o operador desconhecia tratar-se do então Diretor de Engenharia, Mauro Amorim.


Coisas de Netos - Crianças.



Diego (Di) dos 10 aos 11 anos.

Lorena (Lori) dos 7 aos 11 anos.

Clara (Clarinha) dos 3 para 4 anos.


Leila (Leilinha) aos 7 anos.


Clarinha:

- Salvei a vida de Pingo.

  Obs: Pingo é o priminho dela, e são da mesma idade.

- O que fazia o Pingo?

- Pingo ia por o dedo na tomada!

- Como Você salvou o Pingo?

- Chamei um adulto.




Lori e Diego:

Lori - Diego, quando eu for advogada você me ajuda?

Diego - Advogado não ajuda advogado. Advogado ajuda Juiz.

Obs: Uma Juíza comentou que a primeira parte ele acertou.



Lori e o Garçon, diálogo em um restaurante:

Garçon - O seu caldinho é "compreto"?

Lori - Oh não! O meu é sem "préto". Por favor!




Lori e a médica endocrinologista no consultório:

A médica após examiná-la, diz para a mãe:

 - Realmente ela está bem gordinha!

Minutos após deixarem o consultório, Lori dirige-se à mãe fazendo o seguinte comentário:

- Mamãe, essa médica parece que não tem espelho em casa!

Ainda Lori:

Caminhávamos os três, Lori, Catarine a mãe dela, e eu, em direção à área comum de um condomínio em Aldeia. Catarine comentava que a avó dela, bisavó de Lori, completara 90 anos. Dizia que até recentemente ela apresentava ótima saúde, mas que ao reencontra-la na véspera, ficara surpresa com a sua aparência. Foi como rapidamente tivesse envelhecido alguns anos!

Comentei então:

- Sabe, eu já observei isso em pessoas muito idosas! Costumo chamar de envelhecimento degrau. A pessoa vai dormir e acorda no dia seguinte, 5 ou mais anos, mais velha!

Lori que costuma a tudo prestar muita atenção, fez a seguinte observação:

- Pois é vovô, e ontem ela foi dormir muito cêdo!


Leilinha:

- Vovô, Vovô, Vovô, ajuda!

- O que foi Leila?

- Venha Vovô, venha logo! Venha ver...

- Onde?

- Ali, debaixo da árvore!

A árvore era um cajueiro no fundo do quintal. Já havia por lá uma pequena aglomeração. Mas aflita mesmo era somente Leila quem estava.

- Vamos salvar ele! Vamos salvar ele! Repetia Leilinha ansiosa e insistindo por urgência.

Raquel minha nora já trazia equipamentos de salvamento. O pequenino moribundo jazia inerte, e parecia sem vida. Apanhado do chão, foi por ela colocado no tronco do cajueiro. Para nossa surpresa ganhou ânimo, e subiu lentamente pelo tronco da árvore, antes de alçar voo. Talvez  à procura do ninho de onde provavelmente caíra. Os olhos de Leila brilharam! Ela acabara de salvar um filhotinho de morcego.


 Diego me pergunta:

- Vovô, qual é a sua idade?

- 65 anos.

- E Sylvia?

- 55 anos.

Depois de refletir um pouco sobre as idades minha e de minha mulher, ele comenta:

- Também é muito! Né?


Lori matriculando-se na 4ª série:

Eu - Lori, depois da quarta série será a 5ª, depois a 6ª... Logo Lori será advogada!

Lori (sorridente):

 - Obrigada Vovô!


segunda-feira, 13 de agosto de 2018

BMW F800GS - Introdução (Ou Parte 01/02)



A carreta me surpreendeu! Também chamada de “Cegonha”, ela oferecia um generoso espaço para transportar uns 12 carros. Estacionada em rua secundária da movimentada Av. General Mascarenhas de Moraes, guardava uma boa distância da Concessionária SAEL de veículos. Estava descarregada, completamente vazia, e disponível. Ela parecia descansar enquanto esperava.

Minha surpresa não se deu nem por sua majestade, nem pelo seu potencial de transporte de carga. Apenas eu não esperava que tudo aquilo fosse usado para transportar uma única moto. A moto que eu acabara de comprar.

Enquanto ainda a emplacavam e lhes faziam os mimos finais, terminava a sexta feira e os funcionários, e até mesmo alguns clientes da concessionária, a tudo assistiam acompanhando os últimos retoques com animado interesse.

Passados quase dois anos daqueles momentos, meu traquejo em hoje pilotar aquela moto contrasta com o de quando a recebi. Eu estava então dando um salto de uma moto pequena que usara por mais de dez anos em um passado distante, para uma moto grande e com enorme potência no motor.

Fui prudente e a comprei com o acerto de que a entregariam em minha casa. Minutos depois, com a moto acomodada no lugar mais nobre da poderosa carreta, acompanhei-a seguindo-a no meu carro, por um trajeto que, tendo começado pelas engarrafadas vias urbanas do Recife, terminaria uns vinte quilômetros depois, quando já anoitecia e garoava, na região campesina de Aldeia.

O acesso por via secundária até a entrada do condomínio é estreito, tem subidas e descidas e é, em alguns trechos por demais tortuoso. O desafio foi porém habilmente superado pelo motorista da cegonha, que não reclamou quase nada em relação ao que achei que teria direito.

O acesso da moto ao interior do condominio, já que a carreta não pode nele entrar, ficou por conta do próprio motorista, que já fora moto-boy. E finalmente a moto chegou à minha garagem e agora parecia que iria ter algum sossego.

A carreta já fora embora, e eu apreciei por uns instantes a “bela máquina”, como a chamam os mais apaixonados. Combinei comigo mesmo, ou talvez com a moto, que voltaria no dia seguinte para o ensaio inicial.

Nossa casa em Aldeia não é onde atualmente residimos, de modo que a deixaria só até o dia seguinte. Pelo menos foi o que inicialmente pensei, imaginando que ali estaria de volta bem cedo da manhã, tão logo amanhecesse.

Eu já fechava a garagem, quando isso tudo reconsiderei. Por que não agora? Quase pude escutar: porque já escureceu, porque está neblinando, porque você está sem o seu capacete e demais equipamentos de proteção...

Mas o que são tais impedimentos para quem tem o espírito aventureiro? Estava decidido: antecipei a inauguração. Daria apenas umas poucas voltas dentro do condomínio e nada mais.

Antes de tudo começar, e quando eu ainda posicionava a moto à frente da casa, senti que ela inclinava para o lado, e ao tentar trazê-la de volta, percebi pela primeira vez que o seu peso era descomunal. Meu esforço para trazê-la de volta foi tal, que depois de reaprumar, ela pendeu para o lado oposto.

Tratei de desmontar e, em lugar de desistir de lutar contra o seu peso e deixá-la tombar, resisti. Já de pé ao seu lado, fiz tamanho esforço que terminamos por cair. Caimos ela e eu.

O condominio estava deserto, e por um lado isso foi bom pois ninguém viu! As quedas, principalmente de motos e nessas circunstâncias, estando ela parada, são do tipo que derrubam envergonhando. Mas, por outro lado foi ruim, por não ter quem me ajudasse levantá-la, e voltar a guardar.

Guardar! Lembrei então do guarda que faz a vigilância noturna. Liguei para a guarita do condomínio. E ele não tardou em chegar.

A humilhação seguinte viria depois que a levantamos e a colocamos dentro da garagem no lugar de onde, pelo menos naquele início de noite, jamais deveria ter saído. Portanto, misturavam-se em mim vergonha e arrependimento.

O vigilante inspecionou detalhadamente a moto para no final constatar que em nada ela fora afetada. Afinal é projetada para suportar quedas quando parada.

Enquanto isso, eu inspecionava a mim mesmo, afinal eu senti ter arranhado um braço, e também ardia o pé esquerdo, no qual eu pusera o maior dos esforços.

O vigilante, voltando-se para mim, e indiferente à minha dor física e psíquica, perguntou:

- E é o senhor que vai andar nessa bicha?!

Achei que por um dia já tinha tido o suficiente, e voltei para nossa residencia decepcionado e sob intensa chuva.


(Continua na próxima postagem)

BMW F 800 GS - Epílogo da Introdução. (Ou Parte 02/02).



Motos muitas vezes despertam sentimentos antagônicos, como os que foram suscitados em mim e em minha mulher. Esses nem foi possível compartilhar. A incompatibilidade era irreconciliável.

Eu tivera um dia que no geral fora de boas expectativas com aquela bela aquisição, tão desejada. Mas compreendia que, involuntáriamente, em minha mulher provocava sentimentos de apreensão.

Como aliviar tais apreensões, voltando para casa já no primeiro dia machucado, depois de cair da moto antes mesmo de inaugurá-la?

Passei pela sala cumprimentando-a de longe. Caminhei pisando com naturalidade apesar do pé, que a essa altura inchara um pouco mais. Pensei: não fosse por eu querer esconder o ocorrido, e  já poderia começar a por gelo.

Tomei um banho para higienizar o ferimento no braço, vesti uma camisa de mangas compridas para esconder a ferida, e apareci para jantar.

- Não está sentindo calor usando essa camisa?

A pergunta que ela me fez foi de todo pertinente. Eu sentia um calor “da bixiga”.

Respondi evitando dizer que muito pelo contrário, para me manter dentro dos limites da discrição e da naturalidade. Apenas fingi que me sentia confortável.

Nessa noite fui dormir mais cedo, para acordar somente quando já tarde da manhã seguinte, ouvi-a abrir as cortinas da janela do quarto.

Em seguida ela já se afastava anunciando a hora do dia, quando, por brincadeira, apertou os dedos dos meus dois pés, que ainda estavam sob a coberta.

Fui ao outro mundo e voltei! Contive o grito, mas não a expressão de dor que deve ter sido tão convincente quanto sincera.

- Puxa! Eu nem apertei com tanta força! Eu só fiz assim...

E repetiu a ação.

Ainda me recuperando dessa segunda dor, pensei: por essa e por outras, melhor teria sido ter confessado tudo na primeira hora. Além disso eu  teria começado a por gelo desde ontem.

No entanto até ali ela de nada desconfiou.

Depois do café da manhã, já quase à hora do almoço, isolei-me para uma consulta ao Google: “Como levantar sozinho uma moto de alta cilindrada”.

O vídeo que acessei, para dar maior credibilidade à técnica ensinada, apresentava uma moto imensa e, para levantá-la, uma moça bem magrinha.

Foi quando de mim aproximou-se minha mulher, dando de cara na tela do MAC, com aquela moto lá deitada no chão.

A pergunta seguinte soou óbvia:

- Você já caiu da moto?!

- Sim. E a boa notícia é que agora já poderei botar gelo no pé.

Dez dias depois, como o pé não havia desinchado, consultei um médico ortopedista.

Após a radiografia, ele admirado me chamou:

- Venha ver o que aconteceu no seu pé!

A fratura na radiografia era daquelas de grande visibilidade. Longa, longitudinal e terminava próxima ao dedo mínimo, embora começasse muito antes.

- Não sente doer?

- Nem tanto!

Surpreso, pois disse tratar-se de uma fratura dolorosa, receitou-me Tramal, um poderoso analgésico, que nem cheguei a comprar! Afinal, não pretendia mesmo tomar.

Confesso que até me lembrei da charge que exalta o nordestino, dizendo ser ele “sobretudo um forte”. Nela, um homem de pé à frente do médico tem uma enorme peixeira que lhe atravessa o tórax. O médico indaga:

- Dói?

Ele responde:

- Só quando eu rio!

Passaram-se mais 20 dias calçando bota imobilizadora, até que a fratura consolidasse.

Somente 30 dias depois de ter recebido a moto, foi que finalmente teve lugar a esperada inauguração.

Ela aconteceu durante o dia, com muito sol, capacete e demais equipamentos de proteção.

... e comigo experiente o suficiente, para não mais ser derrubado de uma moto estacionada. Eu fizera progressos antes mesmo de começar.


terça-feira, 24 de julho de 2018

O Momento Decisivo.


Em um mundo imaginário porém distante do ideal, o cenário é o de um set de TV. Através da janela de vidro vê-se a neve que cai lá fora, e é perceptível a atmosfera sombria de um rigoroso inverno, que nos remete a um país bem distante do nosso Brasil tão tropical. Estamos no longínquo Azhyl.

A entrevista vai começar, e um homem está agora ao vivo diante das câmeras da TV, a espera da primeira pergunta.

O entrevistador, após satisfazer os ditames introdutórios, o cumprimenta e faz a seguinte pergunta:

- Houve um momento na sua vida, que o Sr tenha identificado como o ponto inicial de sua trajetória profissional, a partir do qual tornou-se corrupto?

Com a desfaçatez dos "iniciados", o entrevistado pede licença para antes cumprimentar os telespectadores, e responde com espontaneidade:

- Sim! Certamente que sim.

Prossegue então o entrevistador:

- O Senhor poderia nos contar como isso aconteceu?

E a entrevista tem andamento:

- Eu era um jovem recém-formado em Administração de Empresas, e fizera concurso para trabalhar em uma grande empresa estatal do petróleo, a Usabrax. Vivíamos o final da década de 70, e o meu pai tinha amigos influentes no centro administrativo governamental do meu país, localizado na cidade de Azhylia. Ter feito concurso para a Usabrax era o sinal de que eu pretendia fazer carreira por méritos pessoais, e nunca antes  pensara sequer em deixar a cidade onde nasci e me formei.

- Mas por que o Senhor terminou indo trabalhar em um Ministério do Governo, em Azhylia?

- Bom! Isso aconteceu enquanto eu esperava o resultado do concurso. Não era certo que eu seria aprovado, e aconteceram as pressões familiares.

- Para qual Ministério o Senhor terminou indo?

- Eu fui contratado para trabalhar como Assessor do Ministro no Ministério dos Transportes.

- Como é sair digamos que da província, pois sua cidade natal, Arrecifes, é uma cidade fora do centro de poder, e descobrir-se em Azhylia, trabalhando em plena praça do poder quadrangular?

- Ah... Essa é uma boa pergunta, porque tem a ver com a minha descoberta inicial de um mundo novo. Logo percebi que Azhylia nada tinha de parecido como o Azhyl. Senti-me por um lado surpreso, mas por outro também deslumbrado.

- O que o surpreendia e o que o deslumbrava?

- Diria que, como aquilo lá foi para mim o descortinar de um novo mundo,  isso foi o que me surpreendeu. O que me deslumbrou foram os ambientes luxuosos, e suas amplas salas em cujos tapetes ao pisar enterrávamos as pernas até os joelhos (risos...). Haviam também outras pessoas, outros interesses... Nem parecia que eu ainda estivesse no Azhyl! Embora a moeda no Azhyl fosse o Trocado Novo, moeda da época, só se ouvia falar no Dollar, que mais parecia ser a moeda oficial.

- Como foi a sua adaptação a esse novo meio?

- Azhylia tem uma vida social muito intensa. Muito do que de importante acontece, ocorre fora dos gabinetes de trabalho, nos encontros entre funcionários do governo, autoridades, e como hoje se sabe, dos 'lobbyists'.

- Essas reuniões teriam sido importantes no processo de sua adaptação ao ambiente governamental de Azhylia?

- Eu diria que sim! Até porque foi a partir de algo que aconteceu em uma dessas reuniões, que voltando de férias à Arrecifes, sentei para tomar um Chopp com um amigo, e ele me perguntou: "Como estás em Azhylia?" E respondi: Totalmente corrompido. (Risos...)

- Teria então naquele dia ocorrido o instante inicial, a partir do qual o Sr tornou-se corrupto?

- Sim! Certamente! Porém, até então eu não almejava o futuro que me esperava! Devo explicar que agi com boa vontade e sem a mínima sombra de má intenção, quando ajudei o homem que naquele dia ao se aproximar de mim, já parecia saber quem eu era, e onde eu trabalhava.

- Tratava-se de um lobbyist?

- Não! Ele não era um intermediário! E naquela época ainda não se atribuía essa denominação a quem intermediava interesses pessoais junto aos ministérios.

- Quem então lhe procurou?

- Um homem que apresentou-se como empresário, ele mesmo o interessado em que o Ministro dos Transportes despachasse um processo por cuja aprovação havia muito tempo que ele esperava.

- Ele lhe pediu os préstimos para que o Sr Ministro assinasse a aprovação?

- Sim, e eu me dispus a ajudá-lo. Nada me seria tão fácil! Apenas localizei o projeto em meio a uma pilha de outros, e coloquei-o em cima daqueles que já estavam na caixa de saída. Não demorou para que o Ministro o assinasse.

- Por que esse terminou sendo o ato de corrupção que o Senhor considera como o marco inicial para os demais da sua carreira?

- Até aí eu nem considerava que estivesse fazendo nada demais! Só  quando verifiquei ao checar o meu saldo bancário, que havia um depósito na minha conta no valor equivalente a U$ 15 000.00. Logo descobri que o depósito viera da parte do homem a quem prestara aquele favor.

- Qual foi a sua atitude, diante dessa descoberta?

- Procurei-o imediatamente, e lhe digo, eu o fiz indignado! Demonstrei-lhe o meu desagrado e exigi o número da conta para a qual eu pudesse lhe devolver o dinheiro. 

- Qual a reação do empresário que lhe subornou?

- Ele demonstrou-se ofendido com a minha atitude, e disse considerar da minha parte uma indelicadeza o que eu pretendia fazer com ele, devolvendo-lhe um presente. Comentou que eu parecia ainda não ter alcançado a verdadeira importância que tivera para ele o que eu fizera. Ele justificou-se quanto ao depósito dizendo que a intenção era comprar com aquele dinheiro algo para me presentear. Como teve dificuldade de saber qual seria o meu interesse, resolvera dar o presente em espécie. Ele foi de tal modo cortês e envolvente, que me deixou completamente sem jeito de insistir. Ele ainda me acrescentou que o valor com o qual retribuíra o meu trabalho, não era nada em relação ao que a aprovação do projeto que eu conseguira, iria lhe proporcionar. E passou a desconsiderar inteiramente a minha pretensão de devolver-lhe o dinheiro, mudando de assunto para falar de frivolidades.

- E então?

- E então, foi quando passei a entender que em Azhylia, para a grande maioria dos funcionários governamentais, o que menos importa são os seus salários, em face do que recebem por prestações de favores, informações privilegiadas e tudo o mais. E então? Pensei: Em terra de sapos, de cócoras com eles. Decidi que passaria a fazer parte dessa maioria.

Fim da primeira entrevista.

Segunda e última entrevista:

Mesmo cenário, mesmo entrevistador, muda apenas o entrevistado.

O entrevistado agora é um Agente de uma Instituição Federal do Azhyl, que pelos seus altos objetivos ligados ao cumprimento da lei, goza de considerável prestígio junto a população daquele país, onde é conhecida pela sigla KTM.

O entrevistador inicia explicando: o nosso programa de entrevistas de hoje propõe-se a indagar aos entrevistados, qual o fato marcante das suas vidas profissionais elas consideram ter sido determinante para balizar o futuro no exercício das suas profissões.

- Eu iniciaria porém lhe perguntando: o que o levou a escolha de tão prestigiosa profissão?

- Acredito que essa foi uma decisão a partir das primeiras influências, que vieram lá da minha infância. Meu pai costumava me presentear com estrelas de Xerife, eu adorava os filmes de cowboys, e costumava ganhar revólveres de presente que tinham até cartucheiras e davam tiros de espoleta. 

- Qual a atitude de seus pais ao perceberem  que você já um jovem adulto, mantinha o interesse por seguir essa profissão?

- Tentaram por todos os meios me dissuadir, pois eles mais do que eu, tinham consciência dos riscos da profissão de Agente da KTM.

- Qual a sua trajetória até tornar-se finalmente um Agente da KTM?

- Essa foi a parte que em tudo contrastou com as minhas fantasias de criança, pois por cinco anos enfrentei os bancos da faculdade, às voltas com disciplinas do curso de Direito, para como pré-requisito tornar-me advogado. Depois seguiram-se as horas de estudos preparatórios para o concorrido concurso a que precisei me submeter, sem falar em demais exigências legais para exercer a função.

- Uma vez finalmente trabalhando como Agente da KTM, e a partir da sua experiência nessa Instituição, gostaria de lhe perguntar: O Senhor presenciou atos de corrupção na KTM da Azhyl?

- Sim.

- Significa dizer que a KTM é uma instituição corrompida? 

- Assim como não há árvore que o vento não tenha balançado, não há em Azhyl, Instituição que não esteja corrompida.

- Nesse caso, devo lhe perguntar: o Senhor atuando como Agente da KTM já recebeu propina?

- Recebi.

- Mas em se tratando do papel que deve exercer um Agente da KTM a serviço da Sociedade, não estaria o Senhor fazendo o papel de um bombeiro que em lugar de extinguir o fogo provoca um incêndio criminoso?

- É justo que pense assim, a menos que me seja dada a oportunidade de me explicar.

- Gostaria sim que o fizesse, afinal o que o Senhor acaba de dizer, nos deixou a  todos muito perplexos.

- Certo dia uma grande mobilização interna aconteceu, quando após muitos meses de investigações foi expedido um mandato de prisão para três poderosos mandatários contra os quais se havia encontrado provas de fazerem contrabando de armas para a um país vizinho. A importância da operação justificou um numeroso e forte contingente, e dela chegaram a participar oito Agentes da KTM. Entre eles estava eu, agora já tão apartado dos meus devaneios infantis, por fatos negativos anteriormente já vivenciados, no meio daquela corporação. A caminho, e sob a tensão que antecede operações de risco, eis que soou o celular do Agente que coordenava a operação. O diálogo foi breve. Ao desligar, ele nos informou com naturalidade: "A operação foi abortada e segunda-feira vai ter um depósito de U$ 5 000.00 na conta de cada um de nós.

- O Senhor recebeu esta propina?

- Quando você antes me fez essa pergunta, eu já havia respondido que sim. Recebi não somente esta, como as de ocasiões anteriores. Não há como não receber se uma recusa vai nos indispor diante dos colegas, que passariam a sentirem-se por mim ameaçados. 

- Teria sido este momento que acabou de destacar o que constituiu-se o marco a partir do qual moldou os seus propósito de vida futura? Qual foi ele?

- Certamente! Entendi ali que não era isso o que queria para a minha vida. Aquilo não era certo, e eu me exporia a risco e exporia a risco a minha família, caso quisesse fazer valer os meus princípios morais. Pedi demissão. 

- O que o Senhor faz depois que deixou a KTM?

- Sou dono de uma padaria. 

- Como é deixar de ser Agente da KTM, para ser dono de uma padaria?

- É poder viver fiel aos meus princípios éticos, norteando os meus empregados a servirem de acordo com os valores da honestidade, prestando sempre um serviço de qualidade para os nossos clientes. Agora eu posso todos os dias, quando à noite chega e é  hora de dormir, por a cabeça no travesseiro e adormecer em paz. Para mim ter paz de espírito é fundamental! Não há dinheiro que pague! Finalmente vivo em paz, vivo com dignidade.

- Obrigado por sua participação, e boa noite!


Fim da última entrevista.



sábado, 21 de julho de 2018

Os Parentes.

                                                                                   Mapa do Estado do Ceará município do Crato.

Década de 50 em uma pequena, pouco populosa e pacata cidade do interior. Vêm dali as minhas primeiras lembranças. Elas só não começaram antes, na década anterior, porque durante os seus últimos anos, meu cérebro incipiente ainda se formava. Perdi muito pouco do que por lá acontecia!

A psicanálise dá conta de que nossas lembranças longínquas podem não ser reais, ainda que em nós estabelecidas como se assim fossem.

Por isso separo minhas lembranças em duas. As que pude na fase adulta comprovar como fatos, e aquelas pelas quais ainda espero a confirmação.

A comprovação dessa história que vou contar, só me veio mais de quarenta anos depois.

Saí do Crato aos onze anos, e certa vez, ao voltar a passeio quando já passava dos cinqüenta anos, encontrei quase do jeito que sempre fora, a casa onde nasci. À sua esquerda, nossos antigos vizinhos, a numerosa família alegre, musical e ruidosa constituída a partir do casal Hilda e Manoelito Parente.

Minha memória guardou, do convívio com eles, uma cronologia de acontecimentos que para mim tornaram-se marcantes.

Alguns deles se misturam com a vida da cidade, outros são muito próprios da vida familiar.

Deixarei para o fim o registro de algo singular que na casa deles aconteceu. Eu tinha apenas sete anos e me senti por aquilo impactado. 

Esse acontecimento viria numa sequência cronológica de outros que o antecederam, alguns sem muita importância e um deles até que por demais inusitado.

Apesar de inusitado, disso eu ainda não podia então dar conta, e por causa da minha pouca idade à época, causou-me menos forte impressão.

O interesse por música encontrava naquela casa a sua expressão maior na figura do Hildelito, um dos filhos mais velhos do casal. “Encostado do filho mais velho Ailton”. Ailton, dos filhos o que caiu da moto... 

Lembro que meu pai elogiava Hildelito, dizendo: “Toca muito bem, e toca de ouvido!”

Por não entender muito bem o que aquilo significava, deduzi, vendo-o tocar sua “sanfona”, que era uma referência à posição meio que de lado, em que colocava a sua cabeça enquanto tocava. Quase a encostar o ouvido no acordeom. Isso! Pensei: “tocar de ouvido” - tocar quase encostando o ouvido na sanfona.

Pelas ligações da família com a vizinha cidade de Exu, teria sido de lá, e das relações de amizade com sanfoneiros locais, que surgira em Hildelito, então um garoto de uns 14 ou 15 anos, aquele gosto e aquela desenvoltura pela música.

Certo dia, em que a movimentação na casa dos Parentes se fez ainda mais alvoroçada, eles nos convidaram para uns momentos de música e diversão, após o jantar. Naquele tempo chamavam a isso de “luau”.

- Venham para cá José e Alice, e tragam os meninos.

Nesse dia, na noite desse dia, a casa deles ferveu! Somente eles e nós, já não deixava espaço para mais ninguém. Tocando a sanfona e de quebra também cantando com grande vozeirão, não era o Hildelito. Ele, dessa vez, também se deleitava. Era um sanfoneiro que viera de Exú: Luiz Gonzaga.

Meu pai bem que me alertou: preste atenção, que ele é um sanfoneiro famoso!

Anos depois, quando eu já era um jovem adulto, um estalo em minha cabeça se deu. De uma música do “Rei do Baião”, para mim ganhou um sentido maior, o trecho da letra que diz:

            “É! O caminho é de açúcar! O Cratinho é doce! Cratinho é terra boa! Todo mundo quer ir pra lá… Eh! Eh! Mas ninguém quer ir pro hoté… todo mundo quer se arrumar na casa de um parente. Um, diz que vai pra casa do Alencar… Ah! Ah! Outro diz que vai pra casa do Parente.”

Mas, concluindo, preciso contar sobre a que ali, foi a ocorrência mor aos meus olhos de criança, e que aos olhos de um adulto, décadas depois se complementaria. Se complementaria em meio a novas reflexões.

Zélia era o nome da menina. Fora criada por Dona Hilda Parente. Era “uma cria da casa” por ela adotada, filha de uma das suas empregadas que morrera, deixando-a recém-nascida. Crescera para ser uma substituta da mãe. Por isso não era como os seus filhos, embora como qualquer dos seus filhos fosse. E Zélia devia ser quase da minha idade.

Um dia almoçávamos em nossa casa, e tínhamos a presença do tio Plácido, irmão dos mais novos de minha mãe, o qual embora morasse em Recife, estava de passagem pelo Crato com destino à cidade de Picos no Piauí.

A conversa estava animada, mas foi interrompida pela gritaria vinda de junto. A voz que se sobressaía era a de D. Hilda Parente. A voz mais sobressaltada, que ressoava aflita: “Valha-me Deus, nos acuda”.

Em dois tempos estávamos todos de pé. Meu pai à frente, seguido pelo tio Plácido e depois deles todo os demais de nós, inclusive Eu. Direto à casa dos nossos vizinhos, sem ainda saber no que seria possível ajudar.

Zélia caíra dentro da fossa.

O buraco cavado no meio do quintal destinava-se a ser a nova fossa que, inacabada, ainda não começara a ser usada. Menos mal! Mas o serviço ia adiantado o suficiente para justificar o desespero de quem se deu conta do que ocorreu.

Tio Plácido, ex-aventureiro nos seringais do Acre, além de ainda jovem, tinha todas as características de quem, em situações como esta, se imbui do espírito de bombeiro.

Devia gostar da camisa que usava, pois embora a tenha tirado com muita pressa, não a sacudiu de lado. Encontrou alguém a quem entregar.

Resoluto, ajudado pelo meu pai, entrou no buraco e pouco depois o resgate estava completo. Zélia sobrevivera. Atordoada, e um pouco ferida e machucada, já tornara a si. Por um tempo as pessoas ainda falaram alto e comentaram detalhes do ocorrido. Demorou até que tudo serenasse.

Não me lembro de, nesse dia, termos terminado o nosso almoço! Nossa memória é seletiva e não guarda fatos de menor importância. Lembro contudo que durante os momentos de maior tensão, Dona Hilda perguntava por onde estariam os filhos mais velhos, e mandou alguém ir chamá-los.

Depois de relembrar tudo isso, me vem aquele outro momento, no mesmo local, mais de quatro décadas depois. Eu visitava nossos caros vizinhos, na mesma casa em que sempre viveram. Reencontrei Dona Hilda aproximando-se dos 90 anos! Seu Manoelito falecera cedo, e já fazia muito tempo.

Estavam presentes alguns dos seus muitos filhos: Marlene, a filha mais velha, Ailton o filho mais velho, o que "um dia caiu da moto", Paulo, esse “encostado com o Hildelito”, que por sinal lá não estava mas me mandou, por Paulo, seu último CD gravado com composições próprias e também do Luiz Gonzaga.

Sempre achei que o passado de pequenas cidades do interior é mais próximo. Fala-se de coisas remotas como se a clareza com a qual foram impressas na alma as tornassem recentes. 

E quanto ao prazer que trazem essas recordações? 

Até fatos desagradáveis nos chegam sem lamentos, e o que antes foi motivo de atropelo pode ser visto com um toque de alívio por já ter passado. Mas, por paradoxal que pareça, a tudo se conta com certo tom de saudosismo.

Naquele dia, foram muitas e sensacionais as nossas conversas! Revivemos coisas “do arco da velha”. As conversas dos mais velhos não raro nos reapresentam a nós mesmos, ao trazer de volta as nossas traquinices da infância.

E foi em meio a essa atmosfera inigualável de boas conversas, que mencionei, para espanto de todos, o dia em que Zélia caiu na fossa.

Disse então Dona Hilda:

- Como pode você se lembrar disso? Você ainda era muito pequeno!!!

E em seguida me perguntou: você quer ver Zélia? A “menina” que caiu na fossa?

E disse Dona Hilda para um dos filhos:

- Marlene, chame aí a Zélia.

Em um instante chegou Zélia e só os olhos e as bochechas guardavam os traços da criança assustada que um dia eu vira a viver pelos cantos.

Sobrevivera depois de cair na fossa, e substituíra a mãe.

domingo, 17 de junho de 2018

Aconteceu na Garagem.


Nas garagens nascem as grandes bandas, as empresas gigantes de informática, as grandes fábricas de motocicletas... 

Das garagens, são muitos os que delas têm lembranças inesquecíveis.

Lembranças originadas de atividades criativas, às vezes científicas, outras vezes tecnológicas e até de atividades lúdicas, engraçadas.

Garagens são em geral isoladas, e por caberem carros são espaçosas. Tornam-se convidativas a que ali se criem condições favoráveis até mesmo para que uma garotada se reúna para estudar.

Foi com esse propósito que certo dia, o compromisso de aprender “Complementos de Matemática”, reuniu um grupo de ruidosos colegas de faculdade, empenhados em levar a bom termo seus aprendizados das disciplinas do curso de engenharia.

Já faz mais de quarenta anos que uma digressão dos estudos ali ocorreu, e o fato por inusitado, ou talvez por permitir relembrar com saudosismo o espírito brincalhão e irresponsável da época, permanece na lembrança dos que da brincadeira participaram.

Até mesmo de Waldery Bernardo Júnior, alvo principal da “diversão” daquela noite, que ao relembrar dá risadas, ainda que admitindo: “que maldade!”.

O tempo passara rápido e já era mais de meia noite. Eram umas duas horas da madrugada. O cansaço já prevalecia sobre o ânimo de prosseguir nem que fosse só mais um pouco.

E afinal, àquela altura, Waldery já “pegara no sono”. 

Os acordados porém, apesar do cansaço, encontraram de pronto energia para uma inusitada brincadeira.

Não se pode sequer cochilar, quando se faz parte de certas turmas, como essa! Quanto mais adormecer daquele jeito, quase que a ressonar.

O plano foi executado em etapas, começando assim:

Primeiro, taparam TODAS as frestas da garagem. 

Segundo, apagaram as luzes.

Terceiro, fizeram um breve silêncio.

Waldery continuava a dormir. 

Então, passaram todos a fingir continuarem estudando, normalmente. O fizeram tão bem, que ouvia-se até o ranger do giz no quadro negro.

Chegara a hora de acordar Waldery. 

  • Waldery, vamos lá cara! Precisamos aqui de você.

Sonolento, Waldery primeiro acordou e, logo em seguida, ao despertar, abriu os olhos. 

Foi evidente que ali só ele não enxergava. 

Do desespero ao grito foi um microssegundo. 

Quem não advinha o que ele disse?

  • FIQUEI CEGO.

Hoje está tudo superado. 

Waldery, ao reencontrar os antigos colegas, ri e comenta: 
“Que maldade!”. 

Uma rápida maldade, mas de grande impacto!

Uma turma dessas ninguém esquece!