segunda-feira, 13 de agosto de 2018

BMW F 800 GS - Epílogo da Introdução. (Ou Parte 02/02).



Motos muitas vezes despertam sentimentos antagônicos, como os que foram suscitados em mim e em minha mulher. Esses nem foi possível compartilhar. A incompatibilidade era irreconciliável.

Eu tivera um dia que no geral fora de boas expectativas com aquela bela aquisição, tão desejada. Mas compreendia que, involuntáriamente, em minha mulher provocava sentimentos de apreensão.

Como aliviar tais apreensões, voltando para casa já no primeiro dia machucado, depois de cair da moto antes mesmo de inaugurá-la?

Passei pela sala cumprimentando-a de longe. Caminhei pisando com naturalidade apesar do pé, que a essa altura inchara um pouco mais. Pensei: não fosse por eu querer esconder o ocorrido, e  já poderia começar a por gelo.

Tomei um banho para higienizar o ferimento no braço, vesti uma camisa de mangas compridas para esconder a ferida, e apareci para jantar.

- Não está sentindo calor usando essa camisa?

A pergunta que ela me fez foi de todo pertinente. Eu sentia um calor “da bixiga”.

Respondi evitando dizer que muito pelo contrário, para me manter dentro dos limites da discrição e da naturalidade. Apenas fingi que me sentia confortável.

Nessa noite fui dormir mais cedo, para acordar somente quando já tarde da manhã seguinte, ouvi-a abrir as cortinas da janela do quarto.

Em seguida ela já se afastava anunciando a hora do dia, quando, por brincadeira, apertou os dedos dos meus dois pés, que ainda estavam sob a coberta.

Fui ao outro mundo e voltei! Contive o grito, mas não a expressão de dor que deve ter sido tão convincente quanto sincera.

- Puxa! Eu nem apertei com tanta força! Eu só fiz assim...

E repetiu a ação.

Ainda me recuperando dessa segunda dor, pensei: por essa e por outras, melhor teria sido ter confessado tudo na primeira hora. Além disso eu  teria começado a por gelo desde ontem.

No entanto até ali ela de nada desconfiou.

Depois do café da manhã, já quase à hora do almoço, isolei-me para uma consulta ao Google: “Como levantar sozinho uma moto de alta cilindrada”.

O vídeo que acessei, para dar maior credibilidade à técnica ensinada, apresentava uma moto imensa e, para levantá-la, uma moça bem magrinha.

Foi quando de mim aproximou-se minha mulher, dando de cara na tela do MAC, com aquela moto lá deitada no chão.

A pergunta seguinte soou óbvia:

- Você já caiu da moto?!

- Sim. E a boa notícia é que agora já poderei botar gelo no pé.

Dez dias depois, como o pé não havia desinchado, consultei um médico ortopedista.

Após a radiografia, ele admirado me chamou:

- Venha ver o que aconteceu no seu pé!

A fratura na radiografia era daquelas de grande visibilidade. Longa, longitudinal e terminava próxima ao dedo mínimo, embora começasse muito antes.

- Não sente doer?

- Nem tanto!

Surpreso, pois disse tratar-se de uma fratura dolorosa, receitou-me Tramal, um poderoso analgésico, que nem cheguei a comprar! Afinal, não pretendia mesmo tomar.

Confesso que até me lembrei da charge que exalta o nordestino, dizendo ser ele “sobretudo um forte”. Nela, um homem de pé à frente do médico tem uma enorme peixeira que lhe atravessa o tórax. O médico indaga:

- Dói?

Ele responde:

- Só quando eu rio!

Passaram-se mais 20 dias calçando bota imobilizadora, até que a fratura consolidasse.

Somente 30 dias depois de ter recebido a moto, foi que finalmente teve lugar a esperada inauguração.

Ela aconteceu durante o dia, com muito sol, capacete e demais equipamentos de proteção.

... e comigo experiente o suficiente, para não mais ser derrubado de uma moto estacionada. Eu fizera progressos antes mesmo de começar.


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