A carreta me surpreendeu! Também chamada de “Cegonha”, ela oferecia um generoso espaço para transportar uns 12 carros. Estacionada em rua secundária da movimentada Av. General Mascarenhas de Moraes, guardava uma boa distância da Concessionária SAEL de veículos. Estava descarregada, completamente vazia, e disponível. Ela parecia descansar enquanto esperava.
Minha surpresa não se deu nem por sua majestade, nem pelo seu potencial de transporte de carga. Apenas eu não esperava que tudo aquilo fosse usado para transportar uma única moto. A moto que eu acabara de comprar.
Enquanto ainda a emplacavam e lhes faziam os mimos finais, terminava a sexta feira e os funcionários, e até mesmo alguns clientes da concessionária, a tudo assistiam acompanhando os últimos retoques com animado interesse.
Passados quase dois anos daqueles momentos, meu traquejo em hoje pilotar aquela moto contrasta com o de quando a recebi. Eu estava então dando um salto de uma moto pequena que usara por mais de dez anos em um passado distante, para uma moto grande e com enorme potência no motor.
Fui prudente e a comprei com o acerto de que a entregariam em minha casa. Minutos depois, com a moto acomodada no lugar mais nobre da poderosa carreta, acompanhei-a seguindo-a no meu carro, por um trajeto que, tendo começado pelas engarrafadas vias urbanas do Recife, terminaria uns vinte quilômetros depois, quando já anoitecia e garoava, na região campesina de Aldeia.
O acesso por via secundária até a entrada do condomínio é estreito, tem subidas e descidas e é, em alguns trechos por demais tortuoso. O desafio foi porém habilmente superado pelo motorista da cegonha, que não reclamou quase nada em relação ao que achei que teria direito.
O acesso da moto ao interior do condominio, já que a carreta não pode nele entrar, ficou por conta do próprio motorista, que já fora moto-boy. E finalmente a moto chegou à minha garagem e agora parecia que iria ter algum sossego.
A carreta já fora embora, e eu apreciei por uns instantes a “bela máquina”, como a chamam os mais apaixonados. Combinei comigo mesmo, ou talvez com a moto, que voltaria no dia seguinte para o ensaio inicial.
Nossa casa em Aldeia não é onde atualmente residimos, de modo que a deixaria só até o dia seguinte. Pelo menos foi o que inicialmente pensei, imaginando que ali estaria de volta bem cedo da manhã, tão logo amanhecesse.
Eu já fechava a garagem, quando isso tudo reconsiderei. Por que não agora? Quase pude escutar: porque já escureceu, porque está neblinando, porque você está sem o seu capacete e demais equipamentos de proteção...
Mas o que são tais impedimentos para quem tem o espírito aventureiro? Estava decidido: antecipei a inauguração. Daria apenas umas poucas voltas dentro do condomínio e nada mais.
Antes de tudo começar, e quando eu ainda posicionava a moto à frente da casa, senti que ela inclinava para o lado, e ao tentar trazê-la de volta, percebi pela primeira vez que o seu peso era descomunal. Meu esforço para trazê-la de volta foi tal, que depois de reaprumar, ela pendeu para o lado oposto.
Tratei de desmontar e, em lugar de desistir de lutar contra o seu peso e deixá-la tombar, resisti. Já de pé ao seu lado, fiz tamanho esforço que terminamos por cair. Caimos ela e eu.
O condominio estava deserto, e por um lado isso foi bom pois ninguém viu! As quedas, principalmente de motos e nessas circunstâncias, estando ela parada, são do tipo que derrubam envergonhando. Mas, por outro lado foi ruim, por não ter quem me ajudasse levantá-la, e voltar a guardar.
Guardar! Lembrei então do guarda que faz a vigilância noturna. Liguei para a guarita do condomínio. E ele não tardou em chegar.
A humilhação seguinte viria depois que a levantamos e a colocamos dentro da garagem no lugar de onde, pelo menos naquele início de noite, jamais deveria ter saído. Portanto, misturavam-se em mim vergonha e arrependimento.
O vigilante inspecionou detalhadamente a moto para no final constatar que em nada ela fora afetada. Afinal é projetada para suportar quedas quando parada.
Enquanto isso, eu inspecionava a mim mesmo, afinal eu senti ter arranhado um braço, e também ardia o pé esquerdo, no qual eu pusera o maior dos esforços.
O vigilante, voltando-se para mim, e indiferente à minha dor física e psíquica, perguntou:
- E é o senhor que vai andar nessa bicha?!
Achei que por um dia já tinha tido o suficiente, e voltei para nossa residencia decepcionado e sob intensa chuva.
(Continua na próxima postagem)
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