terça-feira, 9 de abril de 2024

Vai Ser Assim...

Dos aniversários de abril deste ano, 2024, há duas mulheres do meu convívio e da minha amizade e admiração, celebrando a idade que assinala o final de dois dígitos: D. Denise e Alaíde.


São 99 anos de vidas com aspectos singulares a destacar: O enfrentamento corajoso das vicissitudes, a superação admirável de muitas dores, mas também os momentos de muitas alegrias.


São histórias que se impõem pela realização de propósitos que foram cumpridos cada uma à sua maneira, com muita constância e determinação.


Alaíde foi quem nasceu em 09 de abril de 1925, e daqui a pouco estaremos indo à sua casa, no dia do seu aniversário, como de outras vezes, para participar da alegria de tê-la conosco.


O lugar se encherá de familiares e muitos amigos e amigas. As gerações mais recentes estarão representadas principalmente pelo seu neto e suas bisnetas.


A maioria dos seus amigos, porém, tem 10 a 15 anos a menos do que ela. São todos jovens pressurosos entre as idades de apenas 84 a 89 anos.


Assim é que apesar da presença dos adolescentes, outra vez me sentirei menino, não importando que não o seja, muito pelo contrário.


Pressuponho que assim como das outras vezes, também não haverá quebra-panela. No entanto como aconteceu no passado, haverá um piano no canto da sala.


Algumas das suas amigas nele se revezarão fazendo soar músicas ligeiras e alegres.


A hora do quebra-panela será aquela em que todas juntas, em uma dinâmica fila indiana, entoarão canções enquanto dão voltas pela sala.


Chamo isso de o rodopio da alegria, cujo significado simbólico não cabe na casa, e o vejo sair pelas janelas.


Alguém aqui, pensarei eu outra vez, deu real significado à vida! E não só Alaíde, a estrela máxima, como também outras pessoas ao seu redor.


De Alaíde bem sei que ainda jovem, na sua Palmares Natal, lutou contra as dificuldades na vida. 


Nos seus trajetos entre o trabalho e a casa, passava à frente de um casarão de onde ecoavam acordes de clássicos ao piano que a extasiavam.


Das vezes em que ela se quedou à frente daquela casa para ouvir embevecida aquelas músicas, veio a decisão de realizar um sonho então distante: um dia aprenderia tocar piano.


Alaíde co-fundaria o Conservatório de Música de Olinda, e durante 40 anos foi professora de piano do Conservatório Pernambucano de Música.


Já fazem parte do calendário destas Instituições, as periódicas homenagens públicas que lhe fazem, durante as quais é cercada pelo carinho de seus numerosos alunos e admiradores.


Quase esqueci de dizer que é provável durante a festa de hoje, ela dançar um pouco com Elias, o seu neto.


Também exibirá com justa vaidade o progresso ao piano de uma das suas bisnetas, as quais, ela e Alaíde, se esmeram uma em aprender, a outra em ensinar.


E chegará a hora do bolo!


Os "parabéns pra você" soarão a plenos pulmões ao som doce e familiar do piano, tão presente na sua vida.


Todos comerão bolo e se despedirão desejosos do reencontro no ano seguinte.


Certo dia perguntei a Alaíde sobre aspectos da sua vida diária. A que horas dormia, a que horas acordava, qual era sua rotina, o que mais gostava de fazer...


Discorrendo sobre a sua vida, ela não esperou que eu lhe perguntasse o que achava da velhice.


Ela foi logo dizendo: "Gosto da minha velhice. Convivo bem com as limitações que ela me impõe. Só há uma coisa que dela eu não gosto! Definitivamente.


Curioso, quis saber o que era. Afinal, Alaíde sempre foi de gostar mais do que de desgostar das coisas.


Ela respondeu:

- A velhice dura pouco!


Mas o que a ela todos desejamos é um longo prosseguimento dessa boa velhice. Tão duradouro quanto o seu amor pela vida. 


sábado, 6 de abril de 2024

Uma Vida com Vento. (Parte 05/05.)

                                                           
Dom Joaquim Ferreira de Melo
 

O componente religioso católico sempre esteve presente de modo muito intenso entre as famílias do interior onde nasci. Disso me dei conta desde as minhas primeiras percepções do meio.


Havia os familiares, tios da minha mãe, que no interior de suas casas mantinham capelas. Um deles mandara construir uma capela tão grande, que ocupava um espaço externo, vizinho à residência. Na realidade uma igrejinha, para que no futuro, o filho do casal que ainda era seminarista, viesse a celebrar a sua primeira missa depois de ordenado.


O tio Tonho, cuja capela nem era tão grande, ouvi dizer que determinou o futuro religioso do seu filho Pedro, que se tornaria um destacado padre da Ordem Jesuíta.


O tio Joaquim Ferreira de Melo, meu tio-avô, irmão do avô Pedro e do tio Tonho, foi um dos fundadores do Seminário Diocesano do Crato. Terminaria seus dias como Bispo de Pelotas, no Rio Grande do Sul, onde há um monumento seu em um dos parques.


Nesse contexto onde sempre me pareceu reservado um lugar para o transcendente, assisti com naturalidade a minha mãe construir na nossa casa a maior das capelas.


Afinal diz-se que o maior dos templos é o que se arma no coração do homem, ou da mulher. Pois era ali, no coração de Alice, a minha mãe, que estava armado o templo da nossa casa.


Dotada de uma notável força interior, movida por muitas rezas, promessas, novenas e fé inabalável, envolvia a mim e ao meu pai, na reza noturna diária de um terço, antes de podermos dormir.


Não conto as vezes em que fingi estar adormecido, quando no meu quarto ela entrava para fazer sua convocação. Eu não devia fingir muito bem, pois não lembro de jamais ter escapado dos seus ofícios.


Isso tudo é para, concluindo, dizer que vivi e considero que ainda vivo, sob a proteção das orações da minha mãe "pelos seus".


Alice partiu muito cedo, vitimada por súbita leucemia, quando tinha 52 anos! Mas partiu continuando comigo, como todos aqueles que por mim um dia rezaram.


A Irmã Ângela continua a fazê-lo do plano terrestre, e simboliza esse passado que mesmo longínquo, continua presente.


Sempre atribuí os milagres benfazejos na minha vida ao resultado do empenho espiritual de Alice, não tendo nunca me faltado, em tempos de pandemia, o reforço vacinal espiritual da irmã Ângela e de uma comunidade inteira de irmãs fervorosas e solícitas a pedir intercessão pelos outros, por vocação.


Sempre me senti beneficiado por encontrar, além delas, quem se ocupasse de rezar por mim, me proporcionando assim poder sentir-me envolvido por energias tão elevadas, porque celestiais.


Ao escrever sobre tudo isso fui movido pelo desejo de expressar a todas o meu reconhecimento e a valorização desses cuidados.


Foi daí que veio e continua a vir o vento que soprando suave e permanentemente nas minhas costas, me tem  levado sempre em frente.


Uma Vida com Vento. (Parte 04/05.)



Conviver com alguém de uma hierarquia religiosa tão apartada, e ao mesmo tempo próxima por parentesco e amizade, sempre me levou a fazê-lo com respeito irreverente.


Sem perceber, preenchia os espaços das nossas conversas com itens de um repertório que eu denominaria por "piadas sacras". Nada demais que o leitor não conheça. Piadas tão conhecidas, ditas velhas, mas que para alguém tão ausente deste mundo eram sim uma novidade risível. E quem mais poderia levar até ela, em um Convento, tamanha licenciosidade?


Por instantes, já que me encontrava sentado, apropriado seria dizer que ali ocorria senão um stand-up, mas eventuais stand-down.


Não deixarei ninguém sem saber o teor de tão específica modalidade.


Sintetizaria poucas dessas narrativas, contando que certa vez a provoquei, perguntando:

- Por que, sobre o casamento, é usual a ele referirem-se   como "Santo Matrimônio"?


Após ouvir detalhada e circunstancial explicação, como a de que este havia sido um dos importantes sacramentos instituídos pelo próprio Cristo, era a minha vez de opinar.


- Melinha, há uma explicação atualizada para isso, que não corresponde ao que você explicou! Dizem ser notório saber que o real motivo de chamar o casamento de "Santo Matrimônio", é porque tem feito muitos mártires.


É claro que "piadas sacras" são esgotáveis e não costumo repeti-las, assim como com as demais, para quem já as escutou uma vez.


Algumas porém eu já havia testado contando a um padre que eu mal conhecia. Concluí que uma delas era mesmo muito boa, pois foi a única da qual ele riu!


Levei-a então ao Carmelo: Tratava-se de que o avião no qual um padre viajava fumaçou, e já perdia altitude, quando ele sem ter com quem dividir sua aflição, pois os demais passageiros dormiam calmamente, dirigiu-se à cabine de comando.


Ao entrar deparou-se com a tripulação ali reunida, e o clima era de pânico generalizado. O padre logo dirigiu-se ao piloto a quem perguntou: 

- O que está acontecendo?


O piloto espantado e suando por todos os poros, olhando para ele respondeu:

- Sr Padre, estamos todos a caminho do céu.

Ao que o padre desesperado replicou:

- Não diga uma desgraça dessa!


Também estariam sempre presentes estórias de celebridades e santos ao chegarem ao céu, e outras de quem, sem nenhuma celebridade, refletiam através das situações e reações ali vividas, desejos muito terrenos.


Assim, lembro que até mesmo lá no Convento foi bem compreendida e teve reação divertida, quando contei sobre o viúvo que anos depois da mulher, chegou assim como ela finalmente ao céu. Ainda extasiado com aquele lugar de indescritível beleza, e usufruindo de inominável bem-estar, ouviu a voz inconfundível da sua mulher que o chamava. Apressado, voltou-se para ela a dizer:

- Alto lá! O nosso trato foi "até que a morte nos separe".


O diapasão da convivência com pessoa tão distinta de nós, os comuns, pela sua reservada vida de permanentes atividades litúrgicas, terminou por me levar a compreender um pouco a vida virtuosa que ali levavam, e até mesmo a conhecer uma das madres superioras, a Irmã Mírian, a qual de sentir-se superior não tinha nada. Muito pelo contrário!


Conheci outras internas pois aqui e ali mais algumas me eram apresentadas, e lhes asseguro, a nenhuma delas jamais contei nenhuma piada.


Contudo a vontade irresistível de me manter respeitosamente jocoso, certo dia me ensinou uma lição.


Passava das dezenove horas de um dia qualquer, quando estando eu dentro de um grande Shopping Center, assisti passarem duas freiras carmelitas descalças.


Não era a primeira vez, desde a suavização das regras, que eu me deparara com freiras carmelitas fora do lugar. Anteriormente, durante uma concorrida feira de artesanato, eu flagrara uma freira carmelita quase sozinha! Só estava acompanhada por uma mulher à paisana.


Fotografei-a, e também discretamente fiz vídeos que tornavam inegável a evidência. 'Pari passo', enviei para o celular da irmã Ângela, acompanhado da minha devida denúncia.


Sim, hoje é permitido o porte de celular, ainda que costumem usá-lo minimamente. Do mesmo jeito que é recomendado aos que têm porte de armas. 


Não tardou chegar a pronta justificativa. Trata-se de uma Irmã de um Carmelo do Canadá, em breve viagem ao Recife, significando que "não está sob a jurisdição do nosso Carmelo".


Voltando porém ao Shopping Center, como o horário era favorável a que por lá no convento recebessem ligações telefônicas, tão logo avistei a presença distraída daquelas duas irmãs, tratei de ligar para o telefone fixo do Carmelo.


Que sorte que atendeu quem eu precisava que fosse. Ninguém menos que a própria irmã Ângela, a única com quem eu tomava certas liberdades.


Fui logo dizendo do que se tratava: Melinha, preciso fazer uma denúncia. Estou em um Shopping Center, onde acabo de ver passarem duas freiras carmelitas infratoras.


Enquanto eu continuava o relato, a Irmã-prima aderindo ao meu espírito de humor, sem que eu percebesse colocou na extensão a Madre Superiora.


Eu continuava: Sinto que é meu dever avisar isso que se passa, pois com certeza a Madre Superiora não está sabendo de nada. Bastaria ela fazer aí uma contagem, para saber quem depois de anoitecer continua na rua.


Foi quando fui interrompido pela voz inesperada da Irmã Mírian, que deu uma justificativa arrasadora: "Saiba que não são freiras carmelitas do nosso Convento, elas fazem parte, isso sim, da congregação da nossa vizinha cidade de João Pessoa".


Ser desconcertado por freiras foi uma experiência nova para mim. Antes eu já havia sido desapontado por um velhinha, no interior de uma livraria! Mas isso já é outra história, e foi talvez para eu ir me acostumando.


Agora tratava-se não menos que da Madre que naquele momento a todas regia.


Contudo não pensei em concluir esse registro de relacionamentos monásticos enveredando pelo veio em que enveredei! 


Retomarei, a seguir, para redirecionar o roteiro, indo a um ponto central que mais caracterizou as décadas de visitas periódicas ao Carmelo, onde desde ainda jovem a irmã Ângela me recebe, até os dias atuais, já aos seus 90 anos, completados em 30 de junho de 2024.


Assim farei para concluir esse relato, na parte final desse texto.

Uma Vida com Vento. (Parte 03/5.)

 



A existência do Convento das Carmelitas fez-se sempre real e presente para mim ao longo do tempo.

Na origem de ser assim, identifico o espírito religioso da minha mãe e a sua ligação familiar com o pai da futura irmã Ângela, de quem era prima em primeiro grau.


Oriunda de um dos sítios vizinhos pertencentes a tios da minha mãe, o sítio São José, Melinha cresceu em meio ao ambiente onde me esbaldei quando criança em mil brincadeiras e travessuras.


O lugar é no sul do Ceará, na fértil região do Cariri, situado a meio caminho entre o Crato e o Juazeiro do Norte.


Tinha engenho de açúcar do tio Tonho, avô de Melinha e irmão do meu avô materno Pedro. Tinha moagens periódicas para produção de alfenim, rapadura, batidas e mel de engenho.


Havia balanços para a criançada debaixo de árvores frondosas, abundância de cajueiros carregados de cajus, passeios de jumento, invasão furtiva da capela da Casa Grande para tocar a campainha... Uma inocente quebra de proibição.


Quando criança, por motivos terrenos, eu via com espanto e incompreensão o "chamado vocacional" que não raro recaía sobre a cabeça de jovens, e na minha visão daquele tempo, lá se iam eles deste mundo.


Foi assim com o filho do Sr José Honor, vizinho dos meus pais na antiga rua das Laranjeiras, que muito jovem ordenou-se padre sob o protesto das moças do lugar.


Estranhei também, lamentando por ela, a decisão da Irmã Ângela-Melinha por motivo diverso.


Como pode alguém abrir mão para sempre do paraíso da minha infância, tão real e desde já desfrutável, por um outro paraíso tão futuro e incerto?


Que interessante acho agora confrontar tais pensamentos de criança com os que vieram depois!


Os pensamentos atuais consideram a ação inexorável do  tempo que tudo transforma, exceto certas vontades.


Uma Vida com Vento. (Parte 02/05.)


Os regulamentos internos das Ordens espartano-católicas abrandaram-se com o tempo. Sinais vindos do Vaticano contribuiriam cada vez mais para, a partir do papado de João XXIII, acontecer uma paulatina suavização dos rigores.


A concessão de as internas passarem a poder ser vistas por gregos e troianos foi um primeiro passo revolucionário. Perderam o sentido as simbólicas setas pontiagudas das grades, que logo desapareceram. Restaram, como amostras de uma antiga tradição, as cortinas e a grade sem pontas. Uma grade gentil.


Minha consciência crítica desenvolvera-se admiravelmente desde que, ainda garoto, visitei pela primeira vez aquele lugar.


Ao escutar da prima freira sobre novas concessões comportamentais, não resisti de parabenizá-la comentando: tais mudanças fizeram vocês avançar. Não hesito em dizer que vocês agora estão a alcançar os costumes medievais.


Saírem em dupla por motivo justificado tornara-se permitido, ainda que não incentivado. Uma ampliação das permissões antes concedidas apenas para o caso de atendimentos médicos.


Assim é que certa manhã cheguei cedo ao Convento, e depois de tocar a campainha, veio à porta a irmã-porteira.


A ela expliquei o motivo da minha presença. Precisava falar com a irmã Ângela, nome de guerra de quem conheci por Melinha.


A irmã-porteira foi logo me dizendo: irmã Ângela não está! Ela foi ao oculista.


Agradeci e me despedi sem mais nada perguntar. Era grande a distância ao Carmelo do lugar de onde eu viera. Uma longa viagem perdida!


Não custava porém insistir, afinal precisava falar com ela o quanto antes. Voltei para casa, planejando retornar ao fim do mesmo dia.


No finzinho da tarde eis que voltei lá outra vez. Depois do habitual toque na campainha à entrada, abre-se a porta e a mesma freirinha-porteira surgiu à minha frente.


Digo: Boa tarde irmã, voltei para falar com a irmã Ângela.


Surpreendeu-me o olhar de espanto que ela fez ao me ver e ouvir. Reações maiores do que seriam de esperar ao constatar uma simples insistência.


Recuperada do espanto de me rever, ela falou: "Mas já não lhe disse que ela foi ao oculista?!!!


Ao que retruquei: Sim, mas isso foi às nove horas da manhã! Será que sendo quase cinco horas da tarde já não há tempo de ela ter voltado?


Ao que a freirinha finalmente me explicou: O oculista dela é em Belo Horizonte, nas Minas Gerais.


Uma Vida com Vento. (Parte 01/05).




Creio que nem mesmo ela conseguiria explicar o que lhe aconteceu! A decisão sobre o seu futuro sobreveio sem margem de dúvida, certeira como a seta no centro de um alvo; antes mesmo que completasse os seus 18 anos!


Seria preciso, antes de dar o passo decisivo, obter a aceitação sobretudo do pai. Quanto aos amigos, eles terminariam assimilando. O tempo que ainda faltava para a sua maioridade, a ajudaria a consolidar o que para si já estava resolvido.


Muitos que a conheciam chegavam a duvidar que ela levasse à frente aquele plano, em face à sua natureza aparentemente comum ou "normal" que não a diferenciava de outras moças com ideais seculares.


Fato é que, aos 20 anos, foi recebida, vinda do interior para a capital, na então ainda pequena comunidade das freiras Carmelitas Descalças em Recife.


O Convento, de uma Ordem então reconhecida por sua sobriedade e rigor, situava-se em um bairro da cidade, cuja rua por coincidência e adequação, tinha o nome de um padre: Rua Padre Roma.


Anos depois, com o aumento do burburinho que prenunciava a agitação que terminaria por predominar naquele bairro, o Convento foi transferido para um local até hoje relativamente pacato, na vizinha cidade de Camaragibe, que faz parte do grande Recife.


As duras regras de então, demandavam daquelas que escolhiam entrar para a Ordem, despedirem-se do mundo exterior. Jamais veriam os outros, e os outros jamais as veriam.


Havia porém uma exceção. Caberia à própria mãe da postulante continuar a vê-la, ainda que apenas nas ocasiões em que a visita lhe fosse concedida, e pela duração permitida.


Os locutórios onde esses raros encontros aconteciam eram divididos em dois. A parte interna com ligação para o interior do Convento, ou da clausura, e o outro lado que fazia parte do planeta Terra.


Para melhor explicitar essa fronteira, havia uma cortina interna, e por fora uma grade de ferro, na qual, em espaços regulares, haviam setas pontiagudas.


Para agravar os rigores de vida a que as freiras carmelitas se submetiam, as mães de várias delas já haviam morrido. Teriam então perdido o direito de ver alguém? Não propriamente! Em casos assim, caberia a generosa concessão da substituição da mãe falecida por alguém da família em posição de fazê-lo.


Foi desse jeito que coube à minha mãe, por justa escolha, tornar-se beneficiada de poder vê-la sempre que a visitasse.


Tais condições restritivas eram vigentes quando eu, ainda garoto, acompanhei os meus pais ao Carmelo para uma visita à nossa prima Melinha.


Eu ia com o sentimento de que estava prestes a vivenciar algo tão incomum quanto estranho. Mas ainda não tinha a consciência formada, de modo a formular qualquer opinião crítica a partir do exercício da razão. Porém, naturalmente, esse não era o caso do meu pai!


Os primeiros movimentos após o nosso acesso à parte terrena do locutório, logo após o arrastar cauteloso das cadeiras nas quais nos sentaríamos, era o de ouvir girar o trinco de uma porta invisível que em seguida rangeria.


Era também previsível que segundos depois a cortina seria aberta. Aberta parcialmente. De frente à abertura, já estava posicionada a minha mãe.


Elas então se falavam e se viam. Quanto a mim e ao meu pai, sentados convenientemente afastados, curiosos, só ouvíamos.


E como já falei, meu pai já tinha opiniões formadas. Ele bem que resistiu um pouco, considerando os seus padrões. Houve contudo um momento, em que sem nada avisar, levantou-se da cadeira. Segurou firme na grade tendo o cuidado para não se ferir na ponta das setas.  Como se tentasse arrancar a grade, antes de retirar-se bradou para o Convento ouvir: "Isso é um absurdo!"


A visita mal começara e ele a dera para si por encerrada. Daquele jeito para ele não valia a pena!