Creio que nem mesmo ela conseguiria explicar o que lhe aconteceu! A decisão sobre o seu futuro sobreveio sem margem de dúvida, certeira como a seta no centro de um alvo; antes mesmo que completasse os seus 18 anos!
Seria preciso, antes de dar o passo decisivo, obter a aceitação sobretudo do pai. Quanto aos amigos, eles terminariam assimilando. O tempo que ainda faltava para a sua maioridade, a ajudaria a consolidar o que para si já estava resolvido.
Muitos que a conheciam chegavam a duvidar que ela levasse à frente aquele plano, em face à sua natureza aparentemente comum ou "normal" que não a diferenciava de outras moças com ideais seculares.
Fato é que, aos 20 anos, foi recebida, vinda do interior para a capital, na então ainda pequena comunidade das freiras Carmelitas Descalças em Recife.
O Convento, de uma Ordem então reconhecida por sua sobriedade e rigor, situava-se em um bairro da cidade, cuja rua por coincidência e adequação, tinha o nome de um padre: Rua Padre Roma.
Anos depois, com o aumento do burburinho que prenunciava a agitação que terminaria por predominar naquele bairro, o Convento foi transferido para um local até hoje relativamente pacato, na vizinha cidade de Camaragibe, que faz parte do grande Recife.
As duras regras de então, demandavam daquelas que escolhiam entrar para a Ordem, despedirem-se do mundo exterior. Jamais veriam os outros, e os outros jamais as veriam.
Havia porém uma exceção. Caberia à própria mãe da postulante continuar a vê-la, ainda que apenas nas ocasiões em que a visita lhe fosse concedida, e pela duração permitida.
Os locutórios onde esses raros encontros aconteciam eram divididos em dois. A parte interna com ligação para o interior do Convento, ou da clausura, e o outro lado que fazia parte do planeta Terra.
Para melhor explicitar essa fronteira, havia uma cortina interna, e por fora uma grade de ferro, na qual, em espaços regulares, haviam setas pontiagudas.
Para agravar os rigores de vida a que as freiras carmelitas se submetiam, as mães de várias delas já haviam morrido. Teriam então perdido o direito de ver alguém? Não propriamente! Em casos assim, caberia a generosa concessão da substituição da mãe falecida por alguém da família em posição de fazê-lo.
Foi desse jeito que coube à minha mãe, por justa escolha, tornar-se beneficiada de poder vê-la sempre que a visitasse.
Tais condições restritivas eram vigentes quando eu, ainda garoto, acompanhei os meus pais ao Carmelo para uma visita à nossa prima Melinha.
Eu ia com o sentimento de que estava prestes a vivenciar algo tão incomum quanto estranho. Mas ainda não tinha a consciência formada, de modo a formular qualquer opinião crítica a partir do exercício da razão. Porém, naturalmente, esse não era o caso do meu pai!
Os primeiros movimentos após o nosso acesso à parte terrena do locutório, logo após o arrastar cauteloso das cadeiras nas quais nos sentaríamos, era o de ouvir girar o trinco de uma porta invisível que em seguida rangeria.
Era também previsível que segundos depois a cortina seria aberta. Aberta parcialmente. De frente à abertura, já estava posicionada a minha mãe.
Elas então se falavam e se viam. Quanto a mim e ao meu pai, sentados convenientemente afastados, curiosos, só ouvíamos.
E como já falei, meu pai já tinha opiniões formadas. Ele bem que resistiu um pouco, considerando os seus padrões. Houve contudo um momento, em que sem nada avisar, levantou-se da cadeira. Segurou firme na grade tendo o cuidado para não se ferir na ponta das setas. Como se tentasse arrancar a grade, antes de retirar-se bradou para o Convento ouvir: "Isso é um absurdo!"
A visita mal começara e ele a dera para si por encerrada. Daquele jeito para ele não valia a pena!

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