A existência do Convento das Carmelitas fez-se sempre real e presente para mim ao longo do tempo.
Na origem de ser assim, identifico o espírito religioso da minha mãe e a sua ligação familiar com o pai da futura irmã Ângela, de quem era prima em primeiro grau.
Oriunda de um dos sítios vizinhos pertencentes a tios da minha mãe, o sítio São José, Melinha cresceu em meio ao ambiente onde me esbaldei quando criança em mil brincadeiras e travessuras.
O lugar é no sul do Ceará, na fértil região do Cariri, situado a meio caminho entre o Crato e o Juazeiro do Norte.
Tinha engenho de açúcar do tio Tonho, avô de Melinha e irmão do meu avô materno Pedro. Tinha moagens periódicas para produção de alfenim, rapadura, batidas e mel de engenho.
Havia balanços para a criançada debaixo de árvores frondosas, abundância de cajueiros carregados de cajus, passeios de jumento, invasão furtiva da capela da Casa Grande para tocar a campainha... Uma inocente quebra de proibição.
Quando criança, por motivos terrenos, eu via com espanto e incompreensão o "chamado vocacional" que não raro recaía sobre a cabeça de jovens, e na minha visão daquele tempo, lá se iam eles deste mundo.
Foi assim com o filho do Sr José Honor, vizinho dos meus pais na antiga rua das Laranjeiras, que muito jovem ordenou-se padre sob o protesto das moças do lugar.
Estranhei também, lamentando por ela, a decisão da Irmã Ângela-Melinha por motivo diverso.
Como pode alguém abrir mão para sempre do paraíso da minha infância, tão real e desde já desfrutável, por um outro paraíso tão futuro e incerto?
Que interessante acho agora confrontar tais pensamentos de criança com os que vieram depois!
Os pensamentos atuais consideram a ação inexorável do tempo que tudo transforma, exceto certas vontades.
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