sábado, 6 de abril de 2024

Uma Vida com Vento. (Parte 02/05.)


Os regulamentos internos das Ordens espartano-católicas abrandaram-se com o tempo. Sinais vindos do Vaticano contribuiriam cada vez mais para, a partir do papado de João XXIII, acontecer uma paulatina suavização dos rigores.


A concessão de as internas passarem a poder ser vistas por gregos e troianos foi um primeiro passo revolucionário. Perderam o sentido as simbólicas setas pontiagudas das grades, que logo desapareceram. Restaram, como amostras de uma antiga tradição, as cortinas e a grade sem pontas. Uma grade gentil.


Minha consciência crítica desenvolvera-se admiravelmente desde que, ainda garoto, visitei pela primeira vez aquele lugar.


Ao escutar da prima freira sobre novas concessões comportamentais, não resisti de parabenizá-la comentando: tais mudanças fizeram vocês avançar. Não hesito em dizer que vocês agora estão a alcançar os costumes medievais.


Saírem em dupla por motivo justificado tornara-se permitido, ainda que não incentivado. Uma ampliação das permissões antes concedidas apenas para o caso de atendimentos médicos.


Assim é que certa manhã cheguei cedo ao Convento, e depois de tocar a campainha, veio à porta a irmã-porteira.


A ela expliquei o motivo da minha presença. Precisava falar com a irmã Ângela, nome de guerra de quem conheci por Melinha.


A irmã-porteira foi logo me dizendo: irmã Ângela não está! Ela foi ao oculista.


Agradeci e me despedi sem mais nada perguntar. Era grande a distância ao Carmelo do lugar de onde eu viera. Uma longa viagem perdida!


Não custava porém insistir, afinal precisava falar com ela o quanto antes. Voltei para casa, planejando retornar ao fim do mesmo dia.


No finzinho da tarde eis que voltei lá outra vez. Depois do habitual toque na campainha à entrada, abre-se a porta e a mesma freirinha-porteira surgiu à minha frente.


Digo: Boa tarde irmã, voltei para falar com a irmã Ângela.


Surpreendeu-me o olhar de espanto que ela fez ao me ver e ouvir. Reações maiores do que seriam de esperar ao constatar uma simples insistência.


Recuperada do espanto de me rever, ela falou: "Mas já não lhe disse que ela foi ao oculista?!!!


Ao que retruquei: Sim, mas isso foi às nove horas da manhã! Será que sendo quase cinco horas da tarde já não há tempo de ela ter voltado?


Ao que a freirinha finalmente me explicou: O oculista dela é em Belo Horizonte, nas Minas Gerais.


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