sábado, 6 de abril de 2024

Uma Vida com Vento. (Parte 04/05.)



Conviver com alguém de uma hierarquia religiosa tão apartada, e ao mesmo tempo próxima por parentesco e amizade, sempre me levou a fazê-lo com respeito irreverente.


Sem perceber, preenchia os espaços das nossas conversas com itens de um repertório que eu denominaria por "piadas sacras". Nada demais que o leitor não conheça. Piadas tão conhecidas, ditas velhas, mas que para alguém tão ausente deste mundo eram sim uma novidade risível. E quem mais poderia levar até ela, em um Convento, tamanha licenciosidade?


Por instantes, já que me encontrava sentado, apropriado seria dizer que ali ocorria senão um stand-up, mas eventuais stand-down.


Não deixarei ninguém sem saber o teor de tão específica modalidade.


Sintetizaria poucas dessas narrativas, contando que certa vez a provoquei, perguntando:

- Por que, sobre o casamento, é usual a ele referirem-se   como "Santo Matrimônio"?


Após ouvir detalhada e circunstancial explicação, como a de que este havia sido um dos importantes sacramentos instituídos pelo próprio Cristo, era a minha vez de opinar.


- Melinha, há uma explicação atualizada para isso, que não corresponde ao que você explicou! Dizem ser notório saber que o real motivo de chamar o casamento de "Santo Matrimônio", é porque tem feito muitos mártires.


É claro que "piadas sacras" são esgotáveis e não costumo repeti-las, assim como com as demais, para quem já as escutou uma vez.


Algumas porém eu já havia testado contando a um padre que eu mal conhecia. Concluí que uma delas era mesmo muito boa, pois foi a única da qual ele riu!


Levei-a então ao Carmelo: Tratava-se de que o avião no qual um padre viajava fumaçou, e já perdia altitude, quando ele sem ter com quem dividir sua aflição, pois os demais passageiros dormiam calmamente, dirigiu-se à cabine de comando.


Ao entrar deparou-se com a tripulação ali reunida, e o clima era de pânico generalizado. O padre logo dirigiu-se ao piloto a quem perguntou: 

- O que está acontecendo?


O piloto espantado e suando por todos os poros, olhando para ele respondeu:

- Sr Padre, estamos todos a caminho do céu.

Ao que o padre desesperado replicou:

- Não diga uma desgraça dessa!


Também estariam sempre presentes estórias de celebridades e santos ao chegarem ao céu, e outras de quem, sem nenhuma celebridade, refletiam através das situações e reações ali vividas, desejos muito terrenos.


Assim, lembro que até mesmo lá no Convento foi bem compreendida e teve reação divertida, quando contei sobre o viúvo que anos depois da mulher, chegou assim como ela finalmente ao céu. Ainda extasiado com aquele lugar de indescritível beleza, e usufruindo de inominável bem-estar, ouviu a voz inconfundível da sua mulher que o chamava. Apressado, voltou-se para ela a dizer:

- Alto lá! O nosso trato foi "até que a morte nos separe".


O diapasão da convivência com pessoa tão distinta de nós, os comuns, pela sua reservada vida de permanentes atividades litúrgicas, terminou por me levar a compreender um pouco a vida virtuosa que ali levavam, e até mesmo a conhecer uma das madres superioras, a Irmã Mírian, a qual de sentir-se superior não tinha nada. Muito pelo contrário!


Conheci outras internas pois aqui e ali mais algumas me eram apresentadas, e lhes asseguro, a nenhuma delas jamais contei nenhuma piada.


Contudo a vontade irresistível de me manter respeitosamente jocoso, certo dia me ensinou uma lição.


Passava das dezenove horas de um dia qualquer, quando estando eu dentro de um grande Shopping Center, assisti passarem duas freiras carmelitas descalças.


Não era a primeira vez, desde a suavização das regras, que eu me deparara com freiras carmelitas fora do lugar. Anteriormente, durante uma concorrida feira de artesanato, eu flagrara uma freira carmelita quase sozinha! Só estava acompanhada por uma mulher à paisana.


Fotografei-a, e também discretamente fiz vídeos que tornavam inegável a evidência. 'Pari passo', enviei para o celular da irmã Ângela, acompanhado da minha devida denúncia.


Sim, hoje é permitido o porte de celular, ainda que costumem usá-lo minimamente. Do mesmo jeito que é recomendado aos que têm porte de armas. 


Não tardou chegar a pronta justificativa. Trata-se de uma Irmã de um Carmelo do Canadá, em breve viagem ao Recife, significando que "não está sob a jurisdição do nosso Carmelo".


Voltando porém ao Shopping Center, como o horário era favorável a que por lá no convento recebessem ligações telefônicas, tão logo avistei a presença distraída daquelas duas irmãs, tratei de ligar para o telefone fixo do Carmelo.


Que sorte que atendeu quem eu precisava que fosse. Ninguém menos que a própria irmã Ângela, a única com quem eu tomava certas liberdades.


Fui logo dizendo do que se tratava: Melinha, preciso fazer uma denúncia. Estou em um Shopping Center, onde acabo de ver passarem duas freiras carmelitas infratoras.


Enquanto eu continuava o relato, a Irmã-prima aderindo ao meu espírito de humor, sem que eu percebesse colocou na extensão a Madre Superiora.


Eu continuava: Sinto que é meu dever avisar isso que se passa, pois com certeza a Madre Superiora não está sabendo de nada. Bastaria ela fazer aí uma contagem, para saber quem depois de anoitecer continua na rua.


Foi quando fui interrompido pela voz inesperada da Irmã Mírian, que deu uma justificativa arrasadora: "Saiba que não são freiras carmelitas do nosso Convento, elas fazem parte, isso sim, da congregação da nossa vizinha cidade de João Pessoa".


Ser desconcertado por freiras foi uma experiência nova para mim. Antes eu já havia sido desapontado por um velhinha, no interior de uma livraria! Mas isso já é outra história, e foi talvez para eu ir me acostumando.


Agora tratava-se não menos que da Madre que naquele momento a todas regia.


Contudo não pensei em concluir esse registro de relacionamentos monásticos enveredando pelo veio em que enveredei! 


Retomarei, a seguir, para redirecionar o roteiro, indo a um ponto central que mais caracterizou as décadas de visitas periódicas ao Carmelo, onde desde ainda jovem a irmã Ângela me recebe, até os dias atuais, já aos seus 90 anos, completados em 30 de junho de 2024.


Assim farei para concluir esse relato, na parte final desse texto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário