quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Bons Companheiros!


Chamou-me atenção o homem sem cachorro que enquanto caminhava no parque, inspirava tédio em seus mínimos movimentos. Tinha a energia de um elétron! Achei admirável que mesmo assim tenha encontrado forças para caminhar!

Não observo ninguém, que trouxe o cachorro, tão deprimido assim! Seriam os cães uma espécie de ansiolítico para os homens?

Penso que enquanto apanham seus cocôs com a mão envolta em plástico, devem experimentar os mesmos efeitos de uma meditação. Por instantes, não há nada nas suas mentes senão o dejeto.

Por outro lado, alguns donos submetem os seus cães, e outros  são submetidos por eles. Basta observar os tirantes esticados e quem arrasta quem. Tudo depende da relação entre os tamanhos e pesos do cachorro e do seu dono.

Mas passeios com caninos têm outras nuances. Aqui e ali, dono e cachorro se submetem às vontades um do outro. Nisso há um exercício de compreensão mútua, aceitação da vontade do outro, paciência... 

Entretanto há certa dissimetria! O homem submete-se ao tempo necessário a que o animal satisfaça suas necessidades fisiológicas. O mesmo não é necessário da parte do cachorro.

Em contrapartida, o homem aproveita a sua companhia canina, para sociabilizar com seus pares que também fazem esse tipo de dupla. 

Parados e tomando o espaço dos sem cachorro que passavam, vi e ouvi dialogarem um homem e uma mulher, enquanto seus cachorros se cheiravam:

- Meu cão é incrível! Dizia a mulher. É simplesmente inacreditável o que ele faz! E olhe que não é treinado! Heim? E o seu?

- O meu é um abestalhado! 

Em geral os cães são mais risonhos e alegres que seus donos. Além do agradável contraste com tal sisudez, os cães ainda emprestam a eles um momentâneo sentido de utilidade ao passearem juntos.

Logo mais, e outra vez em casa, os cães reassumirão a sua finalidade de "só ser". Os donos se entregarão às suas atividades rotineiras, é provável que se sentindo em boa disposição, em parte pelas benesses da caminhada matinal, em parte pelo que lhes foi proporcionado por instantes em muito boa companhia.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Caminho de Tristeza Inesperada.


A jornada primeira do Caminho é o trecho Saint-Jean-Pied-De-Port - Roncesvalles. Os peregrinos em geral concordam que subir a pé os Pirineus, e em seguida descer meio que de repente, faz desse percurso o mais desafiador.

Para um bom êxito ao longo do Caminho, não canso de recomendar aos que se dispõem a fazê-lo, dedicar-se com afinco à preparação.

Portanto antes mesmo de por o pé na estrada, o Caminho já se revela metafórico. Não deve ser também assim pelos caminhos da vida?

Foi com os músculos alongados e fortalecidos, com todo o corpo habituado às longas caminhadas a que fora submetido durante um ano inteiro de fase preparatória, que cumpri altivo esse primeiro dia.

Diria, até, que tecnicamente atento a como evitar os contratempos. Praticava o jeito correto de vencer subidas e descidas íngremes, como evitar bolhas nos pés, cuidados alimentares, com a hidratação...

Para ajudar ao longo de todo Caminho, mas sobretudo nas descidas, usava os indispensáveis "sticks"- bastões de caminhada.

As paisagens deslumbrantes compensaram todo o esforço, e um bônus muito especial foi a pausa no alto dos Pirineus, diante da pedra onde no ano 778 d.C., pousaram o corpo de Rolando, primo de Carlos Magno, mortalmente ferido em batalha. 

Ali também estivera o próprio Carlos Magno, que avisado do ocorrido, voltou do lugar próximo onde então se encontrava. 

Carlos Magno, porém, estava a cavalo, e eu a pé!

O local desse lamentável marco histórico não poderia ser mais bem situado. Eu não encontraria, ao longo de todo o Caminho, lugar mais deslumbrante para morrer!

No fim do dia, próximo a Roncesvalles, iniciaríamos a descida, e eu descobriria que, a pé, descer exige maior esforço físico que subir.

Músculos geralmente pouco solicitados são duramente requisitados. Os "sticks" são fundamentais. Tornam-se nas descidas os maiores amigos dos joelhos.

A descrição no plural desses instantes iniciais do Caminho, deve-se à presença de dois valorosos companheiros.

Cearenses moradores de Fortaleza, embarcamos para Madrid em voos que saíram quase na mesma hora do Recife, onde vivo, e da capital do Ceará.

Encontramo-nos em Lisboa, de onde prosseguimos juntos até quando, em Roncesvalles, o amigo Ivo recebeu a triste notícia da morte de sua mãe.

O prestativo Juan, que nos transportara de Pamplona a Saint - Jean em sua van, voltaria à cena, transportando-o de volta a Pamplona e ajudando-o a conseguir voo para o Brasil.

Alcides, o outro companheiro, após mais duas jornadas, abreviaria sua permanência pulando etapas e retornando também prematuramente.

Mas eu concluiria esse resumido relato dos acontecimentos do primeiro dia, expressando  uma muito boa impressão, e diria até que  enorme admiração pessoal, que senti por mim mesmo lá pelo quilômetro 25. 😅

Havíamos descido 2/3 do declive final. Roncesvalles estava quase à vista e ainda bem que àquela época estava escurecendo muito tarde.

É sem pretensão que digo, mas rendido à realidade: até eu já me sentia cansado. Andando um pouco à frente, parei à espera dos demais. Como demorassem, terminei por retornar um pouco, e encontrei Ivo que se sentara. Ao me ver foi logo dizendo: "Daqui ninguém me tira. Daqui não saio nunca mais!"

Alcides, que ainda conseguia não entregar os pontos, foi convenientemente solidário. Olhou para mim e disse: "Prossiga. Quanto a mim, vou fazer companhia a ele."

Aguardei-os em Roncesvalles, desejando que após o merecido descanso também  lá chegassem, apreensivo de que não demorassem a fazê-lo, pois não tardaria escurecer.

Enquanto esperava, acrescentei às excitações até então vividas, e sobretudo por ter nascido  mais de 20 anos antes deles, o sentimento de que pudera me preparar muito bem para o que tivera de enfrentar.

Esse porém era um sentimento que na vida eu já tivera várias vezes.

Senti ali certa animação pelo caminho que apenas começara.

Caminho de Surpresas & Metáforas.

 


Para começar era preciso ir para o ponto de partida.

De lá sairíamos a pé, caminhando os primeiros dos 775 Km.

Ponto inicial, Saint-Jean-Pied-De-Port, pequena cidade ao sul da França. Destino final, Santiago de Compostela, Espanha.

Experimentávamos os últimos momentos, dos próximos 30 dias, no conforto de sermos levados em uma Van que há pouco deixara a cidade de Pamplona, guiada por nosso condutor Juan.

Habituado a transportar caminhantes de todas as partes do mundo que se aventuravam pelo "Chemin Saint Jacques de Compostelle", Juan logo entabulou variadas e sempre muito interessantes conversas.

Já nos aproximávamos de Saint-Jean, quando ele passou a discorrer sobre que estávamos prestes a iniciar uma experiência única, extraordinária, verdadeiramente inesquecível.

Iniciou uma rica e detalhada descrição do trajeto que faríamos, suas belas paisagens, pontos históricos relevantes, comidas típicas, melhores albergues...

Falou sobre a diversidade das pessoas que encontraríamos ao longo da nossa jornada, dizia que não nos surpreendêssemos diante da possibilidade de eventualmente encontrar celebridades!

Pareceu seguir uma ordem cronológica na sua exposição, ao deixar para o fim seus comentários sobre a chegada ao destino final. Falou-nos sobre o misto de alegria e tristeza que adviria por concluirmos tempos tão exitosos, ao finalmente nos depararmos com a majestosa Catedral de Santiago de Compostela.

Por tudo isso, contado com tanto entusiasmo, e sendo Juan espanhol e morador de uma pequena vila entre Pamplona e Saint-Jean-Pied-De-Port, perguntei-lhe:

- Juan, quantas vezes você fez o Caminho de Santiago?

Ele, sorrindo, respondeu:

- Nenhuma.

Nosso Caminho ainda nem começara, e eu já me divertia um bocado!


sábado, 16 de dezembro de 2023

Deixando Ficar.



As viagens que Sylvia e eu fazíamos ao Rio de Janeiro, eram pontuadas pelo reencontro com um carioca singular.

Ivo, padrinho de batismo de Sylvia, expansivo e vibrante, para que suas características de carioca fossem ainda mais marcantes, tinha ascendência italiana.

Assim como Sylvio, pai de Sylvia, Ivo Vinante era filho único de imigrantes europeus. Ivo de pais italianos, Sylvio, de pais portugueses.

Encontraram-se ainda crianças no Rio de Janeiro, e se tornaram amigos-irmãos.

Quando o conheci já havia vivido mais de sete décadas e, há muito viúvo, continuava vivendo.

Vivendo no sentido de quem faz o contraponto aos que seguem apenas  existindo.

Encontros com a turma da peteca na praia de Ipanema, chopes no Bar Do Cesar, à rua Vinicius de Moraes, onde também fica o "Garota de Ipanema", lá Vinicius compôs a famosa música que deu nome ao bar.

Enturmado ele sempre foi, até mesmo com o pessoal que ia comprar pão na mesma padaria de Jacarepaguá, bairro em que passou a morar quando se mudou de Copacabana.

Sempre achei a comunicação fácil uma marca do carioca, à semelhança dos baianos, mas não só deles.

Em outros estados desse imenso país, há habitantes comunicativos como os cariocas. 

Contudo observo os cariocas vocacionados para uma comunicação temperada pelo bom humor. Um bom humor peculiar que espero não desapareça com eventuais mudanças sociais da cidade.

A manifestação desse espírito alegre do carioca Ivo, às vezes extravasava quando , dando vazão ao seu gosto pela ópera, abria o vozeirão e cantava.

Cantava a plenos pulmões da mesa do bar que dividia com amigos. Amigos de infância, e aqueles feitos de última hora,

Aos moradores dos edifícios próximos era negado o direito de não escuta-lo. Assim é que ele contava que um dia foi surpreendido por uma mulher que vindo de um dos prédios, o identificou.

Dirigindo-se a ele, ela assim falou: Eu precisava conhecê-lo, pois "nunca te ví, mas sempre te amei!"

Quando ele conversava, os assuntos fluíam e costumavam mudar de tônica como é comum a mudança de tons em sinfonias de Beethoven.

Certa vez comentou uma impressionante sensação de "déjà vu" que muito o intrigou ao ver pela primeira vez uma reprodução de uma pintura francesa da Belle Époque.

Ao comentar o ocorrido com um amigo, este lhe recomendou visitar um Centro Espírita. Poderia ser coisa de outra vida.

Estimulado por esse amigo, lá foram os dois para escutar de um espírita uma história bem intrigante!

Disse-lhe o médium: "Você tem consigo um espírito que interfere no seu comportamento. Trata-se de alguém com um grande desejo de uma reencarnação precoce."

Não faz muito tempo, e ele, um jovem soldado, lutava em plena primeira guerra mundial.

No esplendor da sua mocidade, era cheio de vida e tinha grandes propósitos futuros, quando súbita e inesperadamente, desencarnou.

Por tão vívidos anseios não realizados é que ele viria a acompanhar Ivo, ajudando-o a realizar seus próprios desejos de vida frustrados.

Terminado esse relato, não hesitei em perguntar-lhe: Você não cogitou de aproveitar a ocasião para que as pessoas do Centro Espírita o afastassem de você?

Ao que o Ivo, entre goles de chope no Bar Do Cesar, e boas risadas, respondeu: "O quê?!!! Deixa ele aí! Não quero mudar coisa nenhuma!"

Foi com esse ânimo, que a todos arredor anima, que fomos uma tarde, os três, visitar Dona Guior.

Cunhada do Ivo, portanto irmã da já falecida madrinha de Sylvia, ela sempre a recebia com muita alegria e carinho quando das suas viagens a trabalho no Rio.

Neste dia nos foi dado, consternados, testemunhar o estado em que lá jazia uma senhora que por longos anos dera seus préstimos à família.

Querida por todos, permanecia cercada de atenções, porém em condições irreversíveis, das quais se diria em "pele e osso".

Ao sairmos, lembro do olhar compassivo do Ivo ao dizer: "pobre dela! Não chegará ao final deste ano!" E o final do ano já se aproximava.

Quis a vida, ou a deusa grega da Fortuna, a quem se atribuía a distribuição entre os humanos dos bons e dos maus augúrios, que antes que acontecesse assim com aquela senhora, fosse ele, Ivo,  a ir ao encontro de Deus!

Recebemos em casa, no Recife, a triste notícia do seu internamento, e não muito tempo depois, a notícia de sua partida.

A lembrança deste fato veio a propósito do que há mais de 2000 anos foi preconizado pelo filósofo Sêneca quando disse: "Ninguém é mais frágil do que alguém."

Porém, vão-se os viventes, mas permanecem nas nossas memórias, nas lembranças dos que os conheceram, os momentos alegres e prazerosos que com eles vivemos.

sábado, 2 de dezembro de 2023

Reflexões de Fim de Ano.

 


"Quando as coisas se assenhoram do espírito as palavras ocorrem".

... e a renovação do que nos assenhora é o que permite a cada momento expressar aquilo que nos vai na alma.

Começam e terminam os dias, e as noites, as semanas e os meses,  também os anos, os séculos e os milênios.

Quando cai a cortina dando por encerrado cada ano, costumo valorizar esse aspecto cíclico que a vida nos impõe.

Divide-se o tempo no antes e no depois. 

Embora não necessariamente, os humanos podem aceitar o convite que a natureza lhes faz ao final de cada ciclo e início do seguinte: convite a um "pit stop".

Nos tempos escolares a mudança de ciclo para mim era simbolizada pela troca de caderno velho por caderno novo. Novinho em folha! Também o livro da série anterior, quando substituído pelo da série "mais adiantada", despertava em mim o sentido de avanço, aceitação de novos desafios, renovação de bons propósitos.

Novos ciclos, novos tempos, como dizia o grande poeta Manoel de Barros:

"O tempo só anda de ida. A gente nasce, cresce, envelhece, morre. Para não morrer é só amarrar o tempo no poste. Eis a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste!"

Mas cadê o tempo? Só vejo o poste!

Talvez o tempo não devesse mesmo ser amarrado. Precisamos dele para sermos levados a contemplar as coisas por ângulos diversos, aprimorar certas compreensões, aceitar realidades difíceis, aprendermos a nos inquietar melhor, preferencialmente quase não nos inquietar.

Também não amarrar o tempo, para eu poder aprofundar minha ignorância sobre questões existenciais, o que será sempre tão intrigante quanto prazeroso.

Nem que seja para um dia concluir que precisamos de mais tempo do que teremos, para mesmo assim não compreender quase nada!

Até aqui a minha profunda admiração pela natureza humana, no pior dos sentidos, tornou-se hoje ratificada pelos anos que já tive de atenta observação.

Nunca faltaram as guerras, as mentiras que as justificassem, e as deslealdades outras nos seus mais variados aspectos.

Em meio, contudo, a um mar de incertezas, em que paira o potencial nuclear de um mundo insano, me ocorre o conceito chinês do Yin e Yang. Ao frio se contrapondo o quente, ao claro o escuro, ao errado o correto, e sobretudo o bem se contrapondo ao mal.

Entretanto algumas constatações sobre a nossa realidade me parecem aceitáveis: "Pax in Vita nula sincera."- A paz nessa vida não é possível.

Outras tantas constatações, no campo subjetivo, permanecem um imenso desafio. Afinal como é dito na notável metáfora da vida, de Clarice Lispector: "Ninguém descansa em cadeira de dentista."

Não raro, onde quer que busque conhecimento, lá encontro a ambiguidade, os tons evasivos de quem não sabe o que realmente interessa.

Nos provérbios e citações, as contradições: "Quem espera sempre alcança.", " Quem espera cansa." - "O que não me mata me fortalece.", "O que não me mata me deixa arrasado."...

Quanto aos sistemas filosóficos sobre a mente, dividem-se em dois campos amplamente opostos e portanto contraditórios. Unicidade? Ou dualidade? 

Seria a consciência produzida pelo cérebro, e assim teria a alma uma origem material, destinada a se extinguir com o cérebro que a produziu? Ou serão cérebro e consciência aspectos separados e independentes, fadada então a alma a "viver" mesmo após a morte do cérebro?

Os maiores defensores de cada ideia, não têm a segurança da correção do que defendem, que só uma demonstração matemática lhes daria.

Seguimos assim  morando vizinhos: o crente e o ateu, o espiritualista e o materialista, o democrata e o fascista, o palestino e o judeu...

É pertinente lembrar que em um gesto de honestidade e corajosa sinceridade, o poeta Mário Quintana em versos diz:

"O milagre não é dar a vida ao corpo extinto,

 Ou a luz ao cego, ou eloquência ao mudo...

 Nem mudar a água pura em vinho tinto...

 Milagre é acreditarem nisso tudo!"

Por outro lado, em contraponto, o Papa Francisco nos vem e diz:

"Até mesmo na situação mais difícil da vida, Deus me espera, Deus quer me abraçar, Deus me aguarda."

Para não citar mais quase ninguém, vou parafrasear alguém: Como opinar é livre opinar, é só opinar!

Há uma opinião do sobretudo filósofo e sábio brasileiro, porque mineiro, Rubens Alves, ao discorrer sobre religião. Diz ele desta vez em rasgo filosófico onde transparece grande lucidez:

"Mas e Deus existe? A vida tem sentido? O universo tem uma face? Ao que a alma religiosa só poderia responder: Não sei. Mas eu desejo ardentemente que assim seja. E me lanço inteira. Porque é mais belo o risco ao lado da esperança que a certeza ao lado de um universo frio e sem sentido..."

Recentemente a falta de esperança talvez associada a um estado depressivo, levou o ator francês Alain Delon a dizer: "Se eu morrer não vou sentir falta disso aqui."

Esperança! Até sobre ela não há unanimidade. Basta lembrar o que disse Nietzsche: 

"A esperança é o pior dos males, pois prolonga o tormento do homem."

O que porém teria levado Dante em sua "Divina Comédia" mencionar a inscrição no portão do inferno? Nela lê-se: "Abandone toda esperança aquele que por aqui entrar."

Por tudo isso penso que ao cruzarmos os portões dos novos ciclos, devemos levar conosco a esperança. Enquanto o tempo passa, ou enquanto o tempo fica e nós passamos, que a esperança permaneça conosco como a roupa que vestimos.

Que a sorte - de que se diz ser a ação de Deus quando ele não quer assumir o bem que fez - nos ajude a prosseguir assim vestidos e agasalhados. Abastecidos para prosseguir essa nossa viagem através desse mundo de mistérios.

"... e que ninguém tire de nós a esperança!"


quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Caminhando e Pensando.

 


Hoje li na parede rabiscada de grafites do Parque:
"Nada Supera A Paz Que A Natureza Nos Transmite."

Senti falta que a frase continuasse: "Nada Supera A Paz Que A Natureza Nos Transmite, Quando É A Paz O Que Ela Traz."

Uma natureza revoltada destrói o sossego.

O mar agitado que sacode ameaçadoramente as embarcações, as sólidas construções que sacolejam tentando resistir aos espasmos da terra, os tsunamis, os vulcões quando acordam revoltados...

A natureza porém quando em paz, realmente acalma! É quando sua beleza transborda. É convite à transcendência. Sinaliza a direção do paraíso.

Mas há uma dualidade na natureza que pode levar a profundidades contrárias. Ela nos remonta à dicotomia presente nessa tão bizarra criação que é o homem.

Ele também foi constituído assim. Através dele, já foi dito, que o universo se auto-observa.

Ao se auto-observar deve constatar que entre os seus potenciais diversos, nos extremos divergem radicalmente o bem e o mal.

Movido por motivações nascidas no recôndito de sua alma, o homem é uma ameaça de fazer a natureza tremer ainda mais do que ela seria capaz sozinha.

Assim é que ele pretere a paz ao tomar o caminho da violência e da guerra.

Penso que o bem e o mal, dentro do homem, estão guardados em lugares distintos! O mal é na gaveta de cima, bem ao alcance da mão. O bem, naquele armário lá no alto. Precisa-se até de ir buscar uma escada para alcançá-lo.

Neste momento caminho por estes espaços coloridos e sobretudo esverdeados, na companhia bem comportada da natureza.

Passa por mim um pai jovem, talvez de primeiro filho. Criança-bebê, que de dentro do seu carrinho balbucia barulhento sem parar. Por fim fez uma pausa, e o pai atento reagiu incentivando-o:

- E o que mais?

Como a nossa imaginação voa, comutei para o pai e criança como esses, no parque imaginário onde caem bombas sobre uma área devastada.

- E o que mais?

Sim, é verdade, a natureza do homem não permite que haja verdadeira paz neste mundo.

terça-feira, 10 de outubro de 2023

Fazendo das Tripas Coração.

 


Fiz sim, minha caminhada diária como de hábito. Atrasando-me enquanto vencia a vontade de não ir.

Costumo sempre fazer como recomendável: levanto enquanto ainda soa o alarme para despertar. Hoje porém passaram-se dez minutos, e foi minha alma quem levantou meu corpo que preferia ficar. 

Me senti levado e como raramente acontece, tornara-me um perfeito exemplo de desânimo.

Apenas dobrava a primeira esquina, quando me ocorreu:

"Quando não estamos bem, precisamos das tripas onde antes bastava o coração".

Admirei-me pela primeira vez no dia! Isso é uma citação! E é verdadeira! Surgiu da minha cabeça oca sem aviso nem pedir licença.

Mesmo caminhando de má vontade, percebo que meus pensamentos vem comigo. Às vezes autônomos que são, me dizem o óbvio, mas de jeito inusitado. E vai que de repente podem me surpreender!

Me ocorreu então de inovar ainda que minimamente: vou caminhar bem depressa. Enganarei a todos esbanjando uma boa disposição que não sinto. Hoje não ouvirei o que dizem os que passam. Só escutarei o que vier da minha própria cabeça. Mas não o que eu produzir. Apenas o que dela irromper.

E eis que me ocorre: "Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido".  Logo me intrometo. No momento sou mais de apreciar quem disse: "A vida é um soco no estômago".

E segue o amanhecer, e ao meu redor o dia é todo igual naquilo que aparentemente parece o mesmo. Mas eu o faço diferente caminhando ligeiro.

Isso não me impede de observar os cachorros esquisitos. Também pudera! Um deles caminhava de banda! Cachorros esquisitos, como algumas pessoas.

Distraído, passo por onde sempre está o homem barbudo, de boné e roupas cinza. O que traz os seus pertences em uma mochila e também em sacos de lixo. Faz exercícios usando o banco onde depois se senta. Outras vezes o vejo um pouco à parte, junto a um "poste de luz", tocando uma imensa flauta doce. Hoje ele não veio! Terá sido pelo mesmo motivo que quase não vim?

Nisso sou trazido de volta pela voz de um homem que falando alto ao celular, pergunta:

- Ele já te botou no grupo?

Anos passados eu pensaria tratar-se de um grupo escolar! Agora porém...

Incrível, mas hoje só deu tempo para isso! Já me vi de volta no final do caminho para casa. O porteiro ao me ver logo diz:

- Chegou sua conta de luz.

É isso. Estamos sempre a precisar de luz. Para que ela possa melhor entrar, tem-se mais é que abrir as portas e janelas da alma a cada manhã.

domingo, 2 de abril de 2023

Hiperplasia do Ego.



Terminal Integrado de Ônibus da Caxangá, em Recife. Em um teste de associação de palavras, eu o associaria a: ruge-ruge. 


Sim! "Esfregância". Alvoroço. Agonia para entrar no ônibus. Desrespeito. Ausência total das mínimas regras de boa convivência. Um alto preço a pagar por nossa falta de civilidade.


Foi ali,  mesmo não tendo sido intencionalmente, que um homem pisou forte no pé de uma mulher. O marido dela estava perto. Ao seu marido ela reportou de imediato o acontecido. Prontamente ele reagiu, e com uma  peixeirada certeira, o matou.


O ser humano tem às vezes reações instintivas assustadoras, sobretudo quando desproporcionais. Quando físicas, elas são tão explícitas, que se tornam como o mau discurso ao qual ninguém fica indiferente.


Um dia, visivelmente emocionado, um amigo  contou-me com lágrimas nos olhos algo que com ele próprio aconteceu. Teve uma natureza similar.  Para o seu bem, sem consequência criminal. 


Pelo alcance que ele teve de antever as consequências de um momentâneo  descontrole em situações extremas, considerou a sua experiência chocante, mas também reveladora.


Baixara-se para fazer carinho em um gato, e ele o abocanhou. A dor da mordida em sua mão despertou-lhe instintos desconhecidos. Para dele livrar-se a todo custo, sacudiu raivoso de tal modo o braço, tentando livrar-se do animal, que  o atirou com toda a sua força contra a parede. Com o impacto, o gato caiu morto.


Embora as reações instintivas e de forte conteúdo emocional nos casos mencionados tenham provocado reações físicas de extrema violência, no campo das relações humanas não raro elas ocorrem no plano restrito das reações interiores. Das reações psicológicas nada saudáveis, e porque não dizer, talvez patológicas.


Embora nem sempre se manifestando fisicamente, eles não raro revelam um indisfarçável potencial de agressividade e violência.


Elas não matam o gato, matam relacionamentos. 


Ainda mais do que matarem relacionamentos, matam até mesmo a convivência.


Não raro o fazem de modo surpreendente e, às vezes, de modo incompreensível. Afinal, uma das características dessas reações é a desproporcionalidade com relação ao fato que as provocou. 


Para compreendê-las, apelamos para a nossa bagagem de conhecimentos sobre o comportamento humano, que a psicologia e a psicanálise nos legam.


É pertinente a essa questão, comentar a seguinte reflexão que me ocorreu faz pouco mais de dois anos. Foi quando comprei uma moto grande. Pedi que ela me fosse entregue em casa. O que eu não esperava foi o que fez a Agência Concessionária!


Conhece você uma Cegonha? É como se chama aquela imensa carreta que transporta de uma só vez cerca de 12 carros. Pois usaram-na para levar até  mim uma única moto.


Foi como a Rainha Elizabeth sozinha em uma imensa carruagem, mais de 12 vezes maior do que a que costuma usar.


Foi estranhamente naquele dia, talvez não por acaso  mas por circunstâncias ocasionais, que observando o grande espaço que sobrava naquela imensa carreta, pensei: que espaço livre enorme! Mas ainda assim ele não é suficiente para  caber o Ego de um ressentido.


Por isso admito por experiência própria, o que nos diz o poeta mineiro Belmiro Braga: 


"Quantos mortos trago vivos no fundo do coração, e dentro de mim quantos vivos mortos estão".


Penso então no meu próprio Ego. Ele me permite entender o que disse o poeta Belmiro. Meu Ego não é tão pequeno que o possa levar na garupa da minha moto. Seria um extraordinário avanço um dia ele caber no bolso maior do meu casaco!


Mas aos meus amigos, um aviso geral: meu Ego atual comporta que se sintam à vontade comigo. 


Deletem-me dos seus Faces, cancelem-me, me chamem nomes feios, e até vão embora sem dizer por quê.


Estou atento e compreensivo à minha própria natureza humana, e por isso também à de vocês. Jamais perderão seus lugares, no espaço que para vocês eu reservei. Isso farei obedecendo os limites de cada um.


Aprendi como é feio o egoísmo, sofrendo o egoísmo dos outros.


Os cientistas fazem experiências laboratoriais com ratos. Feliz de quem involuntariamente fez experiências existenciais com gatos, e delas aprendeu. Nunca sacudi um animal na parede! Mas a lição aprendida por quem o fez, também a tenho. 


O arrependimento, fruto dos que têm sensibilidade para reavaliar os seus atos, os ajudará a não repetir ações destrutivas, e muito menos fazê-lo com humanos.


Evitar a impulsividade destrutiva, é evitar de ter do que se arrepender. É contribuir para o enriquecimento da vida e não para o seu empobrecimento.


O ideal é mesmo tentar viver de modo a no final poder dizer como o poeta mexicano Amado Nerva:


"Vida, não me deves! Vida, estamos em paz!"


sexta-feira, 31 de março de 2023

Superando Um Trauma - Parte II.

 


E agora chegara a hora de fazer de novo o que de uma primeira vez não dera certo.

Mas convenhamos! Para mim nada havia que me fizesse temer. Eu tinha razões pessoais para disso me sentir seguro. Outras pessoas, outro momento da vida e outra cidade, ainda que do mesmo país.

Os  dias descontraídos e alegres que ali passei, fizeram um grande contraste com a minha experiência anterior. Bem recepcionado, acolhido  e  aceito, me fizeram sentir em casa. Resgatei aquele raro momento de tristeza vivido,  do qual, se já passara a dor, terminou passando também o dolorido. 

Passeios pelos lugares históricos da cidade, incluindo os murais com os grafites de Bansky, e até mesmo através de trilhas já que persistia a minha vontade de caminhar. Visitas a Bath e aos bares (pubs) de Bristol, à bela cidade de Salisbury, ao monumento pré-histórico de Stonehenge e até Cardiff no País de Gales, e Londres ao final de semana para visita à feira de Porto Belo.

 Por gentileza de um então garoto infantil, que hoje já está na fase de jovem adulto, a mim não foi permitido sequer pagar as eventuais passagens de ônibus. Um dia quando ele não estava com o dinheiro eu mesmo paguei. Porém chegando em casa ele fez questão de me ressarcir justificando: você é uma visita.

Que belo conceito sobre visitantes!

E antes que como nas estórias de trancoso essa entre por uma perna de pinto e saia por uma de pato, chegou o dia em que minha estadia terminou. Tomei o trem para Londres.

Tenho a dizer que despedi-me depois de terem na véspera comemorado o meu aniversário. O trem já fazia a última parada antes de chegar ao seu destino, quando atendi uma chamada no meu celular.

Era a minha anfitriã. Ela queria saber:

- E agora, onde você está?

Respondí:

- Estação Reading, a última antes de chegar a Londres.

Não posso esquecer dos últimos cuidados que recebi, mesmo depois de ter ido embora. Pois tive então um exemplo de uma hospitalidade incomparável.

Ela apressou-se em dizer:

-  Nesse caso melhor você aproveitar para fazer xixi, pois deixando para fazer em Londres, você vai ter de pagar.

Hóspede agradável, e hospedeiros também!

Superando Um Trauma - Parte I.


Outra viagem, mesmo país, outra cidade... Uma viagem distanciada por muitos anos da anterior. 

Como toda viagem, tinha um propósito: escapar da rotina, refrescar a mente, desvincular-se do dia a dia habitual. Novos sons, novos cheiros, temperaturas diferentes, outra umidade, outra língua, ativação de partes diferenciadas do cérebro. 

Fazer uma faxina mental. Recarregar baterias. Reciclar-se. Prosseguir a vida nos melhores termos. Relembrar um mundo que sabemos existir, mas do qual não fazemos parte. A menos que para lá viajemos.

Mas essa nova viagem tinha algo que era mais do que só isso, muito mais do que o habitual.

Outra vez não fui para um hotel, e até aí tudo igual àquela viagem anterior. Havia pessoas queridas por lá, e eu fora mais uma vez convidado para me hospedar na casa deles.  E isso  era também para mim assustadoramente igual. 

Não eram as mesmas pessoas! Mas eram seres humanos também. Nada tinham a ver com o que havia me acontecido naquela ocasião anterior.  Estavam bem entre si, e não havia discrepância de sentimentos entre o momento do convite e a hora da minha chegada.

Acontece que eu ainda guardava o trauma de como tudo acontecera antes. Daquela vez, por lá nem todos estavam bem. Havia problemas, e não comportava naquele momento me receberem. Mas receberam! O convite fora feito quando ainda era possível fazê-lo. Mas as coisas mudam! Como mudam as políticas e as nuvens no céu!

Era fim de ano, aquele mês que termina em festas. Pequena cidade, do norte frio da Inglaterra. Temperatura que só não era mais fria do que o jeito que fui recebido. "Mais frio que um diagnóstico". Mas nas ruas havia calor humano! Achei isso paradoxal. Véspera de Ano Novo, os pubs estavam lotados. Deles saíam sobretudo jovens embriagados, que por assim estarem, apesar de ingleses, na rua cantavam e tinham até mesmo a disposição de abraçar desconhecidos.

Havia razões para aquela má disposição de me receber, que embora não tivesse a ver comigo, em mim reverberasse. E aconteceu um ápice trágico. Não mais havendo como  suportar minha presença, ainda que ela fosse do bem, senti-me impelido a ir embora.

Voltei para Londres, onde já estava fazia meses, e de onde arredara para passar uns poucos dias em família, durante o Natal e dia de Ano. Claro que não deu certo.

Nessa retirada súbita de volta a Londres, fui acompanhado por um familiar a quem coube, como eu, e em trajetória diversa, cruzar as mesmas plagas naquele mesmo instante. Também haviam respingado nele aqueles maus jeitos.

Foi um longo percurso de volta a Londres, que então fizemos  distanciando-nos daquele lugar que se tornara inóspito. Se fora assim para mim, assim tornara-se para ele. Além do mais, conhecemos o dito popular: "quem vê a barba do vizinho arder, põe a sua de molho".

Primeiro o ônibus de linha doméstica daquele subúrbio distante para a estação rodoviária, depois o trajeto para Londres, e finalmente o taxi  da estação rodoviária  para o mesmo hotel, e durante todo esse percurso, ainda abalados, permanecemos calados!

Não temos vontade de falar quando a nós se sobrepõe um absurdo tão grande quanto inesperado. Recuperar-se leva um tempo. Enquanto isso, o recolhimento. O silêncio dos monges trapistas.

No hotel dirigimo-nos aos nossos quartos, e ali um breve descanso, um banho, um trocar de roupas e ainda, a perdurar, o silêncio. 

Combinamos de sair e comer uma pizza. Leicester Square. Uma pizzaria legal! De toque bem italiano. Lá chegamos. Escolhemos a mesa, e pedimos a pizza econômicos no falar. Esperamos o atendimento ainda calados. Um silêncio que já durava horas, e comecei a ficar curioso de como aquela mudez iria acabar. Ou será que não mais acabaria? Tínhamos perdido a voz para sempre?

Foi quando ouvi do sobrinho que me acompanhava:

- Que coisa! Não é, tio? Nunca esperei que aquilo lá acontecesse!     Estávamos só de passagem e somos pessoas tão agradáveis!

O resto da noite então foi leve, talvez pela admissão de que ele tivesse razão! A perspectiva de sermos agradáveis e de que continuávamos a sê-lo apesar de tudo, criava a condição de entender os maus momentos dos outros e deixar que, ainda que magoados, o tempo nos possibilitasse de conceder o perdão.

Para mim foi também uma lição de auto-estima.


quinta-feira, 30 de março de 2023

Dias Engraçados se Repetem!

 



Quase todos os dias, não falta algo para a gente se divertir! 


Ontem, no melhor caminho indicado pelo Waze para meu trajeto de carro até uma clínica fisioterapêutica, me deparei com muitos cruzamentos não sinalizados, que eu motociclista de longa data, me precavi de passar em marcha reduzida, atento às aproximações descuidadas.


Fui pego mesmo assim  de surpresa, ao perceber a aproximação atabalhoada de um ciclista, que se contorcia como uma cobra com câimbra, em cima da bicicleta, tentando evitar de se chocar contra a porta do meu carro, lado do motorista. Só não aconteceu o acidente, porque acelerei.

Pelo retrovisor pude ver ele xingando uma barbaridade! Não deve ter tido palavrão que ele não dissesse!

 Eu nunca mais tinha tido uma crise de riso! Mas crise de riso é MUITO bom. 

Afinal, o engraçado de tudo foi ver enfurecido, o responsável pela própria fúria! Só que dirigindo-a a quem evitou o pior! 🤣🤣🤣

Porém confesso, me diverti ainda mais foi com a troca de bengalas! 🤣🤣🤣🤣🤣🤣  (postagem anterior).

O Pitoresco De Cada Dia Nos Dai Hoje.

 


Ao sair pela enésima vez para a mesma fisioterapia, até ironizei:

Chegou a melhor hora do dia. Lá vamos nós para a fisioterapia!


Mas sabe de uma coisa? Ironias poéticas à parte, me diverti inesperadamente. Afinal os dias são assim. Às vezes mesmo quando a gente não espera, coisas divertidas acontecem.

E sou dos que costumam se divertir à toa!
 
Duas senhoras super-idosas, faziam lá os seus tratamentos. A que terminou primeiro foi embora, e a outra minutos depois. A segunda delas ao sair descobriu que a anterior tinha levado por engano a sua bengala. Essa troca de bengalas causou uma risadagem geral! 

Também pelos desdobramentos.

Contactada pela fisioterapeuta chefe Carol, a primeira das super idosas negou que tivesse pego a bengala da outra. Isso gerou uma reflexão filosófica, sobre se a super idosa número 2 não teria reconhecido a sua própria bengala. 

Bom, o caso está em suspenso, e parece sem solução.

Quando chegou minha hora de ir embora, resolvi botar um pouco mais de fogo na fogueira. Já me aproximando da porta de saída, e com ar de seriedade eu me voltei e disse:

- Carol, a minha bengala que deixei aqui desapareceu! 

Ela levou a sério, e demorou um pouco para dizer: mas você não usa bengala!

A risadagem então se repetiu ao relembrarem o fato fisiopitoresco do dia. 🤣🤣🤣

domingo, 26 de março de 2023

Coisas de Sobrinhos-Netos - Crianças.


Foi no interior de uma igreja, quando pela primeira vez, aos três anos de idade, Tomás via transcorrer uma missa. Atento ao seu redor, pedia esclarecimentos ao seu pai sobre o que via:

- Por que aquela mulher está com uma toalha na cabeça?

- Por que aquele senhor cabeludo está pendurado?

- Quando o verdadeiro papai do céu vai descer?


E ainda Tomás, certo dia de futebol entre Brasil x França, fizeram-lhe uma pergunta. A pergunta não  seria embaraçosa se a sua mãe não fosse francesa e o pai brasileiro.

- Por quem você vai torcer?

Respondeu:  

- Pela França!

- Por que pela França?

- Porque mamãe é francesa!

Mas e o seu pai?

- Meu pai é franceso.


          


Outro dia a avó dos dois quase entrou em desespero!

Sim, pois trata-se dos gêmeos Martin e Tomás.

Ela pensava estar a sós com eles no apartamento do último andar do prédio.

Cheguei como combinado para levá-los para almoçar no restaurante da esquina.

Deparei-me no jardim do térreo com aquelas duas crianças de três anos, sentados no chão brincando com a areia. Estavam sós, o que me causou estranheza.

- Quem os trouxe para cá?

Martin respondeu, enquanto continuava a brincar:

- Viemos sós.

- Como chegaram aqui?

- O elevador! Ele abriu a porta, a gente entrou, ele desceu!

Presenciei então duas expressões conflitantes de sentimentos que ocorreram  ali naquele  instante. 

A satisfação e tranquilidade infantis em momento de grande realização pessoal, e o infortúnio e quase desespero da avó que, andares acima, os procurava em vão por toda parte. 

Não deu tempo de avisá-la onde eles estavam, pois não os encontrando onde esperava que estivessem, desceu às pressas. Quando apareceu na portaria do prédio estava lívida, espavorida. 

Ao vê-los sentiu o alívio dos que acordam de um pesadelo!

Ao observar o que as crianças na sua ingenuidade fizeram, lembrei-me do slogan do Google: simplify, simplify, simplify. E para reforçar  a ideia de importância da simplicidade, no  mural da sede da Google, os dois primeiros simplify estão riscados.

Só que ás vezes, pensei eu, enquanto alguns  simplificam, outros podem ser levados à loucura!


Martin e Tomás têm dois tios paternos, somos eu e o meu irmão.

Meu irmão tem precisado usar cadeira de rodas para se deslocar. 

Um dia o pai deles os avisou:

- Hoje o tio vem nos visitar.

Na dúvida, foi a vez de Martin perguntar:

- O da cadeira de rodas? Ou o do cabelo feio?


Tom tinha menos de dois anos, e aproveitava os poucos dias em que pela primeira vez visitava o avô, meu irmão, no Brasil. O que aconteceu foi simples, mas para mim ficou gravado talvez pelo inesperado. Afinal Tom  falava muito pouco!

Estávamos em uma lanchonete, e chegara a hora de eu ir embora. Tom brincava ao lado, próximo de nós e fui até ele. Baixei-me para vê-lo de perto e me despedir.

Ele olhou para mim muito admirado, e exclamou:

- Não é o vovô!!! 😃


Enquanto houver crianças a alegria estará assegurada, muitas novas histórias e a esperança também!