sábado, 2 de dezembro de 2023

Reflexões de Fim de Ano.

 


"Quando as coisas se assenhoram do espírito as palavras ocorrem".

... e a renovação do que nos assenhora é o que permite a cada momento expressar aquilo que nos vai na alma.

Começam e terminam os dias, e as noites, as semanas e os meses,  também os anos, os séculos e os milênios.

Quando cai a cortina dando por encerrado cada ano, costumo valorizar esse aspecto cíclico que a vida nos impõe.

Divide-se o tempo no antes e no depois. 

Embora não necessariamente, os humanos podem aceitar o convite que a natureza lhes faz ao final de cada ciclo e início do seguinte: convite a um "pit stop".

Nos tempos escolares a mudança de ciclo para mim era simbolizada pela troca de caderno velho por caderno novo. Novinho em folha! Também o livro da série anterior, quando substituído pelo da série "mais adiantada", despertava em mim o sentido de avanço, aceitação de novos desafios, renovação de bons propósitos.

Novos ciclos, novos tempos, como dizia o grande poeta Manoel de Barros:

"O tempo só anda de ida. A gente nasce, cresce, envelhece, morre. Para não morrer é só amarrar o tempo no poste. Eis a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste!"

Mas cadê o tempo? Só vejo o poste!

Talvez o tempo não devesse mesmo ser amarrado. Precisamos dele para sermos levados a contemplar as coisas por ângulos diversos, aprimorar certas compreensões, aceitar realidades difíceis, aprendermos a nos inquietar melhor, preferencialmente quase não nos inquietar.

Também não amarrar o tempo, para eu poder aprofundar minha ignorância sobre questões existenciais, o que será sempre tão intrigante quanto prazeroso.

Nem que seja para um dia concluir que precisamos de mais tempo do que teremos, para mesmo assim não compreender quase nada!

Até aqui a minha profunda admiração pela natureza humana, no pior dos sentidos, tornou-se hoje ratificada pelos anos que já tive de atenta observação.

Nunca faltaram as guerras, as mentiras que as justificassem, e as deslealdades outras nos seus mais variados aspectos.

Em meio, contudo, a um mar de incertezas, em que paira o potencial nuclear de um mundo insano, me ocorre o conceito chinês do Yin e Yang. Ao frio se contrapondo o quente, ao claro o escuro, ao errado o correto, e sobretudo o bem se contrapondo ao mal.

Entretanto algumas constatações sobre a nossa realidade me parecem aceitáveis: "Pax in Vita nula sincera."- A paz nessa vida não é possível.

Outras tantas constatações, no campo subjetivo, permanecem um imenso desafio. Afinal como é dito na notável metáfora da vida, de Clarice Lispector: "Ninguém descansa em cadeira de dentista."

Não raro, onde quer que busque conhecimento, lá encontro a ambiguidade, os tons evasivos de quem não sabe o que realmente interessa.

Nos provérbios e citações, as contradições: "Quem espera sempre alcança.", " Quem espera cansa." - "O que não me mata me fortalece.", "O que não me mata me deixa arrasado."...

Quanto aos sistemas filosóficos sobre a mente, dividem-se em dois campos amplamente opostos e portanto contraditórios. Unicidade? Ou dualidade? 

Seria a consciência produzida pelo cérebro, e assim teria a alma uma origem material, destinada a se extinguir com o cérebro que a produziu? Ou serão cérebro e consciência aspectos separados e independentes, fadada então a alma a "viver" mesmo após a morte do cérebro?

Os maiores defensores de cada ideia, não têm a segurança da correção do que defendem, que só uma demonstração matemática lhes daria.

Seguimos assim  morando vizinhos: o crente e o ateu, o espiritualista e o materialista, o democrata e o fascista, o palestino e o judeu...

É pertinente lembrar que em um gesto de honestidade e corajosa sinceridade, o poeta Mário Quintana em versos diz:

"O milagre não é dar a vida ao corpo extinto,

 Ou a luz ao cego, ou eloquência ao mudo...

 Nem mudar a água pura em vinho tinto...

 Milagre é acreditarem nisso tudo!"

Por outro lado, em contraponto, o Papa Francisco nos vem e diz:

"Até mesmo na situação mais difícil da vida, Deus me espera, Deus quer me abraçar, Deus me aguarda."

Para não citar mais quase ninguém, vou parafrasear alguém: Como opinar é livre opinar, é só opinar!

Há uma opinião do sobretudo filósofo e sábio brasileiro, porque mineiro, Rubens Alves, ao discorrer sobre religião. Diz ele desta vez em rasgo filosófico onde transparece grande lucidez:

"Mas e Deus existe? A vida tem sentido? O universo tem uma face? Ao que a alma religiosa só poderia responder: Não sei. Mas eu desejo ardentemente que assim seja. E me lanço inteira. Porque é mais belo o risco ao lado da esperança que a certeza ao lado de um universo frio e sem sentido..."

Recentemente a falta de esperança talvez associada a um estado depressivo, levou o ator francês Alain Delon a dizer: "Se eu morrer não vou sentir falta disso aqui."

Esperança! Até sobre ela não há unanimidade. Basta lembrar o que disse Nietzsche: 

"A esperança é o pior dos males, pois prolonga o tormento do homem."

O que porém teria levado Dante em sua "Divina Comédia" mencionar a inscrição no portão do inferno? Nela lê-se: "Abandone toda esperança aquele que por aqui entrar."

Por tudo isso penso que ao cruzarmos os portões dos novos ciclos, devemos levar conosco a esperança. Enquanto o tempo passa, ou enquanto o tempo fica e nós passamos, que a esperança permaneça conosco como a roupa que vestimos.

Que a sorte - de que se diz ser a ação de Deus quando ele não quer assumir o bem que fez - nos ajude a prosseguir assim vestidos e agasalhados. Abastecidos para prosseguir essa nossa viagem através desse mundo de mistérios.

"... e que ninguém tire de nós a esperança!"


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