sábado, 16 de dezembro de 2023

Deixando Ficar.



As viagens que Sylvia e eu fazíamos ao Rio de Janeiro, eram pontuadas pelo reencontro com um carioca singular.

Ivo, padrinho de batismo de Sylvia, expansivo e vibrante, para que suas características de carioca fossem ainda mais marcantes, tinha ascendência italiana.

Assim como Sylvio, pai de Sylvia, Ivo Vinante era filho único de imigrantes europeus. Ivo de pais italianos, Sylvio, de pais portugueses.

Encontraram-se ainda crianças no Rio de Janeiro, e se tornaram amigos-irmãos.

Quando o conheci já havia vivido mais de sete décadas e, há muito viúvo, continuava vivendo.

Vivendo no sentido de quem faz o contraponto aos que seguem apenas  existindo.

Encontros com a turma da peteca na praia de Ipanema, chopes no Bar Do Cesar, à rua Vinicius de Moraes, onde também fica o "Garota de Ipanema", lá Vinicius compôs a famosa música que deu nome ao bar.

Enturmado ele sempre foi, até mesmo com o pessoal que ia comprar pão na mesma padaria de Jacarepaguá, bairro em que passou a morar quando se mudou de Copacabana.

Sempre achei a comunicação fácil uma marca do carioca, à semelhança dos baianos, mas não só deles.

Em outros estados desse imenso país, há habitantes comunicativos como os cariocas. 

Contudo observo os cariocas vocacionados para uma comunicação temperada pelo bom humor. Um bom humor peculiar que espero não desapareça com eventuais mudanças sociais da cidade.

A manifestação desse espírito alegre do carioca Ivo, às vezes extravasava quando , dando vazão ao seu gosto pela ópera, abria o vozeirão e cantava.

Cantava a plenos pulmões da mesa do bar que dividia com amigos. Amigos de infância, e aqueles feitos de última hora,

Aos moradores dos edifícios próximos era negado o direito de não escuta-lo. Assim é que ele contava que um dia foi surpreendido por uma mulher que vindo de um dos prédios, o identificou.

Dirigindo-se a ele, ela assim falou: Eu precisava conhecê-lo, pois "nunca te ví, mas sempre te amei!"

Quando ele conversava, os assuntos fluíam e costumavam mudar de tônica como é comum a mudança de tons em sinfonias de Beethoven.

Certa vez comentou uma impressionante sensação de "déjà vu" que muito o intrigou ao ver pela primeira vez uma reprodução de uma pintura francesa da Belle Époque.

Ao comentar o ocorrido com um amigo, este lhe recomendou visitar um Centro Espírita. Poderia ser coisa de outra vida.

Estimulado por esse amigo, lá foram os dois para escutar de um espírita uma história bem intrigante!

Disse-lhe o médium: "Você tem consigo um espírito que interfere no seu comportamento. Trata-se de alguém com um grande desejo de uma reencarnação precoce."

Não faz muito tempo, e ele, um jovem soldado, lutava em plena primeira guerra mundial.

No esplendor da sua mocidade, era cheio de vida e tinha grandes propósitos futuros, quando súbita e inesperadamente, desencarnou.

Por tão vívidos anseios não realizados é que ele viria a acompanhar Ivo, ajudando-o a realizar seus próprios desejos de vida frustrados.

Terminado esse relato, não hesitei em perguntar-lhe: Você não cogitou de aproveitar a ocasião para que as pessoas do Centro Espírita o afastassem de você?

Ao que o Ivo, entre goles de chope no Bar Do Cesar, e boas risadas, respondeu: "O quê?!!! Deixa ele aí! Não quero mudar coisa nenhuma!"

Foi com esse ânimo, que a todos arredor anima, que fomos uma tarde, os três, visitar Dona Guior.

Cunhada do Ivo, portanto irmã da já falecida madrinha de Sylvia, ela sempre a recebia com muita alegria e carinho quando das suas viagens a trabalho no Rio.

Neste dia nos foi dado, consternados, testemunhar o estado em que lá jazia uma senhora que por longos anos dera seus préstimos à família.

Querida por todos, permanecia cercada de atenções, porém em condições irreversíveis, das quais se diria em "pele e osso".

Ao sairmos, lembro do olhar compassivo do Ivo ao dizer: "pobre dela! Não chegará ao final deste ano!" E o final do ano já se aproximava.

Quis a vida, ou a deusa grega da Fortuna, a quem se atribuía a distribuição entre os humanos dos bons e dos maus augúrios, que antes que acontecesse assim com aquela senhora, fosse ele, Ivo,  a ir ao encontro de Deus!

Recebemos em casa, no Recife, a triste notícia do seu internamento, e não muito tempo depois, a notícia de sua partida.

A lembrança deste fato veio a propósito do que há mais de 2000 anos foi preconizado pelo filósofo Sêneca quando disse: "Ninguém é mais frágil do que alguém."

Porém, vão-se os viventes, mas permanecem nas nossas memórias, nas lembranças dos que os conheceram, os momentos alegres e prazerosos que com eles vivemos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário