segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Caminho de Tristeza Inesperada.


A jornada primeira do Caminho é o trecho Saint-Jean-Pied-De-Port - Roncesvalles. Os peregrinos em geral concordam que subir a pé os Pirineus, e em seguida descer meio que de repente, faz desse percurso o mais desafiador.

Para um bom êxito ao longo do Caminho, não canso de recomendar aos que se dispõem a fazê-lo, dedicar-se com afinco à preparação.

Portanto antes mesmo de por o pé na estrada, o Caminho já se revela metafórico. Não deve ser também assim pelos caminhos da vida?

Foi com os músculos alongados e fortalecidos, com todo o corpo habituado às longas caminhadas a que fora submetido durante um ano inteiro de fase preparatória, que cumpri altivo esse primeiro dia.

Diria, até, que tecnicamente atento a como evitar os contratempos. Praticava o jeito correto de vencer subidas e descidas íngremes, como evitar bolhas nos pés, cuidados alimentares, com a hidratação...

Para ajudar ao longo de todo Caminho, mas sobretudo nas descidas, usava os indispensáveis "sticks"- bastões de caminhada.

As paisagens deslumbrantes compensaram todo o esforço, e um bônus muito especial foi a pausa no alto dos Pirineus, diante da pedra onde no ano 778 d.C., pousaram o corpo de Rolando, primo de Carlos Magno, mortalmente ferido em batalha. 

Ali também estivera o próprio Carlos Magno, que avisado do ocorrido, voltou do lugar próximo onde então se encontrava. 

Carlos Magno, porém, estava a cavalo, e eu a pé!

O local desse lamentável marco histórico não poderia ser mais bem situado. Eu não encontraria, ao longo de todo o Caminho, lugar mais deslumbrante para morrer!

No fim do dia, próximo a Roncesvalles, iniciaríamos a descida, e eu descobriria que, a pé, descer exige maior esforço físico que subir.

Músculos geralmente pouco solicitados são duramente requisitados. Os "sticks" são fundamentais. Tornam-se nas descidas os maiores amigos dos joelhos.

A descrição no plural desses instantes iniciais do Caminho, deve-se à presença de dois valorosos companheiros.

Cearenses moradores de Fortaleza, embarcamos para Madrid em voos que saíram quase na mesma hora do Recife, onde vivo, e da capital do Ceará.

Encontramo-nos em Lisboa, de onde prosseguimos juntos até quando, em Roncesvalles, o amigo Ivo recebeu a triste notícia da morte de sua mãe.

O prestativo Juan, que nos transportara de Pamplona a Saint - Jean em sua van, voltaria à cena, transportando-o de volta a Pamplona e ajudando-o a conseguir voo para o Brasil.

Alcides, o outro companheiro, após mais duas jornadas, abreviaria sua permanência pulando etapas e retornando também prematuramente.

Mas eu concluiria esse resumido relato dos acontecimentos do primeiro dia, expressando  uma muito boa impressão, e diria até que  enorme admiração pessoal, que senti por mim mesmo lá pelo quilômetro 25. 😅

Havíamos descido 2/3 do declive final. Roncesvalles estava quase à vista e ainda bem que àquela época estava escurecendo muito tarde.

É sem pretensão que digo, mas rendido à realidade: até eu já me sentia cansado. Andando um pouco à frente, parei à espera dos demais. Como demorassem, terminei por retornar um pouco, e encontrei Ivo que se sentara. Ao me ver foi logo dizendo: "Daqui ninguém me tira. Daqui não saio nunca mais!"

Alcides, que ainda conseguia não entregar os pontos, foi convenientemente solidário. Olhou para mim e disse: "Prossiga. Quanto a mim, vou fazer companhia a ele."

Aguardei-os em Roncesvalles, desejando que após o merecido descanso também  lá chegassem, apreensivo de que não demorassem a fazê-lo, pois não tardaria escurecer.

Enquanto esperava, acrescentei às excitações até então vividas, e sobretudo por ter nascido  mais de 20 anos antes deles, o sentimento de que pudera me preparar muito bem para o que tivera de enfrentar.

Esse porém era um sentimento que na vida eu já tivera várias vezes.

Senti ali certa animação pelo caminho que apenas começara.

Nenhum comentário:

Postar um comentário