domingo, 17 de junho de 2018

Aconteceu na Garagem.


Nas garagens nascem as grandes bandas, as empresas gigantes de informática, as grandes fábricas de motocicletas... 

Das garagens, são muitos os que delas têm lembranças inesquecíveis.

Lembranças originadas de atividades criativas, às vezes científicas, outras vezes tecnológicas e até de atividades lúdicas, engraçadas.

Garagens são em geral isoladas, e por caberem carros são espaçosas. Tornam-se convidativas a que ali se criem condições favoráveis até mesmo para que uma garotada se reúna para estudar.

Foi com esse propósito que certo dia, o compromisso de aprender “Complementos de Matemática”, reuniu um grupo de ruidosos colegas de faculdade, empenhados em levar a bom termo seus aprendizados das disciplinas do curso de engenharia.

Já faz mais de quarenta anos que uma digressão dos estudos ali ocorreu, e o fato por inusitado, ou talvez por permitir relembrar com saudosismo o espírito brincalhão e irresponsável da época, permanece na lembrança dos que da brincadeira participaram.

Até mesmo de Waldery Bernardo Júnior, alvo principal da “diversão” daquela noite, que ao relembrar dá risadas, ainda que admitindo: “que maldade!”.

O tempo passara rápido e já era mais de meia noite. Eram umas duas horas da madrugada. O cansaço já prevalecia sobre o ânimo de prosseguir nem que fosse só mais um pouco.

E afinal, àquela altura, Waldery já “pegara no sono”. 

Os acordados porém, apesar do cansaço, encontraram de pronto energia para uma inusitada brincadeira.

Não se pode sequer cochilar, quando se faz parte de certas turmas, como essa! Quanto mais adormecer daquele jeito, quase que a ressonar.

O plano foi executado em etapas, começando assim:

Primeiro, taparam TODAS as frestas da garagem. 

Segundo, apagaram as luzes.

Terceiro, fizeram um breve silêncio.

Waldery continuava a dormir. 

Então, passaram todos a fingir continuarem estudando, normalmente. O fizeram tão bem, que ouvia-se até o ranger do giz no quadro negro.

Chegara a hora de acordar Waldery. 

  • Waldery, vamos lá cara! Precisamos aqui de você.

Sonolento, Waldery primeiro acordou e, logo em seguida, ao despertar, abriu os olhos. 

Foi evidente que ali só ele não enxergava. 

Do desespero ao grito foi um microssegundo. 

Quem não advinha o que ele disse?

  • FIQUEI CEGO.

Hoje está tudo superado. 

Waldery, ao reencontrar os antigos colegas, ri e comenta: 
“Que maldade!”. 

Uma rápida maldade, mas de grande impacto!

Uma turma dessas ninguém esquece!

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Era Militar.



Vivíamos em pleno período militar da década de 60 no Brasil. Eram tempos de supervalorização do controle, da exibição de armas, de força e de poder, e sobretudo do militar.

Havia quartéis cuja velocidade dos veículos que por ele passassem era rigorosamente controlada. Passassem acima do limite máximo de velocidade ali estabelecido, e levariam balas. Passassem mais devagar do que o permitido, e levariam balas também.

Lembro de certa vez estar em uma sala de embarque de um aeroporto, onde a presença de militares era predominante. Eram passageiros como os demais, porém deles se diferenciavam não somente pela farda. Pareciam ocupar todos os espaços como fossem só seus. Ao embarcarem, tiveram precedência não só sobre os passageiros comuns, porque civis,  mas também sobre idosos, crianças e gestantes. Eram considerados prioritários até mesmo em relação aos VIP’s comuns.

Por isso foi com grande senso de oportunidade, que certo dia, dois cirurgiões dentistas com consultório dentário no Edifício Seguradora, no centro do Recife, Clodoaldo e Bione, protagonizaram uma cena no mínimo bizarra.

Aproveitavam o intervalo para o almoço, para comprarem um medicamento. Dirigiram-se à antiga Farmácia Dropersa, que era localizada na rua da Aurora, nas proximidades do Cine São Luiz.

As farmácias daquela época, antiquadas, exibiam antigos balcões cuja disposição física ocupava todos os espaços laterais no contorno de sua área exígua. Ar condicionado nem pensar! Iluminação? Jamais alguém conseguiria ler uma bula de remédio  ali dentro do jeito que hoje é possível, embora ninguém o faça.

Acrescente-se a tudo isso a enorme quantidade de pessoas que lá dentro se acotovelavam, o que tornava ainda maior o calor do verão do Recife.

A quantidade de atendentes por dentro do longo balcão em formato de “U”  estava em nítida desvantagem em relação ao número de clientes esperando para ser atendidos. 

Esbaforidos estavam todos. E quanto a Clodoaldo e Bione, aguardavam pacientes havia incríveis trinta minutos. O suor descia pelos seus rostos e ensopava suas roupas.

Houve um momento em que se sentiram invisíveis aos olhos do atendente mais próximo, que naquele pandemônio sem fila, só atendia aos outros.

Foi quando Bione, aproveitando um momento propício, pôs uma mão sobre o ombro de Clodoaldo, e encarando o vendedor com autoridade e severidade militares, bradou para que todos ouvissem:

- Atenda aqui o Cabo!

Soou como um grito de Ordem. Em um piscar de olhos puderam sair dali aliviados, com o remédio nas mãos e os pedidos de desculpa.

Eu já conhecia essa história, quando certo dia, meu pai e eu, voltávamos de João Pessoa para Recife, cabendo a mim dirigir o Jeep.

De repente, a surpresa de uma blitz inesquecível! Carros eram parados nos dois sentidos. A fila dos veículos estacionados nos acostamentos era formidável! Alguns militares do exército pareciam dar cobertura às viaturas do Departamento de Trânsito.

Dois guardas gordos e mal humorados aproximaram-se de mim, mas falaram mesmo foi com o meu pai:

-  Documentos do garoto.

Enquanto meu pai descia do Jeep para deles se aproximar, entreguei-lhes a minha “Carteira de Identidade” (meu I. D.).

Um dos guardas outra vez dirigindo-se ao meu pai, exigiu:

-  Habilitação do garoto e Documentos do veículo.

Documentos do veículo, tudo bem! Meu pai tratou de entregar, e o fez como aquilo fosse uma grande coisa!

O guarda insistiu:

- A habilitação.

Meu pai, como que por um lapso de audição, fingiu não ouvir esta última demanda. Sua atenção voltara-se para o outro lado da pista, onde lançava o seu olhar e suas atenções. Avistara alguém que felicidade maior não havia, que a sorte o tivesse ali colocado.

Parado na blitz quando viajava no sentido contrário ao nosso, meu pai o reconheceu e para ele gritou:

-  General Expedito!

No mesmo instante aquele homem circunspecto, altivo, esguio e de andar firme, pesado, atravessou a estrada em nossa direção.

Dirigiu-se ao meu pai, e embora fossem amigos, falou com ele no mesmo tom que achei deveria usar para com os seus subordinados na caserna:

- O que é que está acontecendo aqui, Jucá?

Meu pai ensaiou responder:

-  General, estávamos de volta ao Recife, quando...

-  Um dos guardas porém o interrompeu, e enquanto nos devolvia os documentos, reportou-se respeitosamente àquela autoridade maior ali presente:

-  Está tudo resolvido, General! O menino, segunda-feira, irá ao Detran tirar a Carteira de Habilitação. Só peço é que o pai dele prossiga a viagem dirigindo o Jeep.

Tapinhas nas costas, inesperados sorrisos de quem eu pensei nem soubesse sorrir, troca de amenidades entre meu pai e o seu amigo General, e logo já nos afastávamos do local com meu pai na direção.

Por paradoxal que pareça, prosseguíamos viagem nos sentindo menos seguros. Afinal, meu pai preferia que eu dirigisse, porque na sua opinião eu, embora não habilitado, dirigia melhor do que ele, o que para mim não era vantagem!

Ainda sob o impacto dos últimos estresses, comentei então com meu pai:

-  Nunca soube que o Sr Expedito era General!

Ao que meu pai sorrindo muito, respondeu:


-  Expedito, General? General coisa nenhuma! Expedido tem é raiva de milicos.

Preservando a Sorte.



Jogar pôquer? 

Só se for socialmente! 

Ainda menos do que bebo. Para ser sincero, só se for raramente. Confesso que já joguei pôquer só por delicadeza. Mas eram tão esparsas as vezes que o fazia, que até cheguei a me esquecer das regras por completo.

Um dia, amigos me convidaram para almoçar. Almoçar eu sempre topo. Geralmente rolam boas conversas. Havia contudo por trás daquele convite, uma segunda intenção. Um dos convivas levou o baralho. Eramos quatro e estávamos em um clube, o clube Alemão, vizinho de onde moro.

- Que tal jogarmos uma partida de pôquer? Disseram os três.

Para mim soou: Que tal não conversarmos um pouco?

Se me recuso a maioria ficaria frustrada. Ensaiei uma justificativa qualquer, talvez egoísta mas verdadeira, alegando não me lembrar do jogo.

Me disseram:

- “Sem problema. É tudo tão fácil!"

E me relembraram das regras do pôquer, apenas o estritamente necessário. No futebol seria como exaltar a importância de não pegar a bola com a mão, só o goleiro pode mas com ressalvas, e quanto ao que realmente interessa,  dizer que o objetivo maior, era ganhar fazendo gols.

Foi por condescendência que aceitei.

Distribuídas as cartas, quis fazer valer meus poucos conhecimentos das regras. A primeira delas diz que, não gostando das cinco cartas que inicialmente recebeu, faça como nas lojas comerciais dos Estados Unidos da América. Devolva a mercadoria e lhe darão outra em seu lugar.

Foi o que fiz, em tom de reclamação.

Então, concentraram-se todos nas cartas que a sorte lhes dispôs. Até mesmo Eu!

Não me contive quando vi  e reconheci o que tinha nas mãos.  Com um jogo desses, pensei, melhor que estivéssemos em um cassino, em lugar do Clube Alemão. 

E então? E então eu ri. E ri, e ri... Ri tanto, que só não desconcertei meus companheiros porque eram jogadores experientes.

Um deles, o Fernando Lima, comentou:

- Jucá pode não saber jogar pôquer, mas blefar ele blefa muito bem!

Não era blefe!

Era mesmo um Royal Straight Flush. 

Fernando, o mais antigo na prática do jogo de pôquer, nunca assistira alguém fazer tal jogo. Até comentou que a probabilidade de acontecer era de 1 em 649.740. Aproximadamente 0,000154%.

Aquela sequência de Dez, Valete, Dama, Rei e Ás do naipe de ouro era no pôquer um  gol do futebol, mas não um gol qualquer. Era, isso sim, o gol dos gols. Belíssimo na feitura, por sua qualidade, beleza, oportunidade, e circunstância especial da partida. Um Golden Gol.

Desde esse dia, ninguém mais me viu jogar pôquer. Nem por delicadeza, ou condescendência. Sempre achei sábio aquele que, idolatrado no esporte em que se consagrou, decide abandonar as suas atividades quando vive o seu auge.

Resolvi viver da boa lembrança.

Pôquer nunca mais!

Guardei o pôquer e preservei a sorte.


quinta-feira, 7 de junho de 2018

Burocracia à brasileira.


Ato I

Toinho, irmão de Toim meu amigo, vai à Receita Federal. É para reativar o CPF do pai falecido. Motivo: inventário. Depois do pai, morreu a mãe. Para fazer o inventário da mãe era preciso antes fazer o do pai, cujo CPF estava desativado.

A velha funcionária da Receita diz: só pode pedir essa reativação, se for herdeiro.

Toinho irmão de Toim diz:
- Tudo bem! Puxa o documento que prova sua filiação, portanto herdeiro.

A velha funcionária diz:

- Mas não é assim não! Precisa o Juiz dizer que você é herdeiro! Tem muito pai que deserda o filho.

Toinho pacientemente agradeceu, e aceitando levantou e saiu.

Foi pegar outra ficha e voltou.

Escondeu-se por trás de uma coluna enquanto esperava sua vez. Se caísse novamente para ser atendido pela mesma senhora, pegaria outra ficha.

Foi atendido porém por um outro funcionário, que sem maiores delongas, em um instante reativou o CPF do seu pai.

Fica a dica.

Ato II

Toim precisava junto com Mônica, sua mulher,  autorizarem a ida da filha deles Raissa para passar um ano no Canadá. A autorização redigida em inglês estava pronta, e faltava apenas reconhecer a assinatura de Mônica. 

Dirigiram-se ao Cartório onde o Tabelião era tio de Mônica. Foram recebidos por ele com grande receptividade. Com animação mesmo! Toim explicou descontraído o que pretendia.

 O “tio Zezinho” pegou então o papel, e logo disse:  

- Pode não!!! Tem que ser com tradutor juramentado.

O argumento de Toim era lógico: "mas não importa o que está escrito! Importa atestar que quem está assinando, seja lá o que for, é realmente minha mulher!!!" Disse ele.

Não adiantou!

Toim fez igual ao irmão. Depois de sair mas antes de ir embora, foi ao guichê e reconheceu a firma sem maiores delongas!


Toim e Toinho são brasileiros não principiantes.

Ato III

Sendo o nosso tema a burocracia, e as maneiras inteligentes de enfrentá-la, eis que a trajetória de Toim por tais meandros começou muito cedo. 

O exercício de contornar as absurdas dificuldades que muitas vezes a burocracia nos impõe, já havia começado faz 40 anos, quando ele era aluno da Escola de Engenharia da UFPE - Universidade Federal de Pernambuco. 

A data limite para que ele fizesse a sua matrícula no semestre seguinte do curso, chegou encontrando-o distraído. Perdeu o prazo. 

Mas havia uma segunda chance para que não viesse a perder o semestre. Poderia aguardar uma nova data reservada aos retardatários.

O novo dia chegou, era o último para a inscrição, e desta vez Toim estava lá com o requerimento na mão. Chegada a sua vez, o funcionário ao recebê-lo perguntou:

- E o retrato?

- Que retrato?

- O retrato 3x4 que tem que vir junto com o requerimento!

- Eu não sabia que era para trazer retrato.

E o funcionário já desconsiderando a presença ali de um apreensivo Toim, olhando para a fila,  disse:

- O próximo.

Toim instintivamente insistiu:

- Espere aí! Acontece que hoje é o último dia! Assim vou perder o meu semestre se você não aceitar minha matrícula.

- Isso não é assunto meu, você se vire lá com a coordenação.

Toim saiu desanimado, afinal vivíamos uma época na qual retratos 3x4 eram tirados em lojas de fotografia, e tinham prazos de até três ou mais dias para ficarem prontos.

Na fila estava um seu colega, com quem desapontado comentou a sua situação:

- Não trouxe a foto, e não teve jeito não! Sem foto, nada feito, e o pior é que hoje é o último dia.

Foi quando lhe ocorreu uma ideia! Deixando de lado as diferenças de aparência física entre ele e o seu amigo, perguntou: 

- Tens aí alguma foto tua sobrando?

O fato é que tinha! Natural que tivesse, afinal quem viveu aquela época sabe, em geral fornecia-se meia dúzia de fotos ainda que só fosse necessária uma, ou no máximo duas.

Toim nem entrou de novo na fila. Desta vez voltava com o requerimento, e preso àquele papel por um clip, uma foto. A foto do amigo Sérgio Limongi.

- Olhe aqui, não estou furando a fila não! É que acabei de falar com você e me faltava a foto que agora eu achei. 

O funcionário olhou para a foto, olhou para Toim, fez uma cara estranha de quem acha que não são a mesma imagem, e comentou:

- Na foto você está bem diferente! Não?

Ao que esboçando certa naturalidade Toim respondeu ao comentário sem contradizê-lo:

- Pois é, a gente muda! Né?

Fácil é imaginar o alívio do protagonista Toim, quando em ato contínuo, ouviu soar o  carimbo, símbolo de aceitação burocrática e de abertura de protocolos.

Estava assegurado que continuaria o seu curso de engenharia.


quarta-feira, 6 de junho de 2018

Os Frutos das Jaqueiras.



Caminhava absorto pelo Parque da Jaqueira, dando asas aos pensamentos que à minha cabeça viessem. Para mim o dia pareceu estar mais bonito que os outros! Até achei que isso me ajudava a sentir a alma estranhamente “filosofal”. Eu estava reflexivo e propenso a caminhar também pelo meu infinito interior.

Eis que de repente, como é comum que ali aconteça, um alto vozerio de alguns passantes me desconcentrou. Mais que isso, aqueles elevados decibéis me obrigaram a escutá-los.

Depois de ouvi-los, em uma estranha associação, reportei-me a "Alice no País das Maravilhas". Nesta admirável obra, nos conta o seu autor como Alice ao cair no poço se dá conta de estar em outro lugar. O lugar onde sua aventura acontece, e que dá nome ao livro.

Pois bem, cruzei com Alice, passando por ela na direção contrária. Eu vim de um mundo, parecido com o mundo das ideias preconizado por Platão, para o meu mundo real.

Voltei como quem é acordado bruscamente, para ouvir assim:

- “... e aí, ele disse para ela: só não lhe estupro, porque você é feia.”

E prosseguindo:

- “Ela foi dizer que ele tinha cara de estuprador!!! E o que ele tinha que dizer pra ela era isso mesmo!         ( Risos ) Aquela petista safada...”

Em seguida:

- “Eu vou votar nele.”

E o interlocutor ao lado arremata:

- “E eu também.”

(Já são dois votos! pensei.)

Não encontro quem explique inteligentemente muitas das coisas que hoje se dizem. Mas ainda que tentassem fazê-lo, nem toda explicação é passível de ser compreendida. Em contrapartida, há muito que não precisa ser explicado para que compreendamos.

É impossível, mesmo para um péssimo observador, não identificar em muitos dos "habitués" do Parque, características estranhas.

E com a experiência de muitos anos como frequentador do Parque a cada dia me parece que mais esquisitices observo. 

Para quase todos tenho um olhar compreensivo, de espírito fraternal e às vezes até de comiseração, pois há casos que nos fazem admitir que não existe doença pior do que as que afetam a mente.

Mas reconheço, ali, diferentes tipos de esquisitices:

Um homem diariamente caminha a sacudir repetidamente para o alto um coco verde, que em seguida, sem se deter, apara.  Uma esquisitice leve!  Tão leve que chega a ser discutível. Afinal o que é ser "Normal"?

Outro, em marcha atlética acelerada, dá nervosas baforadas em um cigarro, enquanto na outra mão segura um copo plástico. Supostamente para nele derramar as cinzas. Um tipo de esquisitice que considero menos discutível. 

Um terceiro, caminha vestido para trabalhar, possivelmente em um escritório, levando debaixo do braço uma pasta com documentos. O faz falando sozinho em tom alto e raivoso, sugerindo que está descompondo com palavras ásperas, grosseiras mesmo, um chefe imaginário. Coitado!

E a lista não termina por aí! Apenas quis, ao exemplificá-los, dizer que esses tipos de comportamentos não fazem mal a ninguém. 

Mas há um tipo de atitude, representada por aqueles que escolhem votar em quem incrivelmente reúne os mais detestáveis predicados, aos quais dedico minha intolerância.

A tolerância consiste em um nada fazer. Devemos ser tolerantes em respeito ao direito dos outros ao pensamento diverso. E nos faltam e muito, nos dias de hoje, pessoas que tenham essa caraterística, pois ela é uma boa qualidade, ela é considerada uma virtude. A tolerância evitaria as guerras.

Mas a tolerância deixaria de ser virtude, se pela inação permitisse avançar o mal. Daí porque a tolerância tem limite. Como tolerar adeptos de um fascista que elogia torturadores, pede a volta dos militares, é racista e homofóbico?

Ainda bem que eles andaram ligeiro, como se falar sem precisar pensar tivesse a propriedade de lhes acelerar os passos. Logo distanciaram-se de mim permitindo que deles, e do que disseram, eu me desligasse: “Palavras loucas, ouvidos moucos” é o que aprendemos com a sabedoria popular. 

Voltei para onde antes eu estava. E o pensamento final que me acometeu, felizmente me elevou acima das emoções terrenas.

Pensei: Cada pessoa é o ponto de encontro entre dois infinitos. Os infinitos interior e exterior. Não seria a morte (e nela nos igualamos) a unificação desses infinitos? Não seria morrer “infinitar-se”?

A transcendência não tem limite. A tolerância tem.

Um Dramático Adeus.




Certo dia, um homem que viajava para o alto sertão do nosso estado de Pernambuco, quando o sol estava a pino resolveu parar para almoçar em um desses restaurantes de "beira de estrada".

Era um lugar muito isolado, quente, seco, inóspito, e poeirento. A estrada dali prosseguia monótona, e logo apresentava um grande aclive por onde os veículos que iam enfrentavam uma íngreme subida, e os que vinham, uma descida das que impõem aos motoristas respeito e cuidado.

Terminado o almoço e estando de pé no terraço à frente do restaurante, ele contemplava à distância aquela longa estrada deserta, por onde só raramente  passava algum carro, caminhonete ou caminhão. 

Era imprevisível o que ele estava prestes a assistir. Descendo aquela enorme ladeira, vinha um caminhão carregado de mercadorias. Sobre a lona que a cobria, um peão se segurava do melhor jeito que podia. 
O que chamava atenção era a poeira que atrás dele levantava e a velocidade com que descia aquela ladeira, pois a cada instante mais acelerava.

Era evidente que faltara freios.

A angústia dos poucos que viveram a cena, foi intensa mas de curta duração. Ao final da ladeira havia uma pedreira, e desgovernado era na sua direção que aquela enorme massa em movimento se direcionava.

Pobre peão! Já devia saber que iria morrer! Por que dali não se atirava?

Tempo para mais nada! O choque foi estrondoso, tudo se espatifou, e uma voz  ecoou. A voz do peão que voando pelos ares gritava:
- "Adeus Mundo de Merda".

terça-feira, 5 de junho de 2018

Exibição de “Expertise”.



 Aconteceu na Agência de Turismo Circus, então situada no outrora bucólico bairro de Casa Forte (Recife), à entrada do histórico e bem preservado logradouro Poço da Panela.   Era Final de dia, e  já  não havia muitos clientes para serem atendidos!   Entre  os  que   ainda esperavam estávamos eu, e  distante  de mim  de  algumas  cadeiras vazias, um Senhor de aspecto respeitável, de cabelos brancos, vestido em impecável traje de linho da cor dos seus cabelos, que comentava com um vizinho em alto e bom som, suas opiniões sobre futebol. 

Para começar não foi lisonjeiro ao falar sobre Pelé, a quem só tinha elogios como jogador, mas não para o cidadão Edson Arantes do Nascimento a quem fazia restrições. 

Voltou-se contudo logo em seguida para o lado técnico do futebol, abandonando questões pessoais, e ao fazê-lo colocou em tela o futebol internacional. Recuou 40 anos para elogiar grandes seleções nacionais do passado. 

Vieram a tona grandes nomes do futebol que brilharam em Mundiais, e ele bradava alto com grande admiração, nomes famosos como os de Yashin, grande goleiro da seleção Russa, e um dos maiores goleiros do mundo senão o maior, Di Stefano que embora argentino brilhava jogando pela seleção espanhola, e outros tantos nomes que passavam pela seleção da Hungria, quando mencionou em destaque o nome do atacante Puskas. E não parou por aí!

Pelas tantas desmanchou-se em elogios a um time extraordinário que vira jogar no Mundial de Seleções, durante a Copa do Mundo de Futebol de 1962 no Chile. A seleção da Tchecoslováquia.

Destacou então o papel extraordinário do seu goleiro. Um goleiro que jogava todo vestido de preto e usava sempre um boné ou gorro dessa mesma cor. Tentava com grande esforço lembrar-lhe o nome, que teimava em fugir-lhe da memória.

Não me contive e saindo da minha habitual discrição, quase britânica, ajudei-o ao dizer lá do lugar onde estava sentado:
  • Scrojf (pronuncia-se Chiróife). O nome dele era Scrojf.
O homem entendeu que não estava sozinho em termos de assuntos futebolísticos, e aparentemente isso o surpreendeu e o entusiasmou.
Mas esse entusiasmo não seria nada, muito menos a sua surpresa, comparado com o que ele demonstrou, quando prosseguindo eu disse:

  • Scoijf, Lala e Popluhar, Novak, Pluskal e Masopust, Stibranyi, Scherer, Kvasnak, Adamec e Jelinek (que pronuncia-se Ielinéque).

Como pude? 

Nunca era de me  interessar ainda que minimamente por futebol. Quanto mais ao ponto de memorizar escalações. Em 1962 porém, ainda um garoto, chamou-me atenção a sonoridade desses onze nomes, pronunciados em sequência pelo locutor esportivo da rádio. Foi por puro diletantismo que decorei. 

Mal terminara de escalar o time, e como que após um grande pulo, aquele homem já sentara ao meu lado. Cheio de sincera admiração ele disse:

- Você é bom!

Para testar-me, se é que isso ainda era necessário, ele voltado agora inteiramente para mim, disse:

- Vejamos se você também sabe, que seleção era essa, em que jogavam: Buffon, Maldini, Altafini, Giacomo Bulgarelli...

Respondi sem pestanejar: 

   - Itália.

Quem não acertaria essa!!!

Mas consagrei-me, melhor dizer: fui consagrado.

Por sorte chegou minha vez de ser atendido, em tempo de que o meu desconhecimento sobre o assunto, não desfizesse a falsa impressão que causei de ser um grande expert.

Preferi assim não por vaidade pessoal, mas para não decepcionar aquele Senhor, que seguiu achando ter encontrado um profundo conhecedor do assunto.

Mas a verdade? A verdade é que até ali era somente nisso que resumiam-se TODOS os meus conhecimentos sobre o futebol.