Jogar pôquer?
Só se for socialmente!
Ainda menos do que bebo. Para ser sincero, só se for raramente. Confesso que já joguei pôquer só por delicadeza. Mas eram tão esparsas as vezes que o fazia, que até cheguei a me esquecer das regras por completo.
Um dia, amigos me convidaram para almoçar. Almoçar eu sempre topo. Geralmente rolam boas conversas. Havia contudo por trás daquele convite, uma segunda intenção. Um dos convivas levou o baralho. Eramos quatro e estávamos em um clube, o clube Alemão, vizinho de onde moro.
- Que tal jogarmos uma partida de pôquer? Disseram os três.
Para mim soou: Que tal não conversarmos um pouco?
Se me recuso a maioria ficaria frustrada. Ensaiei uma justificativa qualquer, talvez egoísta mas verdadeira, alegando não me lembrar do jogo.
Me disseram:
- “Sem problema. É tudo tão fácil!"
E me relembraram das regras do pôquer, apenas o estritamente necessário. No futebol seria como exaltar a importância de não pegar a bola com a mão, só o goleiro pode mas com ressalvas, e quanto ao que realmente interessa, dizer que o objetivo maior, era ganhar fazendo gols.
Foi por condescendência que aceitei.
Distribuídas as cartas, quis fazer valer meus poucos conhecimentos das regras. A primeira delas diz que, não gostando das cinco cartas que inicialmente recebeu, faça como nas lojas comerciais dos Estados Unidos da América. Devolva a mercadoria e lhe darão outra em seu lugar.
Foi o que fiz, em tom de reclamação.
Então, concentraram-se todos nas cartas que a sorte lhes dispôs. Até mesmo Eu!
Não me contive quando vi e reconheci o que tinha nas mãos. Com um jogo desses, pensei, melhor que estivéssemos em um cassino, em lugar do Clube Alemão.
E então? E então eu ri. E ri, e ri... Ri tanto, que só não desconcertei meus companheiros porque eram jogadores experientes.
Um deles, o Fernando Lima, comentou:
- Jucá pode não saber jogar pôquer, mas blefar ele blefa muito bem!
Não era blefe!
Era mesmo um Royal Straight Flush.
Fernando, o mais antigo na prática do jogo de pôquer, nunca assistira alguém fazer tal jogo. Até comentou que a probabilidade de acontecer era de 1 em 649.740. Aproximadamente 0,000154%.
Aquela sequência de Dez, Valete, Dama, Rei e Ás do naipe de ouro era no pôquer um gol do futebol, mas não um gol qualquer. Era, isso sim, o gol dos gols. Belíssimo na feitura, por sua qualidade, beleza, oportunidade, e circunstância especial da partida. Um Golden Gol.
Desde esse dia, ninguém mais me viu jogar pôquer. Nem por delicadeza, ou condescendência. Sempre achei sábio aquele que, idolatrado no esporte em que se consagrou, decide abandonar as suas atividades quando vive o seu auge.
Resolvi viver da boa lembrança.
Pôquer nunca mais!
Guardei o pôquer e preservei a sorte.

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