Ato I
Toinho, irmão de Toim meu amigo, vai à Receita Federal. É para reativar o CPF do pai falecido. Motivo: inventário. Depois do pai, morreu a mãe. Para fazer o inventário da mãe era preciso antes fazer o do pai, cujo CPF estava desativado.
A velha funcionária da Receita diz: só pode pedir essa reativação, se for herdeiro.
Toinho irmão de Toim diz:
- Tudo bem! Puxa o documento que prova sua filiação, portanto herdeiro.
A velha funcionária diz:
- Mas não é assim não! Precisa o Juiz dizer que você é herdeiro! Tem muito pai que deserda o filho.
Toinho pacientemente agradeceu, e aceitando levantou e saiu.
Foi pegar outra ficha e voltou.
Escondeu-se por trás de uma coluna enquanto esperava sua vez. Se caísse novamente para ser atendido pela mesma senhora, pegaria outra ficha.
Foi atendido porém por um outro funcionário, que sem maiores delongas, em um instante reativou o CPF do seu pai.
Fica a dica.
Ato II
Toim precisava junto com Mônica, sua mulher, autorizarem a ida da filha deles Raissa para passar um ano no Canadá. A autorização redigida em inglês estava pronta, e faltava apenas reconhecer a assinatura de Mônica.
Dirigiram-se ao Cartório onde o Tabelião era tio de Mônica. Foram recebidos por ele com grande receptividade. Com animação mesmo! Toim explicou descontraído o que pretendia.
O “tio Zezinho” pegou então o papel, e logo disse:
- Pode não!!! Tem que ser com tradutor juramentado.
O argumento de Toim era lógico: "mas não importa o que está escrito! Importa atestar que quem está assinando, seja lá o que for, é realmente minha mulher!!!" Disse ele.
Não adiantou!
Toim fez igual ao irmão. Depois de sair mas antes de ir embora, foi ao guichê e reconheceu a firma sem maiores delongas!
Toim e Toinho são brasileiros não principiantes.
Ato III
Sendo o nosso tema a burocracia, e as maneiras inteligentes de enfrentá-la, eis que a trajetória de Toim por tais meandros começou muito cedo.
O exercício de contornar as absurdas dificuldades que muitas vezes a burocracia nos impõe, já havia começado faz 40 anos, quando ele era aluno da Escola de Engenharia da UFPE - Universidade Federal de Pernambuco.
A data limite para que ele fizesse a sua matrícula no semestre seguinte do curso, chegou encontrando-o distraído. Perdeu o prazo.
Mas havia uma segunda chance para que não viesse a perder o semestre. Poderia aguardar uma nova data reservada aos retardatários.
O novo dia chegou, era o último para a inscrição, e desta vez Toim estava lá com o requerimento na mão. Chegada a sua vez, o funcionário ao recebê-lo perguntou:
- E o retrato?
- Que retrato?
- O retrato 3x4 que tem que vir junto com o requerimento!
- Eu não sabia que era para trazer retrato.
E o funcionário já desconsiderando a presença ali de um apreensivo Toim, olhando para a fila, disse:
- O próximo.
Toim instintivamente insistiu:
- Espere aí! Acontece que hoje é o último dia! Assim vou perder o meu semestre se você não aceitar minha matrícula.
- Isso não é assunto meu, você se vire lá com a coordenação.
Toim saiu desanimado, afinal vivíamos uma época na qual retratos 3x4 eram tirados em lojas de fotografia, e tinham prazos de até três ou mais dias para ficarem prontos.
Na fila estava um seu colega, com quem desapontado comentou a sua situação:
- Não trouxe a foto, e não teve jeito não! Sem foto, nada feito, e o pior é que hoje é o último dia.
Foi quando lhe ocorreu uma ideia! Deixando de lado as diferenças de aparência física entre ele e o seu amigo, perguntou:
- Tens aí alguma foto tua sobrando?
O fato é que tinha! Natural que tivesse, afinal quem viveu aquela época sabe, em geral fornecia-se meia dúzia de fotos ainda que só fosse necessária uma, ou no máximo duas.
Toim nem entrou de novo na fila. Desta vez voltava com o requerimento, e preso àquele papel por um clip, uma foto. A foto do amigo Sérgio Limongi.
- Olhe aqui, não estou furando a fila não! É que acabei de falar com você e me faltava a foto que agora eu achei.
O funcionário olhou para a foto, olhou para Toim, fez uma cara estranha de quem acha que não são a mesma imagem, e comentou:
- Na foto você está bem diferente! Não?
Ao que esboçando certa naturalidade Toim respondeu ao comentário sem contradizê-lo:
- Pois é, a gente muda! Né?
Fácil é imaginar o alívio do protagonista Toim, quando em ato contínuo, ouviu soar o carimbo, símbolo de aceitação burocrática e de abertura de protocolos.
Estava assegurado que continuaria o seu curso de engenharia.

Nenhum comentário:
Postar um comentário