Vivíamos em pleno período militar da década de 60 no Brasil. Eram tempos de supervalorização do controle, da exibição de armas, de força e de poder, e sobretudo do militar.
Havia quartéis cuja velocidade dos veículos que por ele passassem era rigorosamente controlada. Passassem acima do limite máximo de velocidade ali estabelecido, e levariam balas. Passassem mais devagar do que o permitido, e levariam balas também.
Lembro de certa vez estar em uma sala de embarque de um aeroporto, onde a presença de militares era predominante. Eram passageiros como os demais, porém deles se diferenciavam não somente pela farda. Pareciam ocupar todos os espaços como fossem só seus. Ao embarcarem, tiveram precedência não só sobre os passageiros comuns, porque civis, mas também sobre idosos, crianças e gestantes. Eram considerados prioritários até mesmo em relação aos VIP’s comuns.
Por isso foi com grande senso de oportunidade, que certo dia, dois cirurgiões dentistas com consultório dentário no Edifício Seguradora, no centro do Recife, Clodoaldo e Bione, protagonizaram uma cena no mínimo bizarra.
Aproveitavam o intervalo para o almoço, para comprarem um medicamento. Dirigiram-se à antiga Farmácia Dropersa, que era localizada na rua da Aurora, nas proximidades do Cine São Luiz.
As farmácias daquela época, antiquadas, exibiam antigos balcões cuja disposição física ocupava todos os espaços laterais no contorno de sua área exígua. Ar condicionado nem pensar! Iluminação? Jamais alguém conseguiria ler uma bula de remédio ali dentro do jeito que hoje é possível, embora ninguém o faça.
Acrescente-se a tudo isso a enorme quantidade de pessoas que lá dentro se acotovelavam, o que tornava ainda maior o calor do verão do Recife.
A quantidade de atendentes por dentro do longo balcão em formato de “U” estava em nítida desvantagem em relação ao número de clientes esperando para ser atendidos.
Esbaforidos estavam todos. E quanto a Clodoaldo e Bione, aguardavam pacientes havia incríveis trinta minutos. O suor descia pelos seus rostos e ensopava suas roupas.
Houve um momento em que se sentiram invisíveis aos olhos do atendente mais próximo, que naquele pandemônio sem fila, só atendia aos outros.
Foi quando Bione, aproveitando um momento propício, pôs uma mão sobre o ombro de Clodoaldo, e encarando o vendedor com autoridade e severidade militares, bradou para que todos ouvissem:
- Atenda aqui o Cabo!
Soou como um grito de Ordem. Em um piscar de olhos puderam sair dali aliviados, com o remédio nas mãos e os pedidos de desculpa.
Eu já conhecia essa história, quando certo dia, meu pai e eu, voltávamos de João Pessoa para Recife, cabendo a mim dirigir o Jeep.
De repente, a surpresa de uma blitz inesquecível! Carros eram parados nos dois sentidos. A fila dos veículos estacionados nos acostamentos era formidável! Alguns militares do exército pareciam dar cobertura às viaturas do Departamento de Trânsito.
Dois guardas gordos e mal humorados aproximaram-se de mim, mas falaram mesmo foi com o meu pai:
- Documentos do garoto.
Enquanto meu pai descia do Jeep para deles se aproximar, entreguei-lhes a minha “Carteira de Identidade” (meu I. D.).
Um dos guardas outra vez dirigindo-se ao meu pai, exigiu:
- Habilitação do garoto e Documentos do veículo.
Documentos do veículo, tudo bem! Meu pai tratou de entregar, e o fez como aquilo fosse uma grande coisa!
O guarda insistiu:
- A habilitação.
Meu pai, como que por um lapso de audição, fingiu não ouvir esta última demanda. Sua atenção voltara-se para o outro lado da pista, onde lançava o seu olhar e suas atenções. Avistara alguém que felicidade maior não havia, que a sorte o tivesse ali colocado.
Parado na blitz quando viajava no sentido contrário ao nosso, meu pai o reconheceu e para ele gritou:
- General Expedito!
No mesmo instante aquele homem circunspecto, altivo, esguio e de andar firme, pesado, atravessou a estrada em nossa direção.
Dirigiu-se ao meu pai, e embora fossem amigos, falou com ele no mesmo tom que achei deveria usar para com os seus subordinados na caserna:
- O que é que está acontecendo aqui, Jucá?
Meu pai ensaiou responder:
- General, estávamos de volta ao Recife, quando...
- Um dos guardas porém o interrompeu, e enquanto nos devolvia os documentos, reportou-se respeitosamente àquela autoridade maior ali presente:
- Está tudo resolvido, General! O menino, segunda-feira, irá ao Detran tirar a Carteira de Habilitação. Só peço é que o pai dele prossiga a viagem dirigindo o Jeep.
Tapinhas nas costas, inesperados sorrisos de quem eu pensei nem soubesse sorrir, troca de amenidades entre meu pai e o seu amigo General, e logo já nos afastávamos do local com meu pai na direção.
Por paradoxal que pareça, prosseguíamos viagem nos sentindo menos seguros. Afinal, meu pai preferia que eu dirigisse, porque na sua opinião eu, embora não habilitado, dirigia melhor do que ele, o que para mim não era vantagem!
Ainda sob o impacto dos últimos estresses, comentei então com meu pai:
- Nunca soube que o Sr Expedito era General!
Ao que meu pai sorrindo muito, respondeu:
- Expedito, General? General coisa nenhuma! Expedido tem é raiva de milicos.

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