terça-feira, 5 de junho de 2018

Exibição de “Expertise”.



 Aconteceu na Agência de Turismo Circus, então situada no outrora bucólico bairro de Casa Forte (Recife), à entrada do histórico e bem preservado logradouro Poço da Panela.   Era Final de dia, e  já  não havia muitos clientes para serem atendidos!   Entre  os  que   ainda esperavam estávamos eu, e  distante  de mim  de  algumas  cadeiras vazias, um Senhor de aspecto respeitável, de cabelos brancos, vestido em impecável traje de linho da cor dos seus cabelos, que comentava com um vizinho em alto e bom som, suas opiniões sobre futebol. 

Para começar não foi lisonjeiro ao falar sobre Pelé, a quem só tinha elogios como jogador, mas não para o cidadão Edson Arantes do Nascimento a quem fazia restrições. 

Voltou-se contudo logo em seguida para o lado técnico do futebol, abandonando questões pessoais, e ao fazê-lo colocou em tela o futebol internacional. Recuou 40 anos para elogiar grandes seleções nacionais do passado. 

Vieram a tona grandes nomes do futebol que brilharam em Mundiais, e ele bradava alto com grande admiração, nomes famosos como os de Yashin, grande goleiro da seleção Russa, e um dos maiores goleiros do mundo senão o maior, Di Stefano que embora argentino brilhava jogando pela seleção espanhola, e outros tantos nomes que passavam pela seleção da Hungria, quando mencionou em destaque o nome do atacante Puskas. E não parou por aí!

Pelas tantas desmanchou-se em elogios a um time extraordinário que vira jogar no Mundial de Seleções, durante a Copa do Mundo de Futebol de 1962 no Chile. A seleção da Tchecoslováquia.

Destacou então o papel extraordinário do seu goleiro. Um goleiro que jogava todo vestido de preto e usava sempre um boné ou gorro dessa mesma cor. Tentava com grande esforço lembrar-lhe o nome, que teimava em fugir-lhe da memória.

Não me contive e saindo da minha habitual discrição, quase britânica, ajudei-o ao dizer lá do lugar onde estava sentado:
  • Scrojf (pronuncia-se Chiróife). O nome dele era Scrojf.
O homem entendeu que não estava sozinho em termos de assuntos futebolísticos, e aparentemente isso o surpreendeu e o entusiasmou.
Mas esse entusiasmo não seria nada, muito menos a sua surpresa, comparado com o que ele demonstrou, quando prosseguindo eu disse:

  • Scoijf, Lala e Popluhar, Novak, Pluskal e Masopust, Stibranyi, Scherer, Kvasnak, Adamec e Jelinek (que pronuncia-se Ielinéque).

Como pude? 

Nunca era de me  interessar ainda que minimamente por futebol. Quanto mais ao ponto de memorizar escalações. Em 1962 porém, ainda um garoto, chamou-me atenção a sonoridade desses onze nomes, pronunciados em sequência pelo locutor esportivo da rádio. Foi por puro diletantismo que decorei. 

Mal terminara de escalar o time, e como que após um grande pulo, aquele homem já sentara ao meu lado. Cheio de sincera admiração ele disse:

- Você é bom!

Para testar-me, se é que isso ainda era necessário, ele voltado agora inteiramente para mim, disse:

- Vejamos se você também sabe, que seleção era essa, em que jogavam: Buffon, Maldini, Altafini, Giacomo Bulgarelli...

Respondi sem pestanejar: 

   - Itália.

Quem não acertaria essa!!!

Mas consagrei-me, melhor dizer: fui consagrado.

Por sorte chegou minha vez de ser atendido, em tempo de que o meu desconhecimento sobre o assunto, não desfizesse a falsa impressão que causei de ser um grande expert.

Preferi assim não por vaidade pessoal, mas para não decepcionar aquele Senhor, que seguiu achando ter encontrado um profundo conhecedor do assunto.

Mas a verdade? A verdade é que até ali era somente nisso que resumiam-se TODOS os meus conhecimentos sobre o futebol.

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