terça-feira, 5 de junho de 2018

Predadores.


Era muito cedo da manhã, ainda quase madrugada. A praia só não parecia deserta por aquele ruidoso grupo de homens e mulheres animados pela própria disposição de acordarem tão cedo para caminharem.


Em ritmo ainda mais acelerado, porque ambos trotavam, eis que por eles passaram um homem de meia idade de porte atlético, e o seu ameaçador cão pitbull. Ainda que sem focinheira, estava sim de coleira e tirante. Seguiram eles ofegantes e atléticos, passando saltitantes pelo grupo e dele despertaram não só a atenção, como provocaram súbito silencio e natural apreensão. 

Apreensão maior porém ainda viria, quando seria de se esperar que diminuísse com o aumento da distância a que o homem e seu cachorro deles já se encontrava. Pelo menos uns 100 metros lá à frente e por enquanto se afastando ainda mais.

É que de repente o homem e o seu cachorro pararam, fazendo uma pausa em seus exercícios. O homem agachou-e e terrificados os caminhantes madrugadores que atentos observavam, ficaram petrificados.

O cão fora livrado da coleira e do tirante que o prendia ao dono. Como se já fosse costume fazê-lo, o cachorro precipitou-se em desabalada carreira em direção ao mar, sob o olhar orgulhoso, envaidecido mesmo, do seu dono. 

Sabia nadar e gostava de fazê-lo. Lançou-se impetuosamente contra as ondas, como se atiraria por instinto na ação de abocanhar alguém. 

O grupo de pessoas interrompera sua caminhada e agora atônitos observavam aquela cena insólita. 

Como das coisas por demais insólitas até o diabo duvida, quedaram-se ali incrédulos, e tomados por um misto de sentimentos contraditórios. Foi assim que assistiram o surgimento de uma mancha negra, que se deslocava no mar, rápida, em direção ao pitbull. Uma mancha encimada por um triangulo escuro cujo vértice apontava para o céu. 

Não houve tempo para mais nada! Diante do desespero do seu dono que também a tudo assistia, desapareceram os dois, tão sinistramente quanto aquele inusitado encontro. 

A manhã não mais seria a mesma, restou o espanto, a tristeza do dono do cachorro, o alívio respeitoso dos caminhantes...

E a certeza de que tubarões não respeitam o limite que separa as praias de Boa Viagem e Piedade em Recife-Jaboatão. Hoje reconhecidas como um vasto self-service a céu aberto de portentosos tubarões.


Nenhum comentário:

Postar um comentário