quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Feliz 2025.

 


À semelhança do intervalo entre dois assaltos, que dá trégua aos boxeadores, soa outra vez o gongo para mais um recesso de fim de ano.

Finalizamos mais um período de acontecimentos que reafirmam a metáfora que faço da vida, ao assemelhá-la a um trem fantasma: surpreendente, desconcertante... Um susto a cada esquina.

Essa metáfora não exclui as emoções excitantes proporcionadas pelas boas vivências.

Além disso, ao final do percurso desse trem fantasma, saem todos a salvo, aliviados, recompostos e refeitos.

Que a metáfora possa ser adequada sobretudo por nos tornar disso capaz, apesar da dureza e até das lágrimas por vivências dolorosas.

Além das vicissitudes pessoais que fazem parte da vida humana pelos seus aspectos individuais, vivemos o roteiro coletivo do meio.

É quando lembro do genial jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015), que enxergava o mundo com tamanha realidade, que o via pelo avesso.

Até dizia que nele "o chumbo aprendia a flutuar e a cortiça a afundar. As cobras criavam asas e voavam enquanto as nuvens se arrastavam pelos caminhos."

O mundo do avesso, dizia ele, "gratifica o avesso: despreza a honestidade, castiga o trabalho, recompensa a falta de escrúpulos e alimenta o canibalismo."

Nesse nosso mundo, do qual já se cogitou se não seria o inferno de outro planeta, como manifestar esperança sem parecer ingênuo?

Submetidos a tantas agruras e aprofundados em suas reflexões, é que muitos humanos já chegaram a se desesperançar.

Não há, porém, um sentido maior em passar a ver a vida em preto e branco, levados por nossas inteligências, racionalidades, e cansaço.

Assim é que distante de parecer ingenuidade, apesar de enxergar a face ameaçadora da vida, prefiro pensar na autenticidade do simbolismo das luzes que se acendem para clarear enfeitando às nossas noites de fim de ano.

Elas parecem, com a ideia que li estampada na camisa de um frequentador do parque onde faço caminhadas habituais: "A maior felicidade é ter o mar onde pular sete ondas."

É com esse espírito que desejo a todos a renovação de forças que os guiem com alegria por caminhos de muito amor e paz.


quinta-feira, 14 de novembro de 2024

A Freira e o Marinheiro.


Aquela senhora que hoje passou por mim, bochechuda, me restituiu uma lembrança muito antiga. Lembrei da tia Idalina! Pequenina, magrinha, olhos azuis, leveza de corpo e ainda mais de alma...  e bochechuda.

Freira da Ordem das Doroteias, entrara muito cedo para aquele Convento no Recife. Tão cedo quanto a idade permitia. Já octogenária havia um bom tempo, consolidara uma ingenuidade rara, que diria não ser deste mundo.

Não era bom que ela soubesse de nenhum trâmite familiar que não fosse reto. Reto pelos seus princípios de uma fé cristã, católica, inarredável. E como reagiria se soubesse de alguém claudicante na crença religiosa, ou não claudicante porque ateu? Esse ser ganharia suas orações mais frequentes, demoradas e fervorosas. Como admitir que um parente perdesse assim a sua alma?

Os escrúpulos da tia avó Dona - sim, chamávamos a tia Idalina de tia Dona, avançavam pelos reparos que fazia aos menores deslizes que à sua presença cometessem os que a visitavam. Estavam todos prevenidos de que era assim, diante da tia Dona até as crianças teriam que perder a naturalidade, essa era a postura mais adequada. Além disso, dela ouvir perguntas e conselhos pueris.

Por tudo isso foi que compreendi, até certo ponto, a tensão presente em um encontro que aconteceu entre a tia Dona e o seu sobrinho Joaquim. Joaquim, filho de um seu irmão, ele que na década de 60 chegara à capital vindo da sua cidade natal no interior. Trazia de lá a mesma ingenuidade que a nossa tia Dona também trouxera, e que foi por ela incrementada com o passar da vida.

Mas Joaquim veio por um objetivo muito distinto: tornar-se marinheiro. Temia não ser admitido por causa da sua baixa estatura. No dia do exame médico admissional saiu de casa depois de encher de palmilhas os seus sapatos. Isso, eu digo, para tipificar o grau de ingenuidade do meu primo, que para seu alívio e alegria, passou no teste.

A vida de Joaquim passou a ser no mundo. Quase sempre embarcado, contrastando com a vida santa e enclausurada da tia Dona. Um se deparando com a crua realidade da vida, a outra se aproximando cada vez mais da excelsa pureza dos anjos.

Passaram-se muitos anos até que aquele marinheiro, agora de tantas viagens, viesse outra vez ao Recife, cidade onde fora recrutado.

Joaquim perdera a ingenuidade, mas mantivera a timidez. Visitar a velha tia em seu convento, lembro do quanto a ele custou. Precisava se assegurar de que não lhe causaria má impressão. Aceitaria recomendações sobre como se vestir, e como se comportar. No entanto, sem que ninguém lhe dissesse, intuía o quanto teria de substituir o seu linguajar de marinheiro que se lhe tornara habitual.

Foram dias de preparação para que as gírias não aflorassem durante aquela visita. Levei-o ao encontro dela. Preferi nem presenciar! Hoje disso me arrependo pois teria muito mais para contar! Mas asseguro que deu tudo muito certo. Joaquim voltou feliz, leve, aliviado. Vencera a prova. A tia nem deve ter sentido que precisasse rezar tanto por ele. Tia Dona foi uma ótima freira e Joaquim um ótimo marinheiro.

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Hoje Foi Assim! (08/nov/2024)


Com o dia amanhecendo chuvoso a oeste e ensolarado a leste, o piso do Parque estava quase enxuto. Havia contudo vestígios de que ainda mais cedo, uma chuva passara por lá. Já havia muita gente a se movimentar! Um dia descobrirei a que horas chega o primeiro frequentador. Claro que nesse dia o primeiro a chegar terá de ser eu!


Por enquanto o que é cedo para mim é tardio para a maioria da vizinhança. Desde o começo busco estar presente, em contrapartida aos que parecem não observar o dia, mantendo-se alheios ao arredor.


Apesar do tempo nublado com promessa de chuva, de toda essa população móvel do Parque, somente um único caminhante preveniu-se levando um guarda chuva. Não, esse caminhante não fui eu! Por paradoxal que pareça foi um homem com aparência de desprevenido.


Três pessoas pararam para conversar, e conversavam. Achei estranho que fizessem, pois não traziam cachorros! Mesmo assim interagiam! É que os cães, em proporção abundante, parecem levar os seus "tutores" para passear, como donos deles fossem. Cumprem uma função adicional a de simples acompanhantes, desempenhando um relevante papel na sociabilização dos seus amos.


Em geral não há conflitos entre eles. Cheiram-se uns aos outros, no máximo emitem alguns resmungos amistosos, e enquanto isso os humanos entabulam diálogos não tão inusitados, pois comentam sobre os seus pares caninos:

- Meu cachorro é incrível! Vocês não acreditarão se eu contar. E olhem que ele não é treinado! E o seu?

- O meu é um abestalhado!


De passagem pensei: como assim?! No dia seguinte encontrei-o de novo com o seu Gold Retriever, que insistia em andar de lado.


A heterogeneidade das gentes no Parque é notável. Tem semelhança com a variedade dos cães, uns que parecem risonhos, outros de humor duvidoso. Os cumprimentos entre os humanos são menos comuns. Aconteceu de eu assistir o momento em que uma mulher deu "bom dia" a outra. A resposta aconteceu! Soou de lá um "bom dia" musical, de duração maior que o usual, que se por escrito teria umas três exclamações ao final. Ela fora surpreendida por algo não usual. A resposta àquele "bom dia" foi em tom de surpresa e admiração.


Não usual também tornara-se encontrar pessoas vestidas com camisas da seleção brasileira de futebol. Hoje porém, dois dias depois da eleição do Trump, me deparei com três. Em meio a aleatoriedade das camisas com estampas, a próxima que avistei trazia: "O jumento é nosso irmão". Bem lembrado!


A leitura das frases estampadas em camisetas termina sendo quase automática. Principalmente para alguém interessado em sociologia, antropologia, psicologia social... Elas nos levam a pensar em quantos mundos se juntam para formar esse em que vivemos.


Não deixa de ser engraçado ver quem contradiz o propósito expresso em suas camisas, como a estampa "Amo Correr", em quem visivelmente detesta andar. A diversidade de inscrições nas "T-Shirts" só não é maior do que conversam entre si os que andam acompanhados. De Mulheres que portavam: "Viajar & Aprender/Viver & Nunca Esquecer.", escutei comentários sobre um riacho em Surubim.


Já de uma provável aluna de "Coach": " Escolhi ser vencedora."


Ainda no campo das frases motivacionais: "Despite the waves, the diver found peace in the depths." Essa porém não é das frases mais longas que eu vi! Usuários de camisas Ultra Large, se permitem estampar verdadeiros prefácios nas suas costas. Para lê-las eu precisaria dos meus óculos de leitura, e acompanhar de muito perto andando por algum tempo no mesmo passo. Teria o risco da pessoa parar de repente, e eu nela esbarraria.


Alguns escritos podem ser, em uma primeira leitura, aparentemente enigmáticos: "A bike is not life at all." Outros são de natureza imperativa e espiritual: "Na mão do mestre, sê inteiro." A propósito, mensagens de religiosidade explícita às vezes nem precisam ser escritas.  Não raro vê-se passar mulheres a debulharem seus terços. E não sei o que pensar, dos que passam apressadamente a falarem sozinhos coisas ininteligíveis.


Por último tive a registrar as estampas de auto-defesa, tão claras quanto defensivas: "D'ont cut my vibe", "Não aperte minha mente", etc, etc... Não sei o que vem primeiro! Se a transcendência ou a necessidade de se defender.


Há porém os que tendo desenvolvido os músculos em academias,  parecem não mais encontrarem camisas que neles caibam. Nenhuma outra mensagem trazem além da demonstração de narcisismo, pois para fazê-lo teriam de trazê-las tatuadas no peito ou nas costas, o que não deixa de ser possível!


Depois de caminhar meu primeiro quilômetro, passo por três bancos à minha direita, e no banco do meio, sentado sempre no mesmo lugar, um senhor muito idoso, talvez mais de dez anos mais novo que eu. 👶 Como todos os dias a cena se repete, ela me remete à rua da aurora, às margens do rio Capibaribe, onde monumentos - homenagem a grandes escritores e poetas locais, mantém-se tão estáticos quanto aquele idoso do Parque.


Por fim, o relato não estaria completo, se eu não mencionasse que essa minha jornada matinal decorre pontilhada de eventuais encontros com conhecidos em diversos graus: parentes e amigos, passando por ex-colegas de trabalho, alguns vizinhos... A probabilidade até aqui desses encontros fortuitos, no meu caso, calculei que tem sido de 30%.


O que eu ando não me cansa. Me diverte! As vezes penso em dar tantas voltas no Parque, até ficar tonto. Ou cansado. O que acontecer primeiro. Isso porém não seria divertido. Mesmo repetindo esse hábito diariamente, fica claro: para um bom observador, os dias são desiguais por mais parecidos que sejam, e fácil é encontrar as diferenças através dos diferentes.


segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Sobre "O Avesso da Pele."

 

"Gostei de ter lido "O Avesso da Pele", livro do escritor Jefferson Tenório.

Dias depois ainda o guardo no pensamento, daquele mesmo jeito que um filme bom também permanece depois de visto.

Se alguém me perguntasse o que mais me ocorre de tudo que li, eu precisaria priorizar o que responder pelo bem da concisão.

Começaria pelo título que achei ter sido uma ótima escolha, pois não poderia ser mais apropriado para uma sucinta e precisa alusão à uma importante questão abordada: o racismo.

racismo, que no romance tem trágicas consequências. Essa ferida social que apequena a alma humana, e cujo triste significado levou a escritora francesa Anaïs Nin a defini-lo como "O analfabetismo da alma".

No entanto, a admissão em nosso país da presença do racismo é, senão negada, aceita por muitos com relutância.

O autor aponta para a dificuldade de identificação da existência do racismo, até mesmo por quem, sendo dele uma vítima, em seus estágios iniciais recusa-se em nisso acreditar.

E isso nos remete à questão do desenvolvimento da consciência, que por demandar tempo, torna a conscientização demorada.

Então, de início, fui levado a pensar na importância do desenvolvimento da consciência para além da necessidade específica da compreensão do racismo.

Refiro-me à importância da aquisição de uma consciência mais abrangente, que nos permita a compreender melhor o todo. Em especial ao que toca a cada um direta e profundamente, e que pode determinar a sua trajetória na vida.

Nesse ponto da leitura me ocorreu o quanto foi apropriado Graciliano Ramos dizer que "viver é perigoso, porque aprender a viver é o próprio viver".

Ainda no tocante à importância da tomada de consciência, a leitura me levou a admitir o quanto é humano as pessoas precisarem de um tempo para  perceber, às vezes, até mesmo as obviedades.

A clareza que nos vem através das experiências bem vivenciadas, é o amadurecer dessa consciência. Infelizmente esse não é um privilégio de todos. Para alguns, como o próprio autor diz: "A vida simplesmente acontecia e você passava por ela".

O alcance individual, a capacidade das pessoas discernirem a partir de suas experiências e de experiências dos outros, é um avesso que logo deixa de sê-lo para o bom observador.

Às vezes enxergamos menos em nós mesmos, do que conseguimos ver na alma dos outros.

Esse levantar um véu para começar a enxergar uma realidade antes oculta, o autor reconhece como sendo um processo. Algo que não lhe foi possível vislumbrar em um piscar de olhos, como até poderia acontecer para outros, o que pode ser creditado à grande diversidade humana.

Na sequência, outro aspecto que me ocorreu teve a ver com a importância dos livros, da sua leitura, e sobretudo da sua assimilação para o desenvolvimento da consciência. Há um momento em que o filho, se referindo às memórias que tem do pai, comenta: "Até o fim você acreditou que os livros podiam fazer algo pelas pessoas."

A comprovação dessa verdade vem a partir de quando, através de um seu professor, o professor Oliveira, ele é apresentado a Malcolm X, Martin Luther King... Nasce daí a sua compreensão maior sobre a questão do racismo. 

Os bons livros lançam luz aos lugares obscuros, e ajudam não raro a ver com maior clareza.

O aprofundamento que eles possibilitam resulta no fortalecimento de raízes. Raízes fortes ajudam a manter as árvores de pé. Mesmo quando os ventos são fortes e ameaçam fazê-las tombar.

Por fim, mas este comentário poderia ter sido feito de início, eu diria que me chamou a atenção o valor simbólico que tem a figura do pai. Independentemente do grau de excelência de um pai, o seu desaparecimento por morte é por vezes mais impactante para um filho, do que seria possível esperar face ao seu relacionamento com ele em vida.

Lembrei-me de um comentário que ouvi certa vez de um filho que acabara de perder, por morte, o seu pai. Não importou que não tivesse tido o mais desejável dos pais, e que conhecesse muito bem os seus erros. Mesmo assim, disse ele: "senti-me como se do mar tivesse desaparecido aquele grande navio transatlântico ali estacionado, e ficado apenas eu, solitário, em um barquinho no meio do mar".

Teria "O Avesso da Pele" nascido do valor simbólico de um pai?

Continuando, porém, eu diria que do muito que o autor externa a partir de suas vivências, várias de suas conclusões ensejam longas considerações. São "ganchos"para comentar sobre a vida! Por isso pude considerá-lo um livro rico por incitar que se ponha em foco questões existenciais de cunho prático.

O autor entre outros menciona: "Ataques de ansiedade", refere-se a alguém que "Ainda não sabia muita coisa sobre autoestima, nem sobre se valorizar, e essas coisas necessárias para manter a sanidade."

O autor também me fez lembrar Clarice Lispector, quando ela disse: "A vida é um soco no estômago", ao mencionar: "A vida não passava de um amontoado de obstáculos que você tinha de superar."

Em outro contexto ele, o autor, se refere a alguém que: "Nunca se questionou. Nunca se perguntou". Foi quando observou: "A vida simplesmente acontecia e você passava por ela."

Por outro lado, ao dizer: "O mar como remédio", me é inevitável pensar sobre o que na natureza e fora dela, também pode servir de remédio ao longo da vida! Penso no mar de distrações que podem ajudar qualquer um a viver.

O autor em meio a tantos "ganchos" para quem deseja examinar ou reexaminar a vida, refere-se: "A maior crueldade que um ser humano pode causar a outro é o abandono".

Nesse ponto confesso que eu não teria sido tão taxativo. O catálogo de crueldades, parodiando o autor quando fala em "Catálogo de Perdas", excede em tamanho os mais volumosos compêndios. 

Como atribuir ao abandono a medalha de ouro em meio a competidores tão credenciados?

A própria vida manifesta incrível espírito de crueldade, ao não poupar ninguém do mal. Sequer escapam do mal e das maledicências os mais prudentes.

É verdade que alguns abandonos são muito cruéis, pois há quem os sofra como a uma tortura. Outra vez me reportando à Clarice Lispector, ela não devia considerar essa morte em vida insuperável ao dizer: "Sofri muitas mortes, mas hoje não morro mais".

Difícil eleger a rainha das crueldades! Talvez porque não haja uma crueldade maior em termos absolutos. Cada um pode ser capaz de escolher aquela com a qual acha mais difícil de lidar.

Por isso eu não escolheria o abandono, mas a injustiça. A injustiça, esse forte concorrente no meu pódio das maldades.

Porém, prosseguindo só um pouquinho mais, senti-me familiarizado ao ler sobre: "Não para nos prendermos num passado, mas para nos libertarmos do presente". 

E ainda, ler e reportar-se a situações já vividas, como "Vegetando na sala" - que pode significar viver uma não vida no lugar que havia construído para viver com alegria.

"Pegar o touro com a unha". "Pegar a vida pela gola e sacudi-la". Isso é para mim olhar a fera nos olhos. É atirar-se à incerteza por ânsia de vida. É quando se tem de tomar uma decisão importante, e ao sentir o chão desaparecer sob os pés, descobre-se poder voar.

E ainda o romance traz algo que, mesmo não sendo um sentimento de largo espectro, alcança muitas pessoas: "Você sempre tivera a impressão de nunca ter conseguido influenciar ninguém". Coitado! Sei muito bem como deve ter se sentido.

Concluindo, nos deparamos com "Você é novo, ainda vai se decepcionar muitas vezes".

A vida é multifacetada e preferimos naturalmente as suas melhores facetas. Isso é tão óbvio quanto a jocosa cabala judaica: "Fui rico, fui pobre. Rico é melhor".

Contudo, viver seria decepcionar-se?

Talvez sim, embora, ainda bem, que não somente isso!

E por fim, o autor fala em: "Entrei no modo automático". Em que modo precisamos entrar para nos libertar do presente?

Enquanto buscamos a sobrevivência devemos ouvir o que disse a tia do pai da personagem principal, o narrador em primeira pessoa de toda a história, o filho que rememora o pai. 

Ela disse assim: "Continue querido. Só isso, continue..."

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Questões Relevantes.

                                         


"Um dia", os deuses confabulavam entre si. É certo que sobre assuntos do outro mundo!

No átimo de tempo eterno em que deliberavam, eis que entre eles estava o nosso Deus, que de súbito distraiu-se.

Provocou o equivalente simbólico de derramar o café da xícara.

Estava assim criado o mundo!

Sentiu-se desapontado pelos olhares de desaprovação dos outros deuses, que mais do que desaprovação eram ares de reprovação.

Foi a própria consciência do nosso Deus que assim pensou:

"Agora que assim fizestes, não importa que por descuido, disso vais ter de cuidar!"

Para que existir o mundo, se criá-lo nem aos deuses interessava? 

Mas ele surgiu mesmo assim por um Deus que de tão centrado em questões relevantes, por um instante deixou de lado o "alicate da atenção".

Nosso Deus então reflete: Ainda bem que com tudo isso que gerei, também foi gerada a dúvida. Sequer terão certezas! Acreditarão e desacreditarão em tudo que pensarem. Inventarão coisas, nas quais passarão a acreditar. As espécies animadas que  criei cambalearão ignorantes do essencial, através das suas existências curtíssimas, das quais pensarão serem centrais e intensas. A sabedoria e a estupidez conviverão em larga escala. Mas a sabedoria será sempre minoritária. Através de espécies ditas "inteligentes" toda essa porção inanimada, em meio a tantos espaços aparentemente vazios, se auto-observará com espanto. Viverão na esperança de desvendar mistérios que jamais desvendarão. Viverão esses seres na curiosidade e na esperança de vislumbres maiores, enquanto outros nem disso cuidarão. São tantos os olhares voltados para mim! Gostaria que soubessem que não fosse por distração, não os teria criado assim. Porque iria criar para os outros, o que não quero para mim? Ainda bem não sou obrigado a esclarecer as indagações de alguém. A revelia que os fez surgir é admiravelmente surpreendente e misteriosa não só para mim. Os demais deuses também pensam assim. No entanto achamos, que há acima de nós o Deus MAIOR, detentor de toda a verdade. Capaz de todas as respostas definitivas, às quais tememos que mesmo nós que também somos deuses, não sejamos capazes de entender. Desconfio que outros deuses assim como Eu, deslizes iguais ao meu também cometerão. Um dia junto ao Deus MAIOR que tudo sabe, a ele perguntarão: Por que?

Acontece que ainda não houve ocasião!

Ele está sempre com outros deuses em permanente reunião!

Há questões relevantes que estão sempre em discussão.


terça-feira, 23 de julho de 2024

Ainda sobre Distrações. Texto (02/03)

                                                    

   

Quando leio, costumo sublinhar, mesmo em livros digitais, o que quero destacar. Recentemente criei coragem, ou foi vergonha que criei, e organizei meus livros.

Há livros nas prateleiras que nunca li, há os que li mas não sublinhei, há os que não pretendo reler e os que lerei outra vez. Há até os que li e sublinhei!

O vento levou ao chão, me assustando, um livro ali mal colocado. Era "O Pai Goriot" de Honoré de Balzac. Um livro da família dos que eu havia sublinhado.

Pensei em com ele criar uma distração! 

E criei! 

Se Procurar... Texto (01/03)

                                                              


     "Você sempre pode encontrar uma distração se           procurar."

                                                                                  Tom Kite.                   

Sim! Até porque, as distrações têm a propriedade de se insinuar. As vezes nem é preciso procurá-las. Os mais atentos esbarram nelas quando é menos permitido! Selecionar algumas para praticá-las, convém fazê-lo escolhendo as mais saudáveis e compartilháveis.

Distrair-se, para mim, consiste em uma abstração descompromissada, exceto com o lazer - o lazer tem consistência com a descontração, o relaxamento, a felicidade.

Já provei, pelos anos que me couberam, do prazer dos trabalhos profissionais bem escolhidos. Aqueles que guardavam parentesco próximo com o lazer.

Concluída porém essa etapa, é de bom alvitre a busca pelo lazer raiz. As distrações das distrações. Nesse caminho a favor do vento, quase me perco em labirintos.

Enquanto busco a "Crème de la crème" das distrações, tenho relatado para mim mesmo retalhos do que vivi. É um juntar de coisas, talvez uma busca de sentidos, um repassar de experiências.

Mas o que era mesmo que eu estava dizendo? Confesso que me distraí.


"Quem Decidirá o Que é Mais Horrível para Ver... Texto (03/03)

                                                     

   

Honoré de Balzac, um expoente da literatura francesa, nasceu em 20 de maio de 1799, portanto dez anos depois da revolução francesa, na cidade de Tours, capital do departamento de Indre-et-Loire.

Para situá-lo na sua época, seis meses depois deu-se o golpe de estado do Brumário, com a ascensão de Napoleão. 

Balzac já tinha cinco anos, quando em 1804 aconteceu a sagração de Napoleão, na Catedral de Notre Dame de Paris, tendo início a chamada Primeira República. Foi quando Napoleão se tornou Napoleão I, dando continuidade à "Monarquia com título de República".

Consta que Balzac, aos 15 anos, tentou o suicídio no rio Loire, e que na vida adulta chegou a escrever por encomenda por necessidade de pagar dívidas.

O livro "O Pai Goriot", de 1834, é considerado por muitos críticos literários uma obra prima.

O gênio de Balzac pode ser reconhecido em algumas partes deste Romance as quais sublinhei, e não somente nelas.

Ao destacá-las a seguir, posso estar aguçando a curiosidade de quem ainda não leu, de melhor conhecê-lo.

Conhecer o extraordinário Balzac, e penetrar profundamente na natureza humana:

"Quem decidirá o que é mais horrível para ver: Os corações tornados secos ou os crânios vazios?"

"Um dos hábitos mais detestáveis desses espíritos Liliputianos é supor suas próprias mesquinharias nos outros."

"Um patife arrogante, capaz de fazer peças de dominó com os ossos de seu pai."

"Ela se parece com ele "Comme deux gouts d'eaux" (Como duas gotas d'água)"

"O mundo é um mar de lama, esforcemo-nos para ficar nas alturas."

"Aprenda a desconfiar desse mundo."

"Como sua fortuna se tornou conhecida apenas no momento em que não havia mais perigo em ser rico, ele não provocava a inveja em ninguém."

"Insensível a todos os prazeres do espírito."

"Fortes somente na estupidez."

"Ele amava até o mal que elas faziam."

"O pássaro até há pouco sem asas redescobriu sua envergadura"

"... cabeças repletas de pólvora que explodem ao menor choque".

"Fazer indignidades que revirariam o estômago de uma porca."

'Há também naturezas vigorosamente providas, crânios com proteção de bronze sobre os quais as vontades dos outros se achatam e tombam como os projéteis diante de uma muralha."

"Mas o senhor será infeliz como pedras de esgoto, com uma mulher que tiver desposado desse modo."

"Mais vale guerrear com os homens que lutar com sua mulher."

"Em uma palavra, nós o adoramos de joelhos quando não podemos enterrá-lo na lama."

"Ele é daqueles abobalhados que se agarram ás próprias opiniões."

"O senhor sabe como fazer o seu caminho aqui? Pelo brilho do seu gênio ou pela habilidade da corrupção. É necessário entrar nessa massa de homens como uma bala de canhão, ou ali se mover sorrateiramente como uma peste. A honestidade não serve para nada."

"Sou um grande poeta. Minhas poesias, eu não as escrevo; elas consistem em ações e sentimentos."

"O segredo das grandes fortunas sem causa aparente é um crime esquecido, porque ele foi apropriadamente feito."

"Os povos tem a liberdade como ídolo. No entanto, onde está, sobre a terra, um povo livre?"

"Se o senhor for um homem superior, seguirá em linha reta e com a cabeça erguida. Mas será preciso lutar contra a inveja, a calúnia, a mediocridade, contra todo mundo."

"Não existe, sem dúvida, a felicidade completa aqui na terra."

"...isso faria meu coração dar cambalhotas."

"...Elas me sustentam tão bem a alma!"

"Há prazer em seguir as inspirações da consciência."

"O interesse é demasiado forte para lhe remover todo escrúpulo."

"O sentimento, não é ele o mundo em um pensamento?"

"Espíritos estreitos."

"Seu rancor não foi em razão de seu amor, mas de suas esperanças logradas."

"Só tem ninharias para dizer."

"Isso pertence aos movimentos interiores que espalham o contentamento por toda parte."

Essa me terá sido uma distração profícua, se tiver despertado em alguém através da sua leitura, a vontade de descobrir o contexto em que brotaram essas ricas reflexões.

"Pois existe distração mais nobre, existe mais distraída companhia, existe mais delicioso transe do que a literatura? Quando me angustio, vou para o refúgio. Nenhuma necessidade de viajar; ir juntar-me às esferas de minha memória literária é suficiente."

                                                                                Muriel Barbery.



terça-feira, 9 de abril de 2024

Vai Ser Assim...

Dos aniversários de abril deste ano, 2024, há duas mulheres do meu convívio e da minha amizade e admiração, celebrando a idade que assinala o final de dois dígitos: D. Denise e Alaíde.


São 99 anos de vidas com aspectos singulares a destacar: O enfrentamento corajoso das vicissitudes, a superação admirável de muitas dores, mas também os momentos de muitas alegrias.


São histórias que se impõem pela realização de propósitos que foram cumpridos cada uma à sua maneira, com muita constância e determinação.


Alaíde foi quem nasceu em 09 de abril de 1925, e daqui a pouco estaremos indo à sua casa, no dia do seu aniversário, como de outras vezes, para participar da alegria de tê-la conosco.


O lugar se encherá de familiares e muitos amigos e amigas. As gerações mais recentes estarão representadas principalmente pelo seu neto e suas bisnetas.


A maioria dos seus amigos, porém, tem 10 a 15 anos a menos do que ela. São todos jovens pressurosos entre as idades de apenas 84 a 89 anos.


Assim é que apesar da presença dos adolescentes, outra vez me sentirei menino, não importando que não o seja, muito pelo contrário.


Pressuponho que assim como das outras vezes, também não haverá quebra-panela. No entanto como aconteceu no passado, haverá um piano no canto da sala.


Algumas das suas amigas nele se revezarão fazendo soar músicas ligeiras e alegres.


A hora do quebra-panela será aquela em que todas juntas, em uma dinâmica fila indiana, entoarão canções enquanto dão voltas pela sala.


Chamo isso de o rodopio da alegria, cujo significado simbólico não cabe na casa, e o vejo sair pelas janelas.


Alguém aqui, pensarei eu outra vez, deu real significado à vida! E não só Alaíde, a estrela máxima, como também outras pessoas ao seu redor.


De Alaíde bem sei que ainda jovem, na sua Palmares Natal, lutou contra as dificuldades na vida. 


Nos seus trajetos entre o trabalho e a casa, passava à frente de um casarão de onde ecoavam acordes de clássicos ao piano que a extasiavam.


Das vezes em que ela se quedou à frente daquela casa para ouvir embevecida aquelas músicas, veio a decisão de realizar um sonho então distante: um dia aprenderia tocar piano.


Alaíde co-fundaria o Conservatório de Música de Olinda, e durante 40 anos foi professora de piano do Conservatório Pernambucano de Música.


Já fazem parte do calendário destas Instituições, as periódicas homenagens públicas que lhe fazem, durante as quais é cercada pelo carinho de seus numerosos alunos e admiradores.


Quase esqueci de dizer que é provável durante a festa de hoje, ela dançar um pouco com Elias, o seu neto.


Também exibirá com justa vaidade o progresso ao piano de uma das suas bisnetas, as quais, ela e Alaíde, se esmeram uma em aprender, a outra em ensinar.


E chegará a hora do bolo!


Os "parabéns pra você" soarão a plenos pulmões ao som doce e familiar do piano, tão presente na sua vida.


Todos comerão bolo e se despedirão desejosos do reencontro no ano seguinte.


Certo dia perguntei a Alaíde sobre aspectos da sua vida diária. A que horas dormia, a que horas acordava, qual era sua rotina, o que mais gostava de fazer...


Discorrendo sobre a sua vida, ela não esperou que eu lhe perguntasse o que achava da velhice.


Ela foi logo dizendo: "Gosto da minha velhice. Convivo bem com as limitações que ela me impõe. Só há uma coisa que dela eu não gosto! Definitivamente.


Curioso, quis saber o que era. Afinal, Alaíde sempre foi de gostar mais do que de desgostar das coisas.


Ela respondeu:

- A velhice dura pouco!


Mas o que a ela todos desejamos é um longo prosseguimento dessa boa velhice. Tão duradouro quanto o seu amor pela vida. 


sábado, 6 de abril de 2024

Uma Vida com Vento. (Parte 05/05.)

                                                           
Dom Joaquim Ferreira de Melo
 

O componente religioso católico sempre esteve presente de modo muito intenso entre as famílias do interior onde nasci. Disso me dei conta desde as minhas primeiras percepções do meio.


Havia os familiares, tios da minha mãe, que no interior de suas casas mantinham capelas. Um deles mandara construir uma capela tão grande, que ocupava um espaço externo, vizinho à residência. Na realidade uma igrejinha, para que no futuro, o filho do casal que ainda era seminarista, viesse a celebrar a sua primeira missa depois de ordenado.


O tio Tonho, cuja capela nem era tão grande, ouvi dizer que determinou o futuro religioso do seu filho Pedro, que se tornaria um destacado padre da Ordem Jesuíta.


O tio Joaquim Ferreira de Melo, meu tio-avô, irmão do avô Pedro e do tio Tonho, foi um dos fundadores do Seminário Diocesano do Crato. Terminaria seus dias como Bispo de Pelotas, no Rio Grande do Sul, onde há um monumento seu em um dos parques.


Nesse contexto onde sempre me pareceu reservado um lugar para o transcendente, assisti com naturalidade a minha mãe construir na nossa casa a maior das capelas.


Afinal diz-se que o maior dos templos é o que se arma no coração do homem, ou da mulher. Pois era ali, no coração de Alice, a minha mãe, que estava armado o templo da nossa casa.


Dotada de uma notável força interior, movida por muitas rezas, promessas, novenas e fé inabalável, envolvia a mim e ao meu pai, na reza noturna diária de um terço, antes de podermos dormir.


Não conto as vezes em que fingi estar adormecido, quando no meu quarto ela entrava para fazer sua convocação. Eu não devia fingir muito bem, pois não lembro de jamais ter escapado dos seus ofícios.


Isso tudo é para, concluindo, dizer que vivi e considero que ainda vivo, sob a proteção das orações da minha mãe "pelos seus".


Alice partiu muito cedo, vitimada por súbita leucemia, quando tinha 52 anos! Mas partiu continuando comigo, como todos aqueles que por mim um dia rezaram.


A Irmã Ângela continua a fazê-lo do plano terrestre, e simboliza esse passado que mesmo longínquo, continua presente.


Sempre atribuí os milagres benfazejos na minha vida ao resultado do empenho espiritual de Alice, não tendo nunca me faltado, em tempos de pandemia, o reforço vacinal espiritual da irmã Ângela e de uma comunidade inteira de irmãs fervorosas e solícitas a pedir intercessão pelos outros, por vocação.


Sempre me senti beneficiado por encontrar, além delas, quem se ocupasse de rezar por mim, me proporcionando assim poder sentir-me envolvido por energias tão elevadas, porque celestiais.


Ao escrever sobre tudo isso fui movido pelo desejo de expressar a todas o meu reconhecimento e a valorização desses cuidados.


Foi daí que veio e continua a vir o vento que soprando suave e permanentemente nas minhas costas, me tem  levado sempre em frente.


Uma Vida com Vento. (Parte 04/05.)



Conviver com alguém de uma hierarquia religiosa tão apartada, e ao mesmo tempo próxima por parentesco e amizade, sempre me levou a fazê-lo com respeito irreverente.


Sem perceber, preenchia os espaços das nossas conversas com itens de um repertório que eu denominaria por "piadas sacras". Nada demais que o leitor não conheça. Piadas tão conhecidas, ditas velhas, mas que para alguém tão ausente deste mundo eram sim uma novidade risível. E quem mais poderia levar até ela, em um Convento, tamanha licenciosidade?


Por instantes, já que me encontrava sentado, apropriado seria dizer que ali ocorria senão um stand-up, mas eventuais stand-down.


Não deixarei ninguém sem saber o teor de tão específica modalidade.


Sintetizaria poucas dessas narrativas, contando que certa vez a provoquei, perguntando:

- Por que, sobre o casamento, é usual a ele referirem-se   como "Santo Matrimônio"?


Após ouvir detalhada e circunstancial explicação, como a de que este havia sido um dos importantes sacramentos instituídos pelo próprio Cristo, era a minha vez de opinar.


- Melinha, há uma explicação atualizada para isso, que não corresponde ao que você explicou! Dizem ser notório saber que o real motivo de chamar o casamento de "Santo Matrimônio", é porque tem feito muitos mártires.


É claro que "piadas sacras" são esgotáveis e não costumo repeti-las, assim como com as demais, para quem já as escutou uma vez.


Algumas porém eu já havia testado contando a um padre que eu mal conhecia. Concluí que uma delas era mesmo muito boa, pois foi a única da qual ele riu!


Levei-a então ao Carmelo: Tratava-se de que o avião no qual um padre viajava fumaçou, e já perdia altitude, quando ele sem ter com quem dividir sua aflição, pois os demais passageiros dormiam calmamente, dirigiu-se à cabine de comando.


Ao entrar deparou-se com a tripulação ali reunida, e o clima era de pânico generalizado. O padre logo dirigiu-se ao piloto a quem perguntou: 

- O que está acontecendo?


O piloto espantado e suando por todos os poros, olhando para ele respondeu:

- Sr Padre, estamos todos a caminho do céu.

Ao que o padre desesperado replicou:

- Não diga uma desgraça dessa!


Também estariam sempre presentes estórias de celebridades e santos ao chegarem ao céu, e outras de quem, sem nenhuma celebridade, refletiam através das situações e reações ali vividas, desejos muito terrenos.


Assim, lembro que até mesmo lá no Convento foi bem compreendida e teve reação divertida, quando contei sobre o viúvo que anos depois da mulher, chegou assim como ela finalmente ao céu. Ainda extasiado com aquele lugar de indescritível beleza, e usufruindo de inominável bem-estar, ouviu a voz inconfundível da sua mulher que o chamava. Apressado, voltou-se para ela a dizer:

- Alto lá! O nosso trato foi "até que a morte nos separe".


O diapasão da convivência com pessoa tão distinta de nós, os comuns, pela sua reservada vida de permanentes atividades litúrgicas, terminou por me levar a compreender um pouco a vida virtuosa que ali levavam, e até mesmo a conhecer uma das madres superioras, a Irmã Mírian, a qual de sentir-se superior não tinha nada. Muito pelo contrário!


Conheci outras internas pois aqui e ali mais algumas me eram apresentadas, e lhes asseguro, a nenhuma delas jamais contei nenhuma piada.


Contudo a vontade irresistível de me manter respeitosamente jocoso, certo dia me ensinou uma lição.


Passava das dezenove horas de um dia qualquer, quando estando eu dentro de um grande Shopping Center, assisti passarem duas freiras carmelitas descalças.


Não era a primeira vez, desde a suavização das regras, que eu me deparara com freiras carmelitas fora do lugar. Anteriormente, durante uma concorrida feira de artesanato, eu flagrara uma freira carmelita quase sozinha! Só estava acompanhada por uma mulher à paisana.


Fotografei-a, e também discretamente fiz vídeos que tornavam inegável a evidência. 'Pari passo', enviei para o celular da irmã Ângela, acompanhado da minha devida denúncia.


Sim, hoje é permitido o porte de celular, ainda que costumem usá-lo minimamente. Do mesmo jeito que é recomendado aos que têm porte de armas. 


Não tardou chegar a pronta justificativa. Trata-se de uma Irmã de um Carmelo do Canadá, em breve viagem ao Recife, significando que "não está sob a jurisdição do nosso Carmelo".


Voltando porém ao Shopping Center, como o horário era favorável a que por lá no convento recebessem ligações telefônicas, tão logo avistei a presença distraída daquelas duas irmãs, tratei de ligar para o telefone fixo do Carmelo.


Que sorte que atendeu quem eu precisava que fosse. Ninguém menos que a própria irmã Ângela, a única com quem eu tomava certas liberdades.


Fui logo dizendo do que se tratava: Melinha, preciso fazer uma denúncia. Estou em um Shopping Center, onde acabo de ver passarem duas freiras carmelitas infratoras.


Enquanto eu continuava o relato, a Irmã-prima aderindo ao meu espírito de humor, sem que eu percebesse colocou na extensão a Madre Superiora.


Eu continuava: Sinto que é meu dever avisar isso que se passa, pois com certeza a Madre Superiora não está sabendo de nada. Bastaria ela fazer aí uma contagem, para saber quem depois de anoitecer continua na rua.


Foi quando fui interrompido pela voz inesperada da Irmã Mírian, que deu uma justificativa arrasadora: "Saiba que não são freiras carmelitas do nosso Convento, elas fazem parte, isso sim, da congregação da nossa vizinha cidade de João Pessoa".


Ser desconcertado por freiras foi uma experiência nova para mim. Antes eu já havia sido desapontado por um velhinha, no interior de uma livraria! Mas isso já é outra história, e foi talvez para eu ir me acostumando.


Agora tratava-se não menos que da Madre que naquele momento a todas regia.


Contudo não pensei em concluir esse registro de relacionamentos monásticos enveredando pelo veio em que enveredei! 


Retomarei, a seguir, para redirecionar o roteiro, indo a um ponto central que mais caracterizou as décadas de visitas periódicas ao Carmelo, onde desde ainda jovem a irmã Ângela me recebe, até os dias atuais, já aos seus 90 anos, completados em 30 de junho de 2024.


Assim farei para concluir esse relato, na parte final desse texto.

Uma Vida com Vento. (Parte 03/5.)

 



A existência do Convento das Carmelitas fez-se sempre real e presente para mim ao longo do tempo.

Na origem de ser assim, identifico o espírito religioso da minha mãe e a sua ligação familiar com o pai da futura irmã Ângela, de quem era prima em primeiro grau.


Oriunda de um dos sítios vizinhos pertencentes a tios da minha mãe, o sítio São José, Melinha cresceu em meio ao ambiente onde me esbaldei quando criança em mil brincadeiras e travessuras.


O lugar é no sul do Ceará, na fértil região do Cariri, situado a meio caminho entre o Crato e o Juazeiro do Norte.


Tinha engenho de açúcar do tio Tonho, avô de Melinha e irmão do meu avô materno Pedro. Tinha moagens periódicas para produção de alfenim, rapadura, batidas e mel de engenho.


Havia balanços para a criançada debaixo de árvores frondosas, abundância de cajueiros carregados de cajus, passeios de jumento, invasão furtiva da capela da Casa Grande para tocar a campainha... Uma inocente quebra de proibição.


Quando criança, por motivos terrenos, eu via com espanto e incompreensão o "chamado vocacional" que não raro recaía sobre a cabeça de jovens, e na minha visão daquele tempo, lá se iam eles deste mundo.


Foi assim com o filho do Sr José Honor, vizinho dos meus pais na antiga rua das Laranjeiras, que muito jovem ordenou-se padre sob o protesto das moças do lugar.


Estranhei também, lamentando por ela, a decisão da Irmã Ângela-Melinha por motivo diverso.


Como pode alguém abrir mão para sempre do paraíso da minha infância, tão real e desde já desfrutável, por um outro paraíso tão futuro e incerto?


Que interessante acho agora confrontar tais pensamentos de criança com os que vieram depois!


Os pensamentos atuais consideram a ação inexorável do  tempo que tudo transforma, exceto certas vontades.


Uma Vida com Vento. (Parte 02/05.)


Os regulamentos internos das Ordens espartano-católicas abrandaram-se com o tempo. Sinais vindos do Vaticano contribuiriam cada vez mais para, a partir do papado de João XXIII, acontecer uma paulatina suavização dos rigores.


A concessão de as internas passarem a poder ser vistas por gregos e troianos foi um primeiro passo revolucionário. Perderam o sentido as simbólicas setas pontiagudas das grades, que logo desapareceram. Restaram, como amostras de uma antiga tradição, as cortinas e a grade sem pontas. Uma grade gentil.


Minha consciência crítica desenvolvera-se admiravelmente desde que, ainda garoto, visitei pela primeira vez aquele lugar.


Ao escutar da prima freira sobre novas concessões comportamentais, não resisti de parabenizá-la comentando: tais mudanças fizeram vocês avançar. Não hesito em dizer que vocês agora estão a alcançar os costumes medievais.


Saírem em dupla por motivo justificado tornara-se permitido, ainda que não incentivado. Uma ampliação das permissões antes concedidas apenas para o caso de atendimentos médicos.


Assim é que certa manhã cheguei cedo ao Convento, e depois de tocar a campainha, veio à porta a irmã-porteira.


A ela expliquei o motivo da minha presença. Precisava falar com a irmã Ângela, nome de guerra de quem conheci por Melinha.


A irmã-porteira foi logo me dizendo: irmã Ângela não está! Ela foi ao oculista.


Agradeci e me despedi sem mais nada perguntar. Era grande a distância ao Carmelo do lugar de onde eu viera. Uma longa viagem perdida!


Não custava porém insistir, afinal precisava falar com ela o quanto antes. Voltei para casa, planejando retornar ao fim do mesmo dia.


No finzinho da tarde eis que voltei lá outra vez. Depois do habitual toque na campainha à entrada, abre-se a porta e a mesma freirinha-porteira surgiu à minha frente.


Digo: Boa tarde irmã, voltei para falar com a irmã Ângela.


Surpreendeu-me o olhar de espanto que ela fez ao me ver e ouvir. Reações maiores do que seriam de esperar ao constatar uma simples insistência.


Recuperada do espanto de me rever, ela falou: "Mas já não lhe disse que ela foi ao oculista?!!!


Ao que retruquei: Sim, mas isso foi às nove horas da manhã! Será que sendo quase cinco horas da tarde já não há tempo de ela ter voltado?


Ao que a freirinha finalmente me explicou: O oculista dela é em Belo Horizonte, nas Minas Gerais.


Uma Vida com Vento. (Parte 01/05).




Creio que nem mesmo ela conseguiria explicar o que lhe aconteceu! A decisão sobre o seu futuro sobreveio sem margem de dúvida, certeira como a seta no centro de um alvo; antes mesmo que completasse os seus 18 anos!


Seria preciso, antes de dar o passo decisivo, obter a aceitação sobretudo do pai. Quanto aos amigos, eles terminariam assimilando. O tempo que ainda faltava para a sua maioridade, a ajudaria a consolidar o que para si já estava resolvido.


Muitos que a conheciam chegavam a duvidar que ela levasse à frente aquele plano, em face à sua natureza aparentemente comum ou "normal" que não a diferenciava de outras moças com ideais seculares.


Fato é que, aos 20 anos, foi recebida, vinda do interior para a capital, na então ainda pequena comunidade das freiras Carmelitas Descalças em Recife.


O Convento, de uma Ordem então reconhecida por sua sobriedade e rigor, situava-se em um bairro da cidade, cuja rua por coincidência e adequação, tinha o nome de um padre: Rua Padre Roma.


Anos depois, com o aumento do burburinho que prenunciava a agitação que terminaria por predominar naquele bairro, o Convento foi transferido para um local até hoje relativamente pacato, na vizinha cidade de Camaragibe, que faz parte do grande Recife.


As duras regras de então, demandavam daquelas que escolhiam entrar para a Ordem, despedirem-se do mundo exterior. Jamais veriam os outros, e os outros jamais as veriam.


Havia porém uma exceção. Caberia à própria mãe da postulante continuar a vê-la, ainda que apenas nas ocasiões em que a visita lhe fosse concedida, e pela duração permitida.


Os locutórios onde esses raros encontros aconteciam eram divididos em dois. A parte interna com ligação para o interior do Convento, ou da clausura, e o outro lado que fazia parte do planeta Terra.


Para melhor explicitar essa fronteira, havia uma cortina interna, e por fora uma grade de ferro, na qual, em espaços regulares, haviam setas pontiagudas.


Para agravar os rigores de vida a que as freiras carmelitas se submetiam, as mães de várias delas já haviam morrido. Teriam então perdido o direito de ver alguém? Não propriamente! Em casos assim, caberia a generosa concessão da substituição da mãe falecida por alguém da família em posição de fazê-lo.


Foi desse jeito que coube à minha mãe, por justa escolha, tornar-se beneficiada de poder vê-la sempre que a visitasse.


Tais condições restritivas eram vigentes quando eu, ainda garoto, acompanhei os meus pais ao Carmelo para uma visita à nossa prima Melinha.


Eu ia com o sentimento de que estava prestes a vivenciar algo tão incomum quanto estranho. Mas ainda não tinha a consciência formada, de modo a formular qualquer opinião crítica a partir do exercício da razão. Porém, naturalmente, esse não era o caso do meu pai!


Os primeiros movimentos após o nosso acesso à parte terrena do locutório, logo após o arrastar cauteloso das cadeiras nas quais nos sentaríamos, era o de ouvir girar o trinco de uma porta invisível que em seguida rangeria.


Era também previsível que segundos depois a cortina seria aberta. Aberta parcialmente. De frente à abertura, já estava posicionada a minha mãe.


Elas então se falavam e se viam. Quanto a mim e ao meu pai, sentados convenientemente afastados, curiosos, só ouvíamos.


E como já falei, meu pai já tinha opiniões formadas. Ele bem que resistiu um pouco, considerando os seus padrões. Houve contudo um momento, em que sem nada avisar, levantou-se da cadeira. Segurou firme na grade tendo o cuidado para não se ferir na ponta das setas.  Como se tentasse arrancar a grade, antes de retirar-se bradou para o Convento ouvir: "Isso é um absurdo!"


A visita mal começara e ele a dera para si por encerrada. Daquele jeito para ele não valia a pena!