quarta-feira, 6 de junho de 2018

Os Frutos das Jaqueiras.



Caminhava absorto pelo Parque da Jaqueira, dando asas aos pensamentos que à minha cabeça viessem. Para mim o dia pareceu estar mais bonito que os outros! Até achei que isso me ajudava a sentir a alma estranhamente “filosofal”. Eu estava reflexivo e propenso a caminhar também pelo meu infinito interior.

Eis que de repente, como é comum que ali aconteça, um alto vozerio de alguns passantes me desconcentrou. Mais que isso, aqueles elevados decibéis me obrigaram a escutá-los.

Depois de ouvi-los, em uma estranha associação, reportei-me a "Alice no País das Maravilhas". Nesta admirável obra, nos conta o seu autor como Alice ao cair no poço se dá conta de estar em outro lugar. O lugar onde sua aventura acontece, e que dá nome ao livro.

Pois bem, cruzei com Alice, passando por ela na direção contrária. Eu vim de um mundo, parecido com o mundo das ideias preconizado por Platão, para o meu mundo real.

Voltei como quem é acordado bruscamente, para ouvir assim:

- “... e aí, ele disse para ela: só não lhe estupro, porque você é feia.”

E prosseguindo:

- “Ela foi dizer que ele tinha cara de estuprador!!! E o que ele tinha que dizer pra ela era isso mesmo!         ( Risos ) Aquela petista safada...”

Em seguida:

- “Eu vou votar nele.”

E o interlocutor ao lado arremata:

- “E eu também.”

(Já são dois votos! pensei.)

Não encontro quem explique inteligentemente muitas das coisas que hoje se dizem. Mas ainda que tentassem fazê-lo, nem toda explicação é passível de ser compreendida. Em contrapartida, há muito que não precisa ser explicado para que compreendamos.

É impossível, mesmo para um péssimo observador, não identificar em muitos dos "habitués" do Parque, características estranhas.

E com a experiência de muitos anos como frequentador do Parque a cada dia me parece que mais esquisitices observo. 

Para quase todos tenho um olhar compreensivo, de espírito fraternal e às vezes até de comiseração, pois há casos que nos fazem admitir que não existe doença pior do que as que afetam a mente.

Mas reconheço, ali, diferentes tipos de esquisitices:

Um homem diariamente caminha a sacudir repetidamente para o alto um coco verde, que em seguida, sem se deter, apara.  Uma esquisitice leve!  Tão leve que chega a ser discutível. Afinal o que é ser "Normal"?

Outro, em marcha atlética acelerada, dá nervosas baforadas em um cigarro, enquanto na outra mão segura um copo plástico. Supostamente para nele derramar as cinzas. Um tipo de esquisitice que considero menos discutível. 

Um terceiro, caminha vestido para trabalhar, possivelmente em um escritório, levando debaixo do braço uma pasta com documentos. O faz falando sozinho em tom alto e raivoso, sugerindo que está descompondo com palavras ásperas, grosseiras mesmo, um chefe imaginário. Coitado!

E a lista não termina por aí! Apenas quis, ao exemplificá-los, dizer que esses tipos de comportamentos não fazem mal a ninguém. 

Mas há um tipo de atitude, representada por aqueles que escolhem votar em quem incrivelmente reúne os mais detestáveis predicados, aos quais dedico minha intolerância.

A tolerância consiste em um nada fazer. Devemos ser tolerantes em respeito ao direito dos outros ao pensamento diverso. E nos faltam e muito, nos dias de hoje, pessoas que tenham essa caraterística, pois ela é uma boa qualidade, ela é considerada uma virtude. A tolerância evitaria as guerras.

Mas a tolerância deixaria de ser virtude, se pela inação permitisse avançar o mal. Daí porque a tolerância tem limite. Como tolerar adeptos de um fascista que elogia torturadores, pede a volta dos militares, é racista e homofóbico?

Ainda bem que eles andaram ligeiro, como se falar sem precisar pensar tivesse a propriedade de lhes acelerar os passos. Logo distanciaram-se de mim permitindo que deles, e do que disseram, eu me desligasse: “Palavras loucas, ouvidos moucos” é o que aprendemos com a sabedoria popular. 

Voltei para onde antes eu estava. E o pensamento final que me acometeu, felizmente me elevou acima das emoções terrenas.

Pensei: Cada pessoa é o ponto de encontro entre dois infinitos. Os infinitos interior e exterior. Não seria a morte (e nela nos igualamos) a unificação desses infinitos? Não seria morrer “infinitar-se”?

A transcendência não tem limite. A tolerância tem.

2 comentários:

  1. O observador que não se envolve no que ouve. Digo um caminhante corriqueiro e tirar uma bela conclusão do infinitar-se. Dimistifica o mistério da morte...

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  2. Prosa saborosa, primorosa. Parabéns Jucá !! Gostei da elegância do seu texto. Flui prazerosamente.

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